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Jogadores brasileiros denunciaram maus-tratos em oito países

Atualizado em  24 de julho, 2012 - 05:37 (Brasília) 08:37 GMT
Lucas Alves  (Arquivo Pessoal)

O paranaense Lucas Alves precisou de ajuda da embaixada brasileira para poder deixar o Irã

Os esforços do governo para coibir a exploração de brasileiros no exterior também têm como público-alvo um grupo profissional que já atua internacionalmente há várias décadas: os jogadores de futebol.

Segundo o Itamaraty, nos últimos três anos, ao menos 50 jogadores brasileiros procuraram representações diplomáticas do país em busca de ajuda. Eles relataram, na maioria dos casos, descumprimento de contrato pelos patrões, más condições de trabalho e dificuldades para voltar ao Brasil.

"É possível que tenhamos até 300 atletas nessas condições", calcula Luiza Lopes da Silva, diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior.

O Itamaraty já registrou queixas de jogadores brasileiros na Armênia, China, Coreia do Sul, Grécia, Índia, Indonésia, Irã e Tailândia. Segundo a Confederação Brasileira de Futebol, há cerca de 6 mil brasileiros em times estrangeiros.

Na Cartilha de Orientações para o Trabalho no Exterior, o Itamaraty diz que boa parte dos jogadores explorados são vítimas de "agentes inescrupulosos, intermediários de propostas tentadoras que escondem armadilhas".

O texto afirma que os agentes costumam dar prazos curtos para a decisão do jogador, para evitar que ele se informe melhor. Há casos em que, uma vez no exterior, o atleta encontra condições de vida e de trabalho ruins, é tratado com brutalidade pelos treinadores e tem o contrato de trabalho desrespeitado.

"Com frequência, o jogador é submetido a uma carga de treino excessiva, instalado em alojamento precário e vê seu salário ser descontado diariamente – sem que isso tenha sido explicitamente acordado – com alimentação, acessórios esportivos e outros itens", diz a cartilha. Em outros casos, os jogadores são rejeitados pelo clube e abandonados sem passagem de volta nem assistência.

Passaportes extraviados

Contratados por um time de Sari, no Irã, o paranaense Lucas Camargo Alves, de 22 anos, e o gaúcho Cassius Lumar Viana Rosa, 25, mudaram-se para o país persa em julho do ano passado, atraídos pelo que consideraram uma boa oferta de trabalho.

Três meses depois, no entanto, o clube não entrou no campeonato local e suspendeu os pagamentos dos atletas. "Pedimos para vir embora, mas disseram que os nossos passaportes tinham sido extraviados", afirma Alves.

Após insistirem, o clube disse que só entregaria os documentos se os jogadores pagassem, cada um, US$ 30 mil referentes a gastos com hospedagem, passagens e comissões recebidas.

"Fugimos para a capital (Teerã) sem ninguém saber", afirma.

Em Teerã, a dupla procurou a Embaixada brasileira, que contatou o clube e conseguiu recuperar os passaportes. No entanto, os atletas descobriram que, para deixar o país, teriam de pagar uma multa de US$ 3 mil por causa do vencimento de seus vistos.

"Foi uma surpresa, achávamos que estávamos legais", diz Alves.

Ao pagar a multa e comprar a passagem de volta, Alves afirma que gastou todas as economias que tinha feito na viagem. "Desanimei com o futebol depois disso", diz o jogador, que voltou a morar em Cascavel (PR) e tem pensado em abandonar a carreira.

Profissionais vulneráveis

Além de mirar modelos e jogadores de futebol brasileiros, a cartilha do Itamaraty também alerta sobre riscos no exterior para churrasqueiros e professores de danças brasileiras.

Segundo o texto, a proliferação de churrascarias e restaurantes de comidas típicas brasileiras vem criando um mercado internacional para profissionais do ramo. A contratação costuma ser feita por empresários que viajam ao Brasil para conhecer restaurantes brasileiros e identificar futuros empregados.

Como em muitos países, o setor opera com certo grau de informalidade, diz o Itamaraty, muitos profissionais acabam em situação vulnerável.

Professores de capoeira e de danças brasileiras também enfrentam condições semelhantes. Muitos ingressam no país estrangeiro na condição de turistas e, ao trabalhar informalmente, sujeitam-se a penalidades que podem incluir multa, prisão e deportação.

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