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Ivan Lessa: Cafungos cibernéticos

Atualizado em  11 de maio, 2012 - 05:54 (Brasília) 08:54 GMT

Já corre o mundo meu método infalível de crítica literária. Umberto Eco aprova-o em largos gestos e com intensidade italiana típica.

Aí no Brasil, ouvi dizer que um sociólogo tem opiniões diversas e paradoxais, pois de diversidade e paradoxos vivem os sociólogos brasileiros.

Aqui no Reino Unido, meus parâmetros inusitados criaram, de início, uma certa relutância entre a crítica especializada e o mundo libresco de uma forma geral. Hoje são tidos e aceitos como puro Século 21 e já ingressei para o Olimpo da literatura, seja de ficção ou não.

Como ninguém é profeta em sua terra, à exceção óbvia de Chico Buarque de Hollanda (ficção olor puro de óleo de máquina de costura), vejo-me obrigado a esmiuçar para o leitor que acabou de chegar (está bom seu lugar? Dá para me ver aqui no pódio direitinho?) de que se trata.

Desde 1969, creio que num mês de abril, aqui mesmo em Londres, mais especificamente na livraria Foyle's, em minha habitual ronda das casas de cultura, dei pela frente com um exemplar de segunda mão do Robinson Crusoé. De momentos assim é que nascem as lendas e as ideias geniais.

O dr. Joseph Goebbels, quando dos Jogos Olímpicos de 1936, realizados na Berlim nazista, teve a ideia de uma tocha olímpica percorrendo partes inteiras do país já sob o timão seguro de Adolf Hitler. O ilustre (para boa parte das gentes) propagandista-mór deve ter conhecido o que eu conheci diante da súbita inspiração que o clássico de Daniel Defoe me inspirou.

Em vez de folhear o livro e verificar o estado de sua impressão e a qualidade de sua tipografia e ilustrações, deu-me um estalo de Vieira (pléct!) que é para deixarmos nazistas e tochas olímpicas de grife de lado, e, que fiz eu então?, como se movido por por uma força estranha, meti a cara bem no meio da obra em questão e dei uma cheirada profunda – eu ainda tinha pulmões nessa época – no bichão.

Impossível descrever o que senti. Era mais que crack ou a mais pura das cocaínas.

Uma comichão que me levava a um paraíso de artifício, onde tudo era luxo, calma e volúpia, para não falar no cheirinho de mingau de maizena com ovo e um baita sol em cima desenhado com canela. Era minha infância, minha adolescência, minha maturidade e um pouco, só para aprofundar minha sensibilidade, um pouco, repito, de minha morte.

Comprei o danado, levei para casa e imediatamente fiz o esboço da crítica que eu, iluminado, agraciado, estático, me dispunha a fazer. Baseado apenas na pungência olorosa do clássico para crianças de todas as idades, consegui publicar um ensaio bizantino, porém elegante, numa revista obscura inglesa e outra, esta beirando a tenebrosa, no Ceará.

Daí veio a fama em círculos fechados. Muitos batizaram minha metodologia (arte-aroma, cheiros-clássicos), mas continuo a chamá-la de cafungada literária, que é mais gente, mais povo, mais Brasil.

Sem delongas, embora eu seja homem de muitas delongas, noto agora, pelos jornais, que meu método – ah, tivesse eu tirado patente! – atingiu em cheio os irriquietos meios informáticos sempre em busca de novidade, embora, ao contrário de mim, sem visar o lucro mas apenas a visão, mehor dizendo o olfato, embriagador do lucro.

Em suma e sumo: vêm aí e já estão chegando os computadores da Apple com aromas os mais variados. De vulgaridades como framboesa ou lavanda aos requintes dúbios de leite de mulher com parto recente. Há para tudo e todos os gostos: sangue, suor, saliva e, pasmem, irmãos!, até mesmo de sêmen.

Já consultei um solicitor, que, para quem não sabe, é um advogado. Cheirando a lavanda Yardley, pelo que constatei em nosso primeiro contato.

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