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Ivan Lessa: Um consolador na janela

Atualizado em  25 de maio, 2012 - 04:59 (Brasília) 07:59 GMT

O chavão é dizer que nós temos folego curto. Não estou generalizando meu enfisema. Refiro-me a coisas mais duradouras. Gêneros literários, para ser preciso.

De Machadinho para cá, dominamos a crônica. Pessoal, sempre em estado de observação, uma pitada de melancolia, que melancólicos somos, e alguma, ou muita graça.

Há gente à beça que não me deixa mentir. De Rubem Braga a Fernando Sabino fazendo escala, e quase escola, em Paulinho Mendes Campos.

Nem dá para ser justo e enumerar todo mundo. Esta página viria em nomes próprios do começo ao fim. Batemos no peito e levantamos a Copa da Mundo. Pouca gente se lembra de mencionar Antonio Maria, Carlinhos Oliveira, Clarice Lispector, Luiz Fernando Veríssimo – pronto, embarquei nessa e é difícil parar.

Acostumado à crônica, bem mais do que, para variar chamarei de dispneia, nestas décadas de Grã-Bretanha, passei algum tempo procurando um cronista à altura dos nossos.

Só uma vez esbarrei, e quase que literalmente, no pub Coach and Horses, no Soho, com um cronista dentro de nossos moldes. Chamava-se Jeffrey Bernard, bebia o dia inteiro e deixava todo seu dinheirinho nos cavalos.

Era uma curtição. Não esbarrava em Nelson Rodrigues, em quem ninguém esbarra sob perigo de vexame seguido de ameaça à vida mental. Ficava no seu canto e contava, toda semana, como fora um de seus dias típicos. Era meio tristonho, que o somos todos, mas de infinita graça e estilo natural forjado a ferro e fogo, como sempre acontece nesses casos.

Jeffrey Bernard morreu de complicações com o fígado, evidente, e ninguém ousou ou teve talento para ocupar seu lugar.

Todos os colunistas britânicos tratam, mesmo quando irônicos, dessa coisa menos divertida do mundo, a política e suas sutis e envolventes manifestações. Por mais talento que haja, sempre sobra para um parágrafo, mesmo mordaz ou brilhante, para a recessão, a liderança públicação e, com um certo cuidado, a Família Real.

Uma regra, no meu entender, confirma a exceção. A ilustríssima senhora dona Michelle Hanson, que escreve uma vez por semana no The Guardian (conosco era lá no pau puro, todo dia) com, não vamos chamar de brilho, que é exagero, mas com idiossincráticos estilo e temas.

Sua primeira crônica a me chamar a atenção era toda seriona a defender uma tese que não é de todo estranho a estas ilhas: não tomar banho todo dia.

Ela serenamente admitia que ficava às vezes semanas sem banho, para horror das filhas. Eu soube, nesta semana mesmo, que o belo Leonardo DiCaprio quando emplaca duas chuveiradas em 7 dias, está beirando o desmando. Ninguém perguntou nada a Gisele Bündchen, se ela fazia companhia física ou espiritual ao ex-companheiro famoso.

Michelle Hanson, na terça-feira, 22 de maio, publicou uma crônica antológica, segundo meus parâmetros e dos britânicos também.

O título, em inglês é precisamente o que dei em português hoje, aqui e agora: "A Dildo in the Window".

Encurtando uma história que talvez – frise-se, talvez – fizesse sucesso na Ipanema dos anos 50, a crônista pouco chegada a abluções e eleições, Michelle Hanson, notou, na janela de um casal de vizinhos, o que, à primeira vista, lhe parecera uns dedões grossos servindo de contrapeso para as cortinas azuis.

Achando curioso, foi ver mais de perto e constatou: eram 3 vibradores, tamanho médio. Como há tempos, de farra, algumas amigas lhe presentearam com objetos em questão semelhantes (versão da beletrista), estes lhe serviram de orientação para o reconhecimento dos dildos (em inglês fica mais chique e menos ameaçador).

O resto de suas 20 linhas, Ms. Hanson passa considerando quem serão os vibrantes e exibicionistas vizinhos. Parece que são uma dupla barulhenta a horas tardias da noite.

Mais longe, ela não vai. Imagino o mesmo fato nas mãos de Rubem Braga ou Fernando Sabino. Ponho a mão no fogo que seriam mais, impossível não usar a palavra, vibrantes.

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