Momentos Olímpicos: 'Foi como se estivesse voando', diz Joaquim Cruz sobre ouro de 1984

Atualizado em  5 de junho, 2012 - 05:08 (Brasília) 08:08 GMT
Joaquim Cruz. | Foto: IJC

Cruz foi o segundo brasileiro, após Adhemar Ferreira da Silva, a conquistar o ouro no atletismo

O meio-fundista Joaquim Cruz é o primeiro e, até hoje, o único atleta brasileiro a conseguir uma medalha de ouro olímpica em uma prova de pista. Mas ele diz que a vitória nos 800 metros em Los Angeles, em 1984, já era esperada.

"Em 1983, eu estava muito bem fisicamente e sentia que algo maior do que eu mesmo aconteceria em 1984. Eu dei uma entrevista a um jornal e cheguei a dizer que ganharia a Olimpíada", disse à BBC Brasil.

"Tudo o que eu fiz na minha vida tinha uma meta definida, tinha um objetivo. Se vou tentar esse esporte, vou ver até onde posso chegar com ele."

Cruz enfrentou uma disputa acirrada com o britânico Sebastian Coe (hoje presidente do comitê organizador de Londres-2012) e saiu do terceiro lugar para vencer a prova nos últimos 100 metros.

"Eu só precisava assegurar que o Sebastian Coe não iria me ultrapassar de repente, porque ele tinha uma boa frequência na passada dele, e tinha facilidade de mudar de um lugar para o outro rápido. Mas eu tinha passadas mais longas e lentas, então não queria ser surpreendido. Nos vídeos eu apareço olhando sempre para o lado, vigiando o Sebastian Coe", relembra.

"Nos últimos 100 metros eu mudei o ritmo da prova. Quando eu resolvi passar (os outros corredores), eu senti um arrepio no meu corpo inteiro e as raias da pista se transformaram numa só. Eu não ouvi mais a arquibancada, nem nada. Foram 80 metros de arrepio, a sensação foi como se eu estivesse voando. Quando atravessei a linha de chegada eu falei 'Meu Deus, obrigado, meu Deus'."

Cruz diz ainda que Coe chegou a "prever" sua vitória quando os dois se enfrentaram em 1981, na Copa do Mundo em Roma. O inglês já era o recordista mundial adulto da modalidade e o brasileiro era o recordista juvenil.

"Fiquei em 6º lugar, fiz uma péssima prova. Após a premiação, fui até o Sebastian Coe cumprimentá-lo pela vitória e ele falou algo para mim que eu não entendi. Depois de vencer a prova em 84, voltei para o estádio e perguntei o que ele falou para mim em Roma. Ele disse: 'Eu falei que você seria um grande campeão'."

Contra a vontade

Joaquim Cruz nasceu em Taguatinga, no Distrito Federal, e começou a praticar atletismo por acaso, quando um amigo e colega de escola o indicou para os treinos.

"Eu já jogava basquete e o Carlos Vanderlei, o Vandeco, me indicou para um professor que procurava corredores como uma brincadeira de mau gosto. Mas eu não me importei, pensei 'isso não vai dar em nada'."

"Foram 80 metros de arrepio, a sensação foi como se eu estivesse voando. Quando atravessei a linha de chegada eu falei 'Meu Deus, obrigado, meu Deus'."

Joaquim Cruz

Cruz conta que seu técnico de basquete, Luiz Alberto de Oliveira, foi um dos principais incentivadores do atletismo, contra sua vontade.

"Eu não gostava do atletismo, mas consegui sonhar com o Luiz Alberto e ele me convenceu. Aos 15 anos, quebrei dois recordes nacionais e obtive uma vaga na seleção brasileira para o meu primeiro sul-americano no Uruguai."

Ao relembrar a relação com Oliveira, que foi seu treinador até o fim da carreira, Joaquim Cruz se emociona. "Desde o início ele mostrou uma confiança em mim que eu não tive dentro de casa com meu pai. Tínhamos um objetivo e conquistamos um sonho maior do que podíamos imaginar."

O colega de escola que o "empurrou" para as pistas, segundo Joaquim, permanece um grande amigo. "Ganhei a Olimpíada e trouxe ele para cá (para os Estados Unidos). Ele veio, cursou a universidade, casou-se com uma americana e hoje é professor de espanhol."

Polêmica sobre doping

A carreira de Cruz também foi marcada pela polêmica envolvendo declarações que ele fez durante a Olimpíada de Seul em 1988, sugerindo que a atleta americana Florence Griffith-Joyner usava doping.

Naquele ano, Griffith-Joyner, com 28 anos, ganhou três medalhas de ouro e estabeleceu recordes até hoje não superados. Ela encerrou sua carreira pouco depois da competição e faleceu abruptamente em 1998 em decorrência de uma crise de epilepsia, levantando mais suspeitas sobre o uso de substâncias proibidas. No entanto, nada foi provado.

A declaração de Cruz, ainda durante os Jogos de Seul, foi motivada pela desclassificação do atleta canadense Ben Johnson por doping, dias antes.

O meio-fundista falou à rede Globo sobre o tema e disse que "no começo da carreira ela (Florence Griffith-Joyner) era muito feminina, mas algum tempo depois já parecia um homem".

"Na época a comunidade do atletismo não estava preparada para o resultado que Florence tinha obtido. Os atletas comentavam entre si, por causa de resultados impressionantes como o dela e o de Ben Johnson, que alguns estavam se dopando, mas ninguém tinha coragem de falar isso em público."

"Na vila, no dia seguinte, eu fui recebido como um herói, por ter falado a verdade. Mas eu também tive problemas, porque não foi o momento adequado para fazer um comentário daquele tamanho", relembra.

O atleta diz que a polêmica provocada pela entrevista, exibida internacionalmente pela rede americana CNN, prejudicou seu desempenho na prova dos 1.500 metros e fez com que ele decidisse se retirar da competição.

Joaquim Cruz nos jogos Parapan-americanos em 2007. | Foto: Agência Brasil

Depois da aposentadoria, Cruz se tornou treinador de atletas paraolímpicos

"Fui para lá para competir e arrumei uma distração para mim mesmo. Eu não queria ser lembrado por uma declaração e sim pelos meus feitos na pista. Foi uma situação que me deixou sem orgulho de estar ali. Perdi o orgulho de ser atleta naquele momento", afirmou.

Transição

Joaquim Cruz encerrou oficialmente sua carreira em 1997, quando já acumulava experiências como treinador em universidades e escolas americanas. Ele diz que a mudança de emprego foi difícil, apesar de ter começado cedo.

"Durante a preparação para 84, eu fiz perguntas importantes a mim mesmo: 'Eu estou preparado para vencer uma Olimpíada? O que eu vou fazer com isso? Como isso vai me ajudar?' Comecei a fazer a transição (para treinador) cedo, mas meu primeiro emprego fixo só veio no ano retrasado", diz Cruz.

O atleta vive em San Diego, nos Estados Unidos, e é treinador da equipe americana de atletas paraolímpicos. Ele também trabalha com soldados em recuperação de ferimentos de guerra, que eventualmente se tornam atletas.

"Eu sou brasileiro de Taguatinga, consegui fazer as coisas na minha vida depois que provei algo. Só consegui uma bolsa de estudos depois que quebrei o recorde juvenil, só fui patrocinado por alguém depois que mostrei resultados. Depois que ganhei a medalha, as portas se abriram para mim e eu aproveitei."

No Brasil, ele fundou o Instituto Joaquim Cruz, que encaminha jovens de comunidades pobres para a prática do atletismo.

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