Ivan Lessa: O primeiro-ministro e a au pair

Atualizado em  30 de abril, 2012 - 04:59 (Brasília) 07:59 GMT

David Cameron, líder do Partido Conservador, é o atual primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Como não obteve nas eleições maioria absoluta, formou uma coalizão com Nick Glegg, líder do Partido Liberal Democrata.

Raramente são filmados ou fotografados juntos, o que lamento profundamente, dado que, nas poucas vezes em que os vi contracenando, deram em mim um daqueles devaneios saudosistas a que estão sujeitos os imigrantes brasileiros de uma certa idade.

Lembram-me uma dupla de comediantes da época em que a televisão ainda não ganhara cores e a maioria de sua produção constava de longos programas de variedades em que esquetes humorísticos alternavam-se com músicos, cantores e atrações especiais.

O País se Diverte, A Praça é Nossa, qualquer coisa por aí. Estou vendo-os sentados num banco de praça distribuindo trocadilhos e bordões, fazendo-se de vesgos ou fanhos, mandando pastelão para lá e para cá. Mais ou menos um quadro fixo com Walter D'Ávila e Colé.

Na medida do possível, e guardadas todas as diferenças, a população britânica neles enxerga algo talvez semelhante. O índice de aprovação do primeiro-ministro David Cameron está lá embaixo e o de seu "escada", para adotar a linguagem do showbiz, nem figura dos números divulgados.

Isso não é mau. Muito pelo contrário, é bem bom.

Todos os líderes que gozam de mais de 70% de popularidade passam a dedicar mais tempo de seu dia de trabalho diante do espelho fazendo poses e caras que julgam dignas de sua alta e aplaudida posição, em vez de enrolar as mangas da camisa ou blusa e partir para por as mãos às obras.

Por mais inúteis que estas sejam. Líder, para melhor liderar, necessita de umas boas cutucadas só para deixar de ser besta.

No momento, o governo de Cameron vê-se (rolemos os olhos, façamos uma expressão gaiata e falemos com voz roufenha diante das câmeras de TV) em sérias dificuldades com boa parte de seu gabinete devido a um rumoroso inquérito sobre os desmandos da imprensa pertencente ao império do notório Robert Murdoch.

Ora, os jornais pertencentes ao magnata nascido na Austrália são divertidíssimos e suas fofocas quase sempre na mira. O resto da jornalada, no que estas ilhas são pródigas, faz cara de santo e muxoxos de desaprovação.

Outro engano. Não há veículo sem esta ou aquela outra culpa em algum cartório dos subúrbios da existência jornalística.

Essa a graça toda. A imprensa, na mais geral das formas, precisa e deve levar umas cacetadas ocasionais só para mantê-la com os pés na terra e livre de frescuras.

Assim como quem não quer nada, e você só lerá isso num desses tabloides que os pios jornalões abominam, ficou se sabendo, semana passada, que o casal Cameron obteve os serviços profissionais de uma au pair (mais que babá e menos que uma empregada) via Skype e que a ocupante do importante cargo, Sammi Strange (no que deixamos a TV do passado e passamos ao atual rock da pesada), admitiu claramente em seu curriculum vitae ter surrupiado coisas em lojas, e que fuma, bebe e já tomou drogas, mas, por motivos pouco claros, com essa ao menos parou.

Uma porta-voz do casal Cameron declarou que a srta. Strange cuidará da criançada Cameron enquanto a babá oficial estiver de folga por seis semanas.

Acrescentando que Sammi se saiu muito bem nas entrevistas informatizadas. Segundo consta, Sammi Strange, australiana de nascimento tal como Rupert Murdoch o foi, já começou o duro trabalho de ensinar a Nancy, de 8 anos, Arthur, de 6, e Florence, de 18 meses, coisas e graças sobre a fértil e inquieta cultura australiana.

Parece que numa coisa ela terá que tomar cuidado: o palavrear. Perguntada se usava de linguajar de baixo calão, ela, muito antípoda da vida, não teve dúvida e respondeu, "F***, yeah!”

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