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Análise: Obama assumiu risco calculado ao apoiar casamento gay

Atualizado em  10 de maio, 2012 - 06:03 (Brasília) 09:03 GMT

Obama fala à ABC | Foto: AP

Presidente assumiu risco com conservadores mas deve agradar base democrata, dizem analistas

A menos de seis meses das eleições americanas, o presidente Barack Obama assumiu um risco calculado ao apoiar o casamento gay.

Por um lado, o presidente põe em risco a sua popularidade junto aos eleitores mais conservadores nos chamados Estados-pêndulo – que não fecham com democratas nem republicanos e precisam ser disputados a cada eleição.

Por outro, Obama finalmente desce do muro e abre a possibilidade de reenergizar sua base – de militantes e de doadores – frustrada com a falta de clareza do presidente nesse assunto. O tema já entrou no debate eleitoral e, ao assumir uma posição, creem analistas, Obama lidera o debate ao invés de ser engolido por ele.

Independentemente da opinião do presidente americano, a decisão de permitir ou não o casamento entre pessoas do mesmo sexo cabe aos Estados. Atualmente, nove já votaram para permiti-lo, sendo que em dois (Washington e Maryland) a lei ainda precisa entrar em vigor.

Mas Obama vinha sendo pressionado a dizer o que acha sobre a ideia depois que outros membros de sua equipe, incluindo o vice-presidente, Joe Biden, expressaram seu apoio à proposta.

Reflexão pessoal

Observadores políticos não deixaram de notar o tato do presidente ao abordar um tema sensível, trazendo-o para o plano pessoal e "refletindo sobre o tema como todo mundo reflete", como disse a analista política da CNN, Hilary Rosen.

Obama disse à jornalista Robin Roberts, da rede ABC, que resolveu assumir sua posição depois de notar que membros gays de sua própria equipe eram "incrivelmente comprometidos com relacionamentos monógamos do mesmo sexo e que estão criando suas crianças juntos" e de pensar "naqueles soldados, ou aviadores, ou fuzileiros navais, ou marinheiros que estão lutando por mim, e apesar disso se sentem constrangidos".

"No fim, o que mais nos importa (a ele e à esposa, Michelle Obama) é a forma como tratamos as pessoas. Somos ambos cristãos praticantes e obviamente esta posição pode ser considerada como contrária à visão de outros. Mas quando pensamos na nossa fé, o que está na raíz não é apenas Cristo se sacrificando por nós, mas a regra de ouro, sabe, trate os outros como quer ser tratado".

'Evolução'

Até então, Obama dizia que sua visão sobre o casamento gay estava "evoluindo".

"(...) é importante ir adiante e afirmar que acho que casais do mesmo sexo deveriam poder se casar. Hesitei em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo porque achava que a união civil seria suficiente."

Barack Obama

Questionado sobre o assunto em 2004 e 2008, o presidente era contra o casamento gay, e dizia que ainda não estava convencido em 2010 e no ano passado.

Como mostraram pesquisas de institutos de opinião, a própria visão dos americanos sobre o tema também "evoluiu" na última década e meia.

Em 1996, quando o instituto Gallup começou a colher seus dados, 68% dos americanos eram contra o casamento gay e 27% a favor. Dois anos atrás a diferença desapareceu e hoje os que apoiam o casamento gay são ligeiramente mais numerosos dos que se opõem (50% a favor, 48% contra).

Outra pesquisa do jornal Washington Post e da rede ABC mostra que em 2004 os que eram contra o casamento gay superavam os favoráveis (55% a 41%). Hoje a relação se inverteu e os que apoiam são 55% contra 43% que se opõem.

Perde e ganha

Analistas ainda tentam avaliar o impacto que a declaração de Obama pode ter na sua candidatura. É possível que sua posição complique as chances de uma vitória em Estados-pêndulo como a Carolina do Norte – que na terça-feira reafirmou a sua proibição ao casamento gay –, Virgínia e Flórida.

Por outro lado, muitos analistas acham que é improvável que os eleitores negros, que se sentiram valorizados com a eleição de Obama, muitos deles no Sul do país, deixem de votar pela reeleição de Obama por causa de um único ponto polêmico.

Se as eleições fossem hoje, as pesquisas indicam que Obama venceria seu rival, Mitt Romney, na Carolina do Norte, por apenas 2,4 pontos percentuais. Entre os afroamericanos da Virginia, venceria por 97% a 1%.

Um especialista republicano citado pela analista de política da rede ABC, Amy Walter, disse que "os eleitores que são fortemente contra o casamento gay – ou seja, que deixariam a opinião de um candidato sobre esse assunto determinar o seu voto – já não votariam pelo presidente de qualquer maneira".

O que tem sido apontada como benefício para Obama é a injeção de ânimo na sua base de militantes, frustrada com a insistência do presidente em declarar sua posição quando tantos representantes do partido já são favoráveis ao casamento gay.

"O apoio do presidente para a igualdade no casamento é uma grande notícia, que deve energizar os ativistas progressistas em todo o país", disse Justin Ruben, diretor-executivo da organização Move On, que faz campanha pelos direitos civis e pelo partido democrata.

"Estamos confiantes que nossa nação continuará a caminhar inexoravelmente em direção à igualdade, e agradecemos o presidente por nos liderar nesta direção."

Human Rights Campaign

O analista de política e autor do blog The Fix, do Washington Post, Chris Cillizza, apontou que "a base LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) não apenas é uma grande parte da base democrata, como compreende algumas das pessoas mais politicamente ativas do partido".

Além disso, disse, "não é segredo para ninguém que, para vencer, o presidente Obama precisa de um apoio muito consolidado entre as pessoas entre 18 e 29 anos de idade – o grupo que mais apoia o casamento gay".

Análises dos financiamentos da campanha de Obama já mostraram que o candidato, além de ser movido pelas pequenas doações (abaixo de US$ 200), também recebe um de cada seis dólares que vão para o seu caixa de doadores homossexuais.

Reações

A declaração de Obama gerou reações positivas e negativas. O virtual candidato republicano à Presidência, Mitt Romney, disse que sua visão é a de que o casamento é apenas entre um homem e uma mulher, e as uniões civis são "suficientes" e "apropriadas" para contemplar os direitos dos homossexuais.

O presidente do Comitê Republicano Nacional, Reince Priebus, acusou Obama de "fazer política nesse assunto", enquanto o seu partido e Romney "são claros". "Apoiamos a manutenção do casamento entre um homem e uma mulher, e nos opomos a qualquer tentativa de mudar isto."

Um dos primeiros a se manifestar foi o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, um ex-Democrata que se elegeu pelo partido Republicano e agora é independente. Bloomberg disse que a decisão de Obama de declarar seu apoio ao casamento gay, que é permitido em Nova York, é "um ponto de inflexão na história dos direitos civis americanos".

Já a organização Human Rights Campaign, que faz campanha pelo casamento gay, colocou em seu site uma carta aberta ao presidente – que os internautas podem assinar – agradecendo ao presidente Obama em letras garrafais pela sua posição.

"O presidente Obama fez história dizendo firmemente que gays e lésbicas americanos merecem nada menos que o igual respeito e reconhecimento que vem através do casamento", disse a organização."

"Estamos confiantes que nossa nação continuará a caminhar inexoravelmente em direção à igualdade, e agradecemos o presidente por nos liderar nesta direção."

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