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Rio+20 ocorre em área cercada por águas poluídas

Atualizado em  19 de junho, 2012 - 06:29 (Brasília) 09:29 GMT
Esgoto de casas próximas ao Riocentro, no Rio de Janeiro. (Foto: Angelo Antonio Duarte)

Rios e lagoas próximos ao Riocentro sofrem com poluição despejada durante 40 anos

Rios, canais e a Lagoa de Jacarepaguá – que compõe a área verde próxima ao Riocentro, onde chefes de Estado discutem temas de desenvolvimento sustentável até sexta-feira na Rio+20 – estão degradados após 40 anos de acúmulo de esgoto.

A situação da bacia hidrográfica da Baixada de Jacarepaguá foi se deteriorando com a rápida expansão da cidade do Rio para oeste, sem a instalação de uma rede de saneamento adequada.

Segundo o ambientalista Axel Grael, nos anos de 1980 já se falava na necessidade de construir um emissário submarino para lançar o esgoto (tratado) dos bairros da Barra, do Recreio e de Jacarepaguá no mar, a certa distância da costa. Mas a obra só foi inaugurada em 2007.

Antes disso, segundo o presidente da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), Wagner Victer, a maior parte dos resíduos ia para as lagoas e para os rios da região.

"Hoje a quantidade de esgoto que se tira (pelo emissário) é próximo a 1.800 litros por segundo. É praticamente um Maracanãzinho cheio de cocô por dia. Antes, quase tudo ia para as lagoas", afirma Victer.

"Toda a bacia hidrográfica, todos os rios e canais foram transformados em valões de esgoto", diz o biólogo Mário Moscatelli.

Desde 1992, ele acompanha o processo de degradação na Baixada de Jacarepaguá trabalhando na recuperação de mangues. Afirma já ter contado 35 sofás e 185 pneus em uma área restrita da Lagoa da Tijuca, no início da Barra.

"É praticamente um Maracanãzinho cheio de cocô por dia. Antes, quase tudo ia para as lagoas."

Wagner Victer, presidente da Cedae

O biólogo compara a poluição com a da Baía de Guanabara, que continua deteriorada mesmo após o programa de despoluição levado a cabo a partir de 1994.

"Em 40 anos conseguimos repetir (na Baixada de Jacarepaguá) o quadro de degradação que na Baía de Guanabara levou 100 anos", afirma.

Na chegada ao Riocentro, alguns efeitos dessa poluição podem ser vistos a olho nu, nos rios e canais turvos que margeiam o centro de convenções. Alguns deles estão cobertos por gigogas - plantas aquáticas que proliferam em ambientes desequilibrados pelo excesso de matéria orgânica.

O rio Camorim, que atravessa o centro de convenções, passou por uma dragagem antes do evento. Mesmo assim, sua água é turva e oleosa.

Investimentos

Canal que passa pelo Riocentro. (Foto: Angelo Antonio Duarte)

Canal no centro de convenções continua turvo e com aspecto oleoso após dragagem

A limpeza das lagoas da Barra e Jacarepaguá é um dos compromissos firmados pelo governo do Rio para a Olimpíada de 2016. Investimentos das três esferas de governo começam a ser anunciados.

Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff determinou a liberação de R$ 300 milhões para a recuperação do complexo lagunar da Barra da Tijuca e Jacarepaguá e do Canal da Joatinga.

Além disso, Victer afirma que a Cedae tem planos de investir R$ 250 milhões em saneamento na região até o fim de 2015. Um tronco coletor deverá conectar as residências na área do Riocentro - onde ficará a futura Vila Olímpica - ao emissário submarino.

Hoje, mesmo o Riocentro não está conectado à rede coletora de esgoto da cidade, e precisa de uma estação de tratamento própria para administrar seus efluentes.

De acordo com Victer, 80% da região da Barra conta com saneamento, e com esses investimentos a cobertura chegará a 100% até o ano da Olimpíada. Já as obras de dragagem devem durar 36 meses.

"O investimento na dragagem é essencial para melhorar a troca (de água das lagoas) com o mar. É isso que possibilita que a lagoa volte a viver. Se estiver assoreada, não há essa troca."

Plantas que cobrem rio próximo ao Riocentro. (Foto: Angelo Antonio Duarte)

Plantas escondendo o rio demonstram excesso de matéria orgânica no curso d'água

Ambientalistas, porém, consideram os números da Cedae otimistas.

"As lagoas de Jacarepaguá recebem uma quantidade muito grande de esgoto, levado pelos rios que desembocam nelas, devido à falta de esgotamento sanitário em seu curso", diz o engenheiro ambiental José Araruna, da PUC-Rio.

Moscatelli diz que os investimentos do poder público têm aumentado nos últimos sete anos, mas considera o esforço ainda tímido diante do quadro de degradação.

Diante do fracasso dos investimentos feitos para recuperar a Baía de Guanabara nos anos 1990, ele se mostra cético em relação aos novos recursos anunciados.

Mesmo que tudo seja cumprido de acordo com os planos, o biólogo ressalta a necessidade de atacar o problema pela raiz.

"Se não houver políticas de habitação, transporte e saneamento de forma permanente, todo esse esforço ao longo dos próximos quatro anos será perdido", diz Moscatelli.

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