Táxis compartilhados dão o tom da revolução sexual no Irã

Atualizado em  12 de junho, 2012 - 14:02 (Brasília) 17:02 GMT
Casal iraniano

Casais iranianos encontram meios para burlar restrições

Jovens iranianos estão apelando à criatividade para contornar as restrições do regime islâmico sobre suas vidas privadas. A jornalista iraniana Kamim Mohammadi, por anos radicada no exterior, conta que o uso de carros compartilhados, entre outras estratégias, impulsiona uma revolução no comportamento sexual do país, que poderá trazer mudanças ainda mais profundas no futuro do Irã.

Veja o relato:

O Irã, em sua longa história, já conheceu vários momentos de repressão e ditadura. Os iranianos, no entanto, rapidamente desenvolveram o dom de prosperar em fases de dificuldade, de encontrar uma maneira de superar obstáculos, com imaginação e criatividade.

Esse modo criativo e imaginativo fica mais claro do que em qualquer outro lugar na relação entre homens e mulheres.

Antes de retornar ao Irã, após quase 20 anos de ausência, uma amiga muito informada me disse: ''Eles não bebem ou fazem sexo antes do casamento no Irã''.

Assim que eu cheguei ao Irã, especialmente após haver ido várias vezes ao país, percebi que esse comentário não poderia estar mais longe da verdade.

Em todo lugar que eu ia me era oferecido ''um drinque de verdade'' por iranianos que se tornaram especialistas na produção doméstica de bebidas, transformando lúpulo em cerveja ou uvas em vinho nos porões de casa. Alguns até aprofundaram seus conhecimentos, à medida que se torna mais fácil encontrar bebidas no mercado negro.

Quanto a namorar e fazer sexo, o que se poderia esperar de uma população predominantemente jovem?

Cerca de 70% dos iranianos têm menos de 35 anos. Esse exército de jovens cresceu sob restrições e aprendeu a contornar as regras. E o Estado segue jogando, mas agora em desvantagem.

Na primeira vez que visitei o Irã, em 1996, resolvi andar pela rua com um amigo. Minha mãe julgou se prudente vir junto, caso fossemos parados e tivéssemos de explicar qual era nossa relação. Com o passar dos anos, minhas andanças com esse mesmo amigo mostram como o regime vem sofrendo mudanças.

Apenas dois anos após minha primeira visita, eu e meu amigo já caminhávamos por Teerã sem ninguém por perto. Nossas visitas eram a internet cafés, na época recém-inaugurados. Nesses lugares, garotos e garotas dividem as cabines sem medo. Os sites mais populares são salas de bate-papo onde se pode conhecer e até marcar encontros secretos antes impensáveis.

Pela primeira vez na história iraniana, as pessoas contam com um espaço particular - um quarto só delas, ainda que no ciberespaço - onde se pode interagir, geralmente com alguém do sexo oposto, sem que ninguém possa observá-las, restringi-las ou puni-las.

Regras jogadas fora

No Irã, além de táxis particulares, existem os veículos compartilhados, conhecidos como savaris - onde o passageiro divide a corrida com outras pessoas que seguem para o mesmo destino. As regras habituais da República Islâmica - estritas em assegurar a segregação dos sexos - são jogadas pela janela, com o motorista espremendo tantos passageiros quanto possa acomodar.

Apesar de as pessoas tentarem se acomodar de modo que homens e mulheres não tenham contato físico tão próximo, meu amigo e eu ficamos tão encostados que podíamos sentir o bater do coração um do outro.

Uma amiga, nascida no Irã e criada no Ocidente, assim como eu, me contou que teve um romance com um jovem de Teerã que consistiu, unicamente, de passeios apertados nos táxis compartilhados. Eles iam de um lado a outro da cidade, pedindo ao motorista que não pegasse outras pessoas quando queriam conversar. Quando queriam ficar mais próximos, pediam então ao condutor que pegasse outros passageiros, para que tivessem a desculpa para se encostarem um no outro.

No Irã de hoje em dia, o carro se tornou um espaço neutro, um lugar onde as pessoas - não apenas os jovens - podem escapar dos olhares constante da família, da sociedade e do regime.

Os celulares são outra ferramenta usadas com criatividade pelos jovens iranianos. Durante passeios noturnos com meu amigo, seu telefone não parava de tocar. Tratavam-se de pedidos de usuários de Bluetooth para se conectar ao seu aparelho e trocar contatos telefônicos. É a primeira vez que os iranianos conseguem driblar a família para escolher seus próprios pares românticos.

Outro amigo, que administra uma companhia de internet no Irã, me disse que os iranianos têm as mentes mais criativas no setor de computação. A razão, segundo ele, é que desde cedo aprende-se a romper os códigos de segurança usados para bloquear alguns sites na República Islâmica.

Revolução sexual, revolução social

Não sou profeta, mas imagino que onde uma revolução sexual acontece, uma revolução social pode vir na sequência. Os iranianos, que já enfrentaram milhares de anos de repressão, são peritos em fazer o que querem quando aparentam estar seguindo regras.

As mesmas soluções criativas para contornar as restrições aguçam as mentes e, acredito, acabarão levando à eliminação gradual das proibições do regime, até que ele se torne sem sentido.

Quando chegar o dia em que o Irã desfrutará de seu próprio modo de democracia, o talento que este constante burlar de regras deu ao caráter iraniano ajudará o país a alcançar coisas realmente grandiosas.

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