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EUA 'traíram' Brasil e Turquia, e França e Grã-Bretanha tiveram 'inveja', diz autor de livro sobre Irã

Atualizado em  18 de abril, 2012 - 07:32 (Brasília) 10:32 GMT
Lula, Amorim e Erdogan. Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr

Após viagem a Teerã, Lula recebeu premiê turco em Brasília, no fim de maio de 2010

Os governos de Brasil e da Turquia foram "traídos" pela diplomacia americana, e potências como França e Grã-Bretanha tiveram "inveja" da capacidade dos dois países emergentes de convencer o Irã a assinar um acordo nuclear, segundo o especialista em Oriente Médio, Trita Parsi.

O analista lançou no mês passado, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, o livro A Single Roll of the Dice ("Uma Única Jogada do Dado"), no qual entrevistou mais de 70 pessoas envolvidas nos esforços de diplomacia entre Estados Unidos e Irã, inclusive algumas autoridades brasileiras.

Um dos capítulos do livro é dedicado à missão de Brasil e Turquia, em maio de 2010, que acabou resultando em um acordo com o Irã. No entanto, poucas horas depois do anúncio, os Estados Unidos desautorizaram a iniciativa, preferindo adotar sanções contra o governo de Teerã.

Trita Parsi – que nasceu no Irã, mas fugiu com sua família quando criança e acabou construindo sua carreira nos Estados Unidos – conversou por telefone com a BBC Brasil.

BBC Brasil: No histórico do esforço de diplomacia entre Irã e potências ocidentais, o quão importante foi essa missão de Brasil e Turquia?

Trita Parsi: Eu acho que ela foi crítica, pois no fim das contas, a missão mostrou que a diplomacia poderia funcionar. O problema com a diplomacia que foi perseguida até então é que o timing ou as circunstâncias políticas nos países envolvidos não eram abertos o suficiente para que se chegasse a um acordo.

Se não fosse pelo esforço de Brasil e Turquia, poderíamos facilmente ter ficado com a impressão de que o esforço feito em 2009 por Obama havia levado à exaustão todas as iniciativas de diplomacia, e que não havia mais esperança. Brasil e Turquia mostraram que havia uma solução que poderíamos encontrar.

BBC Brasil: O que aconteceu com os EUA nesse processo? Os americanos mudaram de opinião depois que Brasil e Turquia conseguiram convencer o Irã a fechar um acordo, ou eles já estavam predispostos a não aceitar o sucesso da missão?

Trita Parsi: Infelizmente, acho que os EUA nunca levaram a sério esse acordo. Isso está claro hoje, olhando para trás. Eles esperavam que o Brasil (e a Turquia) fracassasse, e como resultado disso, que eles (americanos) pudessem gerar uma pressão por novas sanções. Quando Brasil e Turquia foram bem-sucedidos, isto atordoou os americanos e eles não estavam preparados para aceitar o acordo.

BBC Brasil: Então Brasil e Turquia – e sobretudo o ex-presidente Lula e o premiê turco Recep Tayyip Erdogan – foram traídos pela diplomacia americana?

Trita Parsi: Eu acho que sim. Eu acho que eles foram com boa vontade e fizeram o que achavam que seria necessário para obter o apoio dos EUA, e acabou se provando que não era bem assim. Agora, é verdade também que em algumas comunicações orais, autoridades dos EUA haviam deixado claro que eles não estavam muito contentes com os esforços de Brasil e Turquia.

Mas Brasil e Turquia são países independentes com vagas no Conselho de Segurança, e têm seu próprio papel a cumprir. Os EUA não podiam, necessariamente, dar um "não" completo a ambos. Mas daí eles enviaram uma carta a Lula dizendo "isso é o que você precisaria cumprir para que tudo funcione", e ele conseguiu cumprir.

Na minha visão, isso não é um dos melhores momentos da diplomacia americana ou de Obama.

Clique Leia também: EUA subestimaram diplomacia de Brasil e Turquia, diz livro sobre acordo com Irã

BBC Brasil: Existe algum papel que países emergentes – em especial Brasil e Turquia – podem cumprir nas negociações com o Irã, depois desta experiência tão frustrante?

Trita Parsi: O problema é que isso se tornou um marco negativo e desestimula outros países a se envolver, porque mesmo quando você é bem-sucedido, você acaba tendo problemas. O perigo é que isso se torne um empecilho para outros países que queiram ajudar no futuro.

O autor

  • Trita Parsi é nascido no Irã, mas morou quase toda a vida nos EUA, depois que sua família fugiu devido à perseguição política
  • Presidente e fundador da National Iranian American Council, uma entidade que defende a aproximação entre Irã e EUA
  • Colaborador de jornais e sites como Financial Times, Huffington Post e Wall Street Journal
  • Doutor em Relações Internacionais pela Johns Hopkins University School
  • Contribui para o Woodrow Wilson International Center

BBC Brasil: Então os países emergentes não têm um papel em negociações como a do programa nuclear iraniano?

Trita Parsi: Eu acho que eles têm sim. Mas na próxima vez, será preciso entender que estas iniciativas são bastante arriscadas. E entre todas as prioridades do governo brasileiro, este será um assunto que o presidente brasileiro está disposto a colocar muito de seu capital político? Ou não? Mas claramente, Brasil e Turquia mostraram que têm habilidade para mediar e fazer as coisas funcionarem. A diplomacia deles foi eficiente, bem-sucedida e construtiva. O problema é podermos nos certificar de que o acordo será aceito politicamente pelas grandes potências, depois de acertado.

BBC Brasil: Não foram apenas os EUA que desautorizaram o acordo. França e Grã-Bretanha também se manifestaram contra a Declaração de Teerã...

Trita Parsi: Eles não ficaram contentes. Mas é preciso lembrar que para a Grã-Bretanha e França – dois países com assento permanente no Conselho de Segurança e poder de veto, é francamente um pouco embaraçoso ver potências novatas como Brasil e Turquia chegarem e serem bem-sucedidas na diplomacia e em questão de meses, onde França e Grã-Bretanha fracassaram por tantos anos.

"É francamente um pouco embaraçoso ver potências novatas como Brasil e Turquia serem bem-sucedidas na diplomacia e em questão de meses, onde França e Grã-Bretanha fracassaram por tantos anos."

BBC Brasil: Então existe um pouco de inveja nisso?

Trita Parsi: Claro. Existe um sentimento que mostra que o mundo está mudando, que existem novas potências em ascensão, e que as velhas potências não são mais tão eficientes. E Brasil e Turquia, neste sentido, envergonharam a França e a Grã-Bretanha.

BBC Brasil: Mas as velhas potências continuam ditando as regras, já que o acordo não foi cumprido e novas sanções foram adotadas contra o Irã. Estas potências emergentes têm mesmo algum poder?

Trita Parsi: Eu não diria isso. Eu acho que é importante notar que mesmo que o acordo não tenha ido adiante, mas as sanções tenham, o que isso tudo mostra é que a ordem internacional não reflete a distribuição de poder real. França e Grã-Bretanha não tem poder – ou pelo menos não tiveram a habilidade – para obter um acordo. Mas por eles estarem no Conselho de Segurança, algo que ainda reflete a estrutura de poder de 1945, eles ainda têm a sua vaga e a sua voz. Mas eles não tiveram habilidade para resolver o assunto. Brasil e Turquia tiveram.

BBC Brasil: E os outros países – inclusive emergentes – que não manifestaram apoio ao acordo firmado por Brasil e Turquia. Por que eles não fizeram nada?

Trita Parsi: Levando em consideração o quão rápido os EUA rejeitaram o acordo – e de forma tão veemente e categórica – eu acho que havia muito pouca oportunidade para que outros países pudessem fazer qualquer coisa. Eu acho que parte do motivo de os EUA terem sido tão rápidos, duros e negativos foi justamente para impedir outros Estados de apoiarem Brasil e Turquia.

Lula e Ahmadinejad. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Para autor, Brasil e Turquia conseguiram avanço importante na diplomacia com o Irã

BBC Brasil: O senhor parece bastante otimista, em seus artigos recentes, com a nova rodada de negociações entre EUA e Irã que começou no fim de semana passado. Existe motivo para esperança?

Trita Parsi: Eu acho que existem alguns fatores que podem fazer com que isso funcione. Existe um desejo do governo Obama de evitar uma guerra, de baixar o preço do petróleo, existe uma abertura devido à aceitação do enriquecimento de urânio no Irã sob certos limites. Parece haver alguns novos ingredientes que podem fazer com que isso funcione. Mas novamente o teste definitivo será ver se os desafios políticos serão vencidos ou não. Não só a parte técnica.

BBC Brasil: É preciso convencer os atores internos no Irã e nos EUA de que um acordo é importante?

Trita Parsi: Exatamente. E convencer os países que se opõem a um acordo, como Israel.

BBC Brasil: Não é pouco provável que isso vá acontecer justo em um ano de eleições presidenciais nos EUA?

Trita Parsi: É muito fascinante. Eu não esperava que isso fosse acontecer em um ano de eleição. Mas parece que justamente por causa das eleições, isso se tornou importante. Ou seja, os preços do petróleo precisam cair. Porque se os preços de petróleo estão altos em um ano de eleições, isso significa que o preço da gasolina é alto. Se a gasolina fica cara, a geração de empregos não vai acontecer de forma eficiente. E isso pode fazer com que Obama perca as eleições.

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