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Ivan Lessa: Lição das urnas

Atualizado em  4 de maio, 2012 - 04:57 (Brasília) 07:57 GMT

Era esse o título do antológico editorial. Lição das urnas. Poucas eleições no decorrer dos anos, mas sempre que uma cabine era devassada por eleitor brasileiro em estado de dever cívico, dia seguinte de manhã todo jornal tinha lá estampado sua versão da lição que nós deveríamos tirar.

Nunca se aprendeu nada com voz das urnas (uma variação), mas de editorial elegemos de montão.

Quinta-feira. Londres continua primaveril como um vilarejo árabe. Frio e chuva. Mais o infinito tédio de eleições municipais em 5 mil cidades da Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Debates tépidos aqui na capital. Onde, entre 8 candidatos, um fanho e um loiraço de sexo presumivelmente masculino branco, atual ocupante do cargo e que leva o tradicional prenome anglo-saxão de Boris, debateu-se, todos pouco à vontade, questões trepidantes que abalam o país e o mundo tais como recessão, sindicatos, transportes, segurança, habitação, policiamento e as pouco esperadas Olimpíadas.

Esta última continua tendo a crescer o número de pessoas desistindo da festança medalhosa e tochal devido às imagens divulgadas no mundo inteiro das multidões que, na polícia de fronteiras do despreparado aeroporto de Heathrow, mesmo sem Olimpíada, esperam duas ou três horas para ir fazer, logo adiante e por toda estada, mais fila nos metrôs, nos pontos de táxi, onde couberem ou não filas.

Londres foi criada na base da fila e na base da fila sobrevive. Se um inglês ficar parado numa esquina mais de 10 minutos, logo verá gente se formando em fila indiana atrás dele.

Aqui nasceu e sobrevive glorioso o movimento Organizar Filas, que, ao menos, aborrece menos as autoridades encarregadas de manter a ordem e a paz entre os movimentos Ocupar isso ou aquilo outro.

Não votei, como sempre. Mesmo não sendo obrigatório, não tenho esse direito. Acho.

Nestas ilhas vale tudo e achar, principalmente, é trunfo e bola na caçapa.

No entanto, vejam vocês, entre os candidatos à prefeitura há um uruguaio nato e com sotaque de quem acabou de ter desembocado do Plata. Qualquer eleição com uruguaio pleiteando cargo não é para ser levada a sério.

Não levei, não levo. Como não sei o resultado, apenas que nada vai mudar, não me empolguei pelo assunto. Eles que já foram maioria branca que se entendam.

Fico aguardando as eleições de domingo na França. Tem um baixinho, tem um estatura média.

Peguei parte de um debate entre os dois numa estação de TV francesa.

Fiquei admirado e achei um amor como eles falam bonitinho o francês em que nunca levei mais que nota 6 nas aulas de Madame Guisy, nos velhos tempos do Liceu, no Rio de Janeiro. O conteúdo do bate-boca, como aquele ditado sobre "como passei as férias", não tem a menor importância.

Não é feriado aqui dia de se trancar numa cabina indevassável e lá, como um doente mental, se escrutinar todo.

Os postos eleitorais são os de sempre: igrejas, escolas e bibliotecas, embora, de certa feita, diz uma lenda urbana, alguém inaugurou seu próprio movimento Ocupar Posto Eleitoral e tacou uma barraca de praia na esquina, distribuiu em torno uma série de cartazes espalhafatosos com dizeres aproximados a "É aqui!", "Vote aqui!", "Sua última chance!", "Estamos botando pra quebrar, quebre conosco!".

O camaradinha não estava dando nenhum golpe do vigário. Apenas sendo fiel a outra tradição britânica: a bizarrice.

Enfim, como sempre, deve ter vencido o melhor. Ou o pior. Tanto faz. Aqui, na França e onde mais o fetiche eleitoral estiver tendo local.

Nós, brasileiros, depois de Getúlio e dos milicos, sabemos melhor como é mesmo que as coisas funcionam na prática. Deixemo-los sonhar, pobres coitados. Essa a única lição das urnas, pensando bem.

Agora, candidato uruguaio a prefeito é um pouco demais para minha beleza, conforme se dizia nos tempos de Barbosa e Ghiggia.

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