Londres 2012: Um guia para (tentar) entender os britânicos

Atualizado em  27 de julho, 2012 - 13:01 (Brasília) 16:01 GMT
Crianças (Getty Images)

Visitantes poderão conhecer melhor hábitos britânicos e transformações pelas quais país passa

São várias as características normalmente associadas aos britânicos, muitas delas reforçadas pelo cinema e pela cultura pop.

Mas os britânicos não podem mais ser definidos apenas pelo seu senso de humor irônico e auto-depreciativo, pela eficácia - e por vezes complexidade - de seu sistema de transportes coletivo e por sua sociedade claramente demarcada por classes.

Os Jogos Olímpicos de Londres 2012 serão uma oportunidade para que visitantes possam conhecer melhor algumas das idiossincrasias, hábitos e regras que os britânicos, mas também para melhor se familarizar com as transformações pela qual a Grã-Bretanha vem passando e que muitas vezes escapam ao olhar dos estrangeiros.

Sotaques

Hugh Grant (BBC)

Hugh Grant personifica o cavalheiro britânico nas telas

No cinema, vê-se personagens britânicos com uma tendência a exibir um destes três sotaques: ''o cavalheiro inglês'' (Hugh Grant), ''o herói escocês/irlandês'' (Mel Gibson), ''o sotaque popular cockney'' (Dick Van Dyke). Mas, na realidade, a Grã-Bretanha posui muitos sotaques diferentes. Dominic Watt , um linguista da Universidade de Watt, afirma que em distintas regiões da Grã-Bretanha você pode ouvir sotaques diferentes ao se cruzar uma ponte ou atravessar uma rua. O sotaque de Liverpool é bem distinto do da vizinha Manchester. Pesquisadores identificaram um novo sotaque que qualificam como inglês de Londres multicultural, influenciado por imigrantes caribenhos, do oeste africano e do sul asiático. Outros definiram este sotaque como Jafaican, termo criado pela junção de ''Jamaican'' com ''African''. Além das diferenças regionais, Watt afirma que a distinção na maneira de falar por classes é maior na Grã-Bretanha do que em outros países. As Olimpíadas serão uma chance para se conferir essa multiplicidade de sotaques, já que eles são refletidos na própria equipe olímpica britânica.

Os policiais...e seu uniforme peculiar

Jack Warner, como Dixon, da série Dock Green

O policial Dixon oferecia lições de moral aos espectadores

Há várias gírias para se referir aos policiais do país, muitas delas carinhosas. Uma das mais afetuosas é ''bobbies'', em homenagem a sir Robert Peel, daí o Bobby, diminutivo de Robert. Peel fundou a Polícia Metropolitana em 1829. A televisão ajudou a criar a imagem do bobby, com o personagem Dixon da série Dock Green. O seriado durou mais de 20 anos e foi exibido até 1976. Dixon, interpretado por Jack Warner, era um tira afetuoso, que mantinha laços com sua comunidade. Ao final de cada programa, ele falava diretamente ao espectador, como se fosse um policial nas ruas britânicas advertindo um transeunte. Aos olhos de um estrangeiro, Dixon se destaca por duas coisas. Primeiro, há seu capacete característico. Inspirado em um desenho da era vitoriana, ele ainda é usado por diversos policiais na Inglaterra e no País de Gales e ainda que não seja capaz de oferecer proteção eficaz, ele se mostrou de grande valia ao menos em um evento esportivo. Em 1974, uma partida de rúgbi entre a Inglaterra e a França foi interrompida por um nudista que invadiu o gramado. Um policial tampou a genitália do invasor com seu chapeu em uma imagem que correu o mundo. A segunda característica marcante é que Dixon não porta uma arma. Quarenta anos depois, e ainda que os sucessores de Dixon sejam hoje muito mais musculosos, os policiais britânicos não costumam portar armas de fogo. Para muitos, isso seria um sinal de êxito do modelo de policiamento britânico.

Revezamento na compra de cerveja

Pint de cerveja

Ignorar a sua vez na rodada de compra de cervejas é um grave erro de etiqueta

Em vez de comprarem cerveja coletivamente no bar, cada integrante de um grupo de frequentadores dos pubs britânicos se reveza na compra de cerveja. Não respeitar a sua vez no revezamento, é um grave erro de etiqueta. Não se trata só de cerveja. Participar de uma rodada significa fazer parte de um grupo. E as rodadas são uma maneira pela qual todo mundo possa ter a oportunidade de ter um copo cheio diante de si. Assim, laços recíprocos são formados entre todos os participantes. O sistema também tem uma função prática, a de assegurar que os funcionários do bar não fiquem sobrecarregados tendo de atender uma procissão de pedidos individuais. Nem todo mundo aprecia essa prática. Na Primeira Guerra Mundial, a prática era expressamente proibida em algumas regiões devido a temores de que ela estimulava trabalhodres de indústrias consideradas essencias a beber mais. Em 2011, o jornal The Sun noticiou que Richard Thaler, um assessor do primeiro-ministro, disse que o sistema de revezamento deveria ser substituído pelo pagamento de uma conta no final da noite. Mas entre os tradicionalistas, o sistema de rodadas permance sendo o método favorito. ''Eu considero um sistema perfeito'', afirma Roger Protz, editor do Great British Beer Guide. ''Faz parte da atmosfera cordial do pub britânico'', acrescenta.

Gastropubs

Insituição britânica, até mesmo políticos, como o prefeito londrino, Boris Johnson, frequentam pubs

Os pubs, abreviação de public houses (casas públicas) estão entre as poucas instituições públicas exclusivas das ilhas britânicas. Muitos visitantes já são familiarizados com seu os típicos pubs britânicos, onde é possível tomar uma gama variada de cervejas, jogar dados e saborear alguns poucos pratos típicos de seus limitados cardápios, mas nem todos conhecem os chamados ''gastropubs''. O The Eagle, apontado como sendo o pioneiro do gênero, foi inaugurado em 1991. Desde então, o conceito se espalhou pelo país. A ideia dos gastropubs é que eles permitem ao cliente comer refeições típicas de um restaurante, mas em um ambiente menos formal que um de restaurante. Muitos não servem hambúrgueres ou o tradiconal fish and chips dos pubs normais, mas sim pratos tailandeses, risotos e carnes como faisão ou pato com molhos à base de mostarda ou vinho tinto. Os críticos dizem que eles nada mais são que uma distorção burguesa de uma instituição popular. Mas o crítico gastronômico do jornal Observer, Jay Rayner, afirmou que eles se mantiveram fieis à tradição dos pubs e transformaram ''uma tradição da classe trabalhadora em uma tradição da classe média''.

Fazer filas

British public queing during Wimbledon (BBC)

Nem a chuva ou o frio intimidam os britânicos em se tratando de fila

Os britânicos tendem a acreditar que eles têm o dom de fazer fila de forma paciente e bem-humorada. Seja para assistir as partidas do torneio de tênis de Wimbledon, para fazer compras durante os descontos de janeiro, ir ao banheiro durante o intervalo de uma peça teatral, a fila entre os britânicos não é mais um ponto intermediário para se chegar a algum lugar. Ela passou a ser o lugar em si. Não importa o quão tediosa seja a espera, os britânicos seguem na fila. Joe Moran, um historiador cultural e autor do livro Queing for Beginners (Filas para Principantes, em tradução literal) afirma que a ideia de que os britânicos são bons de fila surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Foi uma reação a uma época em que a escassez de recursos induzia a brigas e a polícia era rotineiramente chamada para dispersar multidões. O autor satírico húngaro George Mikes ajudou a perpetuar o mito, ao cunhar a frase: ''Um inglês, mesmo quando está sozinho, é capaz de formar uma fila organizada de uma só pessoa''. Mas Moran diz existir poucas provas de que os britânicos são de fato bons de fila, mas a reputação alimenta a auto-imagem deles de pessoas pragmáticas e educadas. A lição para qualquer visitante é que estar ciente de que os britânicos se julgam bons de fila. Por isso, se você quer tentar furar a fila, faça-o com discrição.

Curry britânico

Frango ao curry, servido em restaurante de Brick Lane

Curry, originalmente da Índia, foi adotado por britânicos

Não se deixe enganar pelo fato de que o curry é encontrado em restaurantes descritos como indianos e que são, em sua maioria, administrados por bengalis. O curry é tão britânico quando seu acompanhamento favorito, o copo de cerveja lager. Nascidos de pais estrangeiros, os britânicos amam tanto o curry como a lager como se fossem seus próprios filhos. De acordo com o Dicionário Oxford de Inglês, a palavra curry é uma corruptela ou do termo tamil ''kari'' ou da palavra do idioma canarês - ambas línguas da Índia. Apesar da raiz ser indiana, os sul asiáticos não possuem um termo só para definir seus vários pratos distintos. A palavra ''curry'', no entanto, ajudou a vender a culinária indiana para os britânicos. A Associação de Restauranters Bengali acredita que existam, atualmente, 9.500 restaurantes ditos ''indianos'' na Grã-Bretanha que servem cerca de 3 milhões de refeições por semana. O curry foi adaptado ao gosto britânico, como vindaloo, um prato de carne de porco marinada no vinagre, que é uma versão de uma receita originalmente de Goa. Frango tikka massala é hoje um dos principais pratos britânicos.

O silêncio é de ouro

Quebra da lei do silêncio pode levar à condenação geral

Ônibus, trens e vagões de metrô podem parecer o espaço natural para se começar uma conversa. Mas é preciso ter cautela. Para muitos britânicos, puxar papo com estranhos no transporte público é um erro de etiqueta dos mais severos. Se você pegar o metrô na hora do rush em Londres, verá inúmeros estranhos esprimidos. Apesar de eles aparentarem intimidade em termos de proximidade, há na verdade uma distância simbólica entre eles. Se você rompe esse código, é repreendido com um silêncio constrangedor. Todos à sua volta tenderão a evitar a troca de olhares com você. Não é toda a Grã-Bretanha que é tão circunspecta em se tratando de conversar com estranhos. Os moradores do norte da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte se orgulham de ser mais amigáveis que seus vizinhos no sul do país.

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