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Política argentina 'exportar para importar' atinge até show de Madonna

Atualizado em  5 de junho, 2012 - 18:41 (Brasília) 21:41 GMT
Apresentação de Madonna em Israel. AP

Restrições ao dólar faz produtora de Madonna ter problemas para pagar outros estrangeiros

Além de barrar produtos na fronteira, a política "exportar para importar" do governo Kirchner fez mais um alvo nos últimos dias: Madonna. Para garantir a apresentação da cantora no país, a produtora da turnê deve promover a artistas argentinos no exterior, segundo declarações à imprensa local.

A política do governo da Argentina visa impulsionar a produção local, ao controlar a entrada de importados, e conter a saída de dólares do país. Nas últimas semanas, o governo anunciou uma série de medidas para controlar a compra e venda da moeda americana.

Madonna deve se apresentar em Buenos Aires e Córdoba em dezembro deste ano. Para poder expatriar os dólares do cachê da artista, a produtora Time For Fan (T4F) teve de prometer à Casa Rosada um plano para exportar espetáculos de artistas argentinos para os países da América Latina, segundo a imprensa local.

"(O governo) nos pediu um esforço para aumentar a presença de artistas argentinos no exterior, para aumentar a exportação de artistas nacionais para se ter uma balança comercial mais equilibrada", disse Fernando Moya, diretor da T4F, ao jornal La Nación.

Segundo a reportagem, a produtora pediu audiência com o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, porque estariam tendo dificuldades para pagar em dólares os cachês de artistas internacionais que se apresentam no país, dada à rigidez para a compra da moeda.

A medida foi ironizada por jornais locais como La Voz del Interior, cuja reportagem foi intitulada "Madonna por Andrés Calamaro", em referência a um cantor argentino.

Procurada pela BBC Brasil, a produtora não respondeu às ligações e aos emails.

'Distorções'

Com a determinação de importar para exportar, o governo espera evitar a maior saída de dólares do país e equilibrar a balança comercial.

A ordem de exportar para importar provocou outros casos inusitados como o do campeão de ciclismo e medalha de ouro olímpico Juan Curuchet, que não conseguia importar seus equipamentos necessários para treinar para os Jogos Olímpicos de Londres.

Segundo a imprensa local, Curuchet contou que teria ouvido das autoridades locais a regra "para importar é preciso exportar". Ele então reagiu: "Somos um grupo de esportistas olímpicos. O que podemos exportar além do nosso esforço físico?".

Economistas ouvidos pela BBC Brasil disseram que a medida da Secretaria de Comércio Interior gera “distorções” ao setor comercial argentino.

Casa de câmbio na Argentina

Governo argentino vem agindo para controlar a venda de dólares

"O caso da Madonna é emblemático e o primeiro que vai gerar de fato mais exportação. A produtora vai exportar shows de artistas locais para a América Latina, num plano que inclui 2012 e 2013", disse o economista Abel Viglione, da consultoria Fiel.

Segundo ele, o mesmo fluxo não é observado nos outros setores da economia que tiveram que se adaptar para atender a exigência do governo.

Recentemente, chegou-se a especular que shows de artistas como Roger Waters e Eric Clapton corriam risco de não acontecerem porque não se sabia como atender à medida do governo.

Carros por vinhos

Segundo Viglione, os demais importadores precisam fazer uma engenharia sofisticada para atender as exigências do governo. Ele diz que há importadores de automóveis de luxo que passaram a exportar vinhos. Outros importam tecnologia e exportam, afirmou, alimentos balanceados para cachorros.

O economista Mauricio Claveri, da consultoria Abeceb, disse que o governo começou a aplicar a exigência em 2010 e que no ano passado as empresas passaram a buscar alternativas para manter o fluxo de seus negócios com o exterior.

"Mas as barreiras de importação e essa medida geraram distorções. Uma empresa que importa vidros deve comprar no mercado local. O governo diz que o país produz vidro e deve ser dada prioridade à empresa nacional. O problema é que às vezes o produto específico ainda não é fabricado no país ou a quantidade é limitada", afirmou Claveri.

Ele lembrou que o governo quer manter o superávit comercial de dez bilhões de dólares, como registrado no ano passado, e os números indicam que a meta será alcançada, mas com menos comércio com outros países, como o Brasil, por exemplo.

Em maio deste ano, a União Europeia (UE) denunciou a Argentina na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as travas do país ao comércio exterior. Nesta semana, o Ministério das Relações Exteriores disse que atenderá pedido de consultas da UE.

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