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América Latina vive onda protecionista liderada por Brasil e Argentina, diz estudo

Atualizado em  14 de junho, 2012 - 13:05 (Brasília) 16:05 GMT
Dilma e Mantega | Reuters

Segundo estudo, governo brasileiro lidera protecionismo na América Latina.

A América Latina enfrenta uma avalanche de medidas protecionistas, à revelia do agravamento da crise financeira, em grande parte, impulsionada pela Argentina e pelo Brasil.

A conclusão é do relatório 'Latin America Watch', publicado pela consultoria britânica Capital Economics.

Juntos, os dois países responderam por 75% do total das barreiras comerciais que entraram em vigor na região entre 2009 e 2011.

Segundo o economista Michael Henderson, autor do estudo, o número de práticas comerciais consideradas "discriminatórias aos interesses estrangeiros" praticamente dobrou na América Latina entre 2009 e 2011, apontam dados da agência Global Trade Alert.

Henderson destaca, entretanto, que a nova onda protecionista no continente não pode ser explicada exclusivamente como uma forma de blindagem dessas economias aos efeitos da crise.

De modo geral, com a turbulência dos mercados internacionais, os países mais ciosos de suas finanças passaram a buscar meios de incentivar o mercado interno, impondo, invariavelmente, barreiras alfandegárias.

Entretanto, independentemente da tendência verificada ao redor do mundo, a América Latina apresentou um aumento tanto em termos relativos quanto absolutos no número dessas medidas protecionistas, diz Henderson.

Ele relembra, contudo, que as diferentes iniciativas protecionistas não têm o mesmo impacto.

"Em primeiro lugar, um aumento das tarifas de importação pode, por exemplo, ser mais discriminatória do que uma ajuda pontual do governo federal a um setor que esteja ocasionalmente passando por problemas", afirma Henderson no relatório.

Além disso, diz ele, os dados mascaram fortes diferenças intra-regionais.

Na divisão por países, a Argentina e o Brasil lideram o ranking dos maiores contendores, tendo respondido por 75% do total das medidas protecionistas do continente entre 2009 e 2011.

Segundo Henderson, somente a Argentina registrou 130 incidentes de protecionismo no período analisado, mais do que o todo o restante da região.

Ele ressalta, porém, que a opção de alguns países por medidas protecionistas não impede que sejam tomadas outras iniciativas consideradas favoráveis à competição externa.

"No Brasil, por exemplo, quando se analisa o número de medidas comerciais ditas 'liberais', o país tende a um equilíbrio, diferentemente da Argentina", afirma Henderson na pesquisa.

Diferenças regionais

Vinho | Foto: AP

Fabricantes brasileiros de vinho reivindicam proteção do governo contra importadores.

Mas há diferenças cruciais quanto ao tipo de protecionismo escolhido por cada país.

Na Argentina, afirma Henderson, as recentes restrições às importações são parte de um conjunto de medidas macroeconômicas voltadas para reduzir uma gradual deterioração da balança comercial.

A opção pelas barreiras alfandegárias deve-se, em grande parte, segundo ele, à necessidade do país de manter o superávit da balança de pagamentos, uma vez que enfrenta maior dificuldade de obter empréstimos externos, frente ao risco de uma moratória da dívida.

Já as medidas tomadas pelo Brasil, diz Henderson, são mais seletivas, visando à retomada de alguns setores econômicos que tenham sofrido os efeitos negativos de um câmbio até então mais valorizado, de uma demanda externa mais fraca, e de uma enxurrada de importações asiáticas de menor valor.

Recentemente, os fabricantes de vinhos brasileiros, por exemplo, reivindicaram ao governo a imposição de tarifas sobre produtos vindos de fora.

Segundo o economista, o restante da região, por outro lado, descola-se da tendência observada no Brasil e na Argentina. Para Henderson, os outros países estão indo por outro caminho, abrindo suas economias para o comércio internacional.

Um exemplo recente disso, cita ele, foi a formação da Aliança do Pacífico, bloco econômico formado pelo Chile, Colômbia, México e Peru, com o objetivo de harmonizar os interesses comerciais desses países e fortalecer a ligação com a Ásia.

Risco

Segundo Henderson, uma nova onda protecionista na América Latina é prejudicial ao continente. A história, diz ele, já deu indicações de que as barreiras para o comércio, de maneira geral, reduzem o bem-estar da população, uma vez que limitam a habilidade de explorar os ganhos das vantagens competitivas e a especialização.

Henderson relembra que um dos principais fatores para o boom regional nos anos 1990 foi justamente a redução das barreiras comerciais.

Embora existam circunstâncias em que a proteção à indústria é necessária, diz Henderson, esse não é o caso atual do Brasil e da Argentina.

"Se uma economia tem demanda reprimida, faz sentido redirecionar essa procura para produtores locais. Mas esse não é claramente o caso nem da Argentina nem do Brasil."

"Se uma economia tem demanda reprimida, faz sentido redirecionar essa procura para produtores locais. Mas esse não é claramente o caso desses dois países", destaca ele.

Para Henderson, o maior obstáculo, entretanto, continua sendo a falta de competitividade das indústrias, que enfrentam concorrência acirrada das importações e acabam recorrendo à proteção dos governos para garantir sua sobrevivência.

Como resultado dessa política desfavorável ao capital externo, conclui o economista, a previsão do crescimento do Brasil e da Argentina (3% e 4%) é inferior a de outros países que optaram pelo caminho inverso, de abertura comercial, como o Peru e a Colômbia (5% e 6%).

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