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Londres 2012: Rixa, depressão e derrota no Pan motivaram bronze de boxeadora

Atualizado em  8 de agosto, 2012 - 14:00 (Brasília) 17:00 GMT
Adriana Araújo | Crédito da foto: AP

Adriana Araújo não conseguiu superar a russa Sofya Ochigava e ficou com o bronze.

A boxeadora baiana Adriana Araújo, que conquistou nesta quarta-feira a primeira medalha olímpica do boxe brasileiro desde 1968, afirmou que usou da experiência negativa - como uma rixa com a Confederação Brasileira de Boxe (CBB), comentários feitos por dirigentes brasileiros e até mesmo sua derrota nos Jogos Pan-Americanos de 2011 – para dar a volta por cima e garantir a conquista do bronze nos Jogos de Londres.

Lutando na categoria leve (até 60kg), a brasileira foi derrotada por 17 pontos a 11 pela russa Sofya Ochigava na semifinal disputada no ginásio do Excel Centre, em Londres.

Com a vitória em cima da brasileira, a russa disputará a final contra Kate Taylor, um dos maiores ícones do esporte na Irlanda.

Adriana terminou com o bronze, assim como Mavzuna Chorieva, do Tadjiquistão.

A primeira e única medalha olímpica do Brasil havia sido conquistada por Servílio de Oliveira, que ganhou bronze nos Jogos da Cidade do México em 1968.

O bronze de Adriana Araújo vem na primeira vez que o boxe feminino é disputado em uma Olimpíada. No masculino, o brasileiro Esquiva Falcão ainda está na disputa pelo ouro e já garantiu, no mínimo, o bronze.

Luta

Adriana não conseguiu superar Ochigava em nenhum dos rounds da luta, que começou equilibrada. No primeiro round, o placar definido pelos juízes foi de empate: 3 a 3. No entanto, a russa venceu todos os rounds seguidos, por 5-3, 5-3 e 4-2.

No segundo round, Adriana Araújo assumiu a ofensiva, mas abriu a retaguarda e acabou tomando dois golpes na cabeça em sequência, com a direita e com a esquerda da boxeadora russa. No terceiro e no quarto rounds, a brasileira esboçou uma reação, sem sucesso.

Ao final da luta, ela comemorou sua medalha de bronze, mas criticou a arbitragem.

"O terceiro round eu achei que não tinha perdido. Mas aqui nós sabemos que não temos que lutar apenas contra as nossas oponentes, mas também contra a arbitragem. Eu sabia que a luta ia ser dura não só pela Sofya, mas como também pelos árbitros. (Pesa) o fato de ela ser uma das favoritas aqui das Olimpíadas", disse.

Rixas e depressão

"O povo brasileiro não sabe a dificuldade que eu tive na minha trajetória de 12 anos, em especial nos últimos dois anos"

Adriana Araújo, boxeadora e medalhista de bronze

Aos jornalistas, logo na saída do ringue, Adriana relembrou algumas das dificuldades pelas quais passou nos últimos anos.

"O povo brasileiro não sabe a dificuldade que eu tive na minha trajetória de 12 anos, em especial nos últimos dois anos", disse.

"Só tenho a agradecer àquelas pessoas que me ajudaram. E até mesmo às que não me ajudaram, que muitas vezes me deram palavras de negatividade, como por exemplo um dos membros superiores da minha seleção, que falou que eu não tinha capacidade de me classificar", disse ela, sem citar nomes.

Adriana criticou a Confederação Brasileira de Boxe por manter todos os trabalhos da seleção brasileira no centro de treinamento em São Paulo, apesar de grande parte dos integrantes da equipe serem baianos.

Ela afirmou que a mudança provocou depressões em diversos atletas, que prejudicaram ainda mais a preparação para as Olimpíadas.

"Eu tive que superar dificuldades lá na seleção brasileira, as depressões de ficar longe da minha família, do meu técnico.", disse.

"Ninguém quer ficar lá, muitos lá vivem em depressão. Eu não pude treinar com o meu técnico Luis Dórea. Tudo isso fez com que eu lutasse, redobrasse a minha luta, para vir aqui e ficar com essa medalha."

O técnico Claudio Aires foi mais diplomático e elogiou a estrutura que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) montou para os atletas em Londres, na véspera dos Jogos.

"Saímos daqui com 100% de felicidade. Só tenho a agradecer a todo o povo brasileiro, a todo o povo do boxe que compartilhou conosco cada momento – em cada jab, em cada direto. Quero agradecer ao COB que nos deu todo o suporte, toda a infra-estrutura aqui em Londres. Eu acho que só temos a somar e nos preparar para 2016", disse.

Derrota no pan

A boxeadora de 30 anos também mencionou a infância pobre e a derrota no Pan de 2011, antes da conquista do bronze, inédito em sua modalidade.

Adriana nasceu e vive até hoje com seus irmãos em um dos bairros mais pobres de Salvador. Órfã de pai e mãe, já jogou futebol no passado e evitava esportes de contato, devido a seu temperamento explosivo.

Mas o convívio com o boxe, segundo ela, a ajudou a controlar seus instintos. Aos 30 anos, acumulava títulos brasileiros e sul-americanos. Venceu todos os campeonatos brasileiros entre 2003 e 2010 (com exceção de 2006) e foi pentacampeã Pan-Americana.

Nos Jogos Pan-Americanos do ano passado, em Guadalajara, havia grande expectativa de medalhas para o Brasil, mas Adriana acabou vencida nas quartas-de-final pela mexicana Erika Cruz. Vaiada do começo ao fim na luta, ela culpou, principalmente, a altitude pela derrota.

"A derrota que tive nos Jogos Pan-Americanos e consegui superar. Consegui mostrar a mim mesmo que eu sou Adriana Araújo, sou mulher, sou capaz de chegar aqui, me classificar e trazer essa medalha para o boxe brasileiro", disse.

Novo rumo

A atleta, de 30 anos, não terá a oportunidade de lutar diante da torcida brasileira nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016, já que pretende mudar de rumo em sua carreira.

Adriana revelou que quer seguir agora no boxe profissional, mas que não descarta atuar em jiu-jitsu ou até mesmo no MMA, modalidades que ela treina junto com Dórea na sua preparação para o boxe olímpico.

"Eu não pretendo mais ficar no boxe olímpico. Meu objetivo agora é investir no boxe profissional. Ele [Dórea] quis me jogar no MMA e estou aí, já até sei fazer alguns treinamentos do MMA, mas vou buscar agora o boxe [profissional]", disse.

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