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Ivan Lessa: Um Léxico Incorreto

Atualizado em  1 de junho, 2012 - 05:16 (Brasília) 08:16 GMT

Saiu por aqui, neste verão, um livro que dá vontade na gente de mandar para quem não está mais entre nós para receber. Curioso como os que se vão deixam, não só muitas saudades, mas um bocado de vontades.

Tenho pensado e me lembrado muito, além de ler e treler, nosso querido, nosso imenso Millôr Fernandes.

Sempre aquela ponta de que, fosse de que maneira fosse, aqueles 50 anos de amizade e admiração (ô 2012 para comemorar aniversários!) deveriam de, ao menos de minha parte, ter sido o melhor de minha parte. Qualquer coisa, e não são muitas que me fazem ao menos sorrir, me traz uns ares de Millôr.

Caso do livro que comprei na Amazon e que ando folheando devagar, tal como deve ser. Trata-se de O Léxico Politicamente Incorreto, da autoria do dr. Peter Mullen, reitor da igreja de Saint Michael, na Cornualha.

Segundo um desses curtos apanágios de capa, assinado por um colunista de que sou admirador, Rod Liddle, o autor lembra um clérigo de reputação dúbia da última fase de Graham Greene, chapéu dobrado sobre o rosto, sorriso malandro na cara.

Ou seja, o próprio Millôr. Que ao menos abriria o livro depois da descrição.

E só teria a lucrar: trata-se de um volume engraçado, imoderado, astuto e divertidíssimo. Não chegaria, creio, aos pés de nada que Millôr tenha nos deixado – e como e quanto nos deixou – mas, sendo brando, pertence à grande tradição frasista inglesa, da qual Milla era fervoroso adepto.

Como a mocinha que deixa flores nas esquinas da cidade em nome de um jubileu ou jubilado qualquer, espalho algumas das definições que fui pescar no volume.

Friso que o amigo que se foi daria de 10 a 0 no Ilmo. Sr. Dr. Mullen, o que não desmerece-o de jeito nenhum. Uma lavagem bem dada por Millôr é honra, amigos, honra.

Eis algumas que, preguiçoso porém bem intencionado, colhi para o mestre, afim de que ele, com carinho, nelas afiasse ainda mais seus gumes, dando-lhes um ar mais picante e rolante, que ele o sabia fazer melhor que ninguém, se me perdoam o chavão.

Senão vejamos:

-- Islamofobia: antipatia irrazoável por homens-bomba.

-- Vulnerável a problemas de digestão: voraz, obcecado por si próprio.

-- Clássico: qualquer música pop que tenha completado mais de 5 anos.

-- Banana: fruta empregada para demonstrar às crianças do colégio primário como colocar no membro uma camisinha.

-- Inclusividade: fácil acesso a Oiks (gente rude, desagradável). Ver Universidade.

-- Poesia: quaisquer linhas de palavras que não cheguem direito às margens.

-- Fruto ou filho do amor: bastardo acidental.

-- Minorias: subgrupos de indesejáveis politicamente preferíveis.

-- Direitos Humanos: ficção legal destinada a fazer ainda mais ricos os existentes advogados ricos.

-- Ingleses: único povo na face da terra com direito a ser racista.

-- Ladrão: larápios que gozam da proteção da lei contra aqueles por eles roubados.

-- Mudança Climática: temperatura agradável e ensolarada pronta para levar uma nova fachada.

-- Reformas: destruição. Como em "reformas institucionais".

-- Parceiro (ou parceira): companhia sexual com mais de 3 noites de duração.

-- Celebridade: alguém de quem nunca se ouviu falar.

Pronto. Só uma amostragem. Para verem que, em certos casos, nós somos muito, mas muito melhores mesmo que o resto do bando. Em qualquer língua. A benção, Millôr.

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