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Ex-presidente militar argentino diz ter ordenado até 8 mil mortes

Atualizado em  13 de abril, 2012 - 16:20 (Brasília) 19:20 GMT
Jorge Rafael Videla.AFP

O ex-presidente militar argentino Jorge Rafael Videla (1976-1981) admitiu, pela primeira vez, que foi o responsável direto pelas "mortes e desaparecimentos de entre 7 mil e 8 mil pessoas" durante seu governo.

A declaração foi dada ao jornalista argentino Ceferino Reato que lança no próximo fim de semana na Argentina o livro Disposición Final (Disposição Final, em tradução livre), sobre os anos em que Videla comandou o regime argentino.

O general afirmou que a repressão violenta a opositores foi necessária para que não ocorressem protestos dentro e fora do país.

"Não havia outra solução. Na cúpula militar estávamos de acordo que era o preço a se pagar para ganhar a guerra contra a subversão e precisávamos [de um método] que não fosse evidente, para que a sociedade não o percebesse”, disse Videla ao jornalista.

Em entrevista à BBC Brasil, Reato disse que "não foi difícil conseguir a entrevista".

"Videla não é procurado pelos jornalistas e estava disposto a falar", disse.

Ordens

O ex-homem forte da Argentina afirmou ter dado as ordens sobre cada prisão e assassinato de seus opositores. Disse porém ser incapaz de apontar a localização dos corpos pois os assassinatos e eliminação dos cadáveres teriam sido praticados pelas diversas unidades militares sob seu comando.

Videla tem hoje 86 anos e cumpre pena de prisão perpetua na cadeia militar Campo de Mayo, na Província de Buenos Aires.

"Tenho peso na alma, mas não estou arrependido de nada. Gostaria de fazer esta contribuição para que a sociedade saiba o que aconteceu e para aliviar a situação de muitos oficiais que atenderam às minhas ordens", afirmou Videla ao jornalista.

As cerca de 20 horas de entrevistas foram gravadas pelo jornalista entre outubro de 2011 e abril de 2012. "Ele está bem fisicamente, apesar de curvado por problemas na coluna vertebral".

"Videla disse que [os militares] chegaram ao poder depois do golpe decididos a 'aniquilar' as ações dos subversivos", contou.

Desaparecimentos

Videla contou que antes da decisão pelas mortes e desaparecimentos, outras formulas para "eliminar" a guerrilha foram tentadas, como tiroteios disfarçados nas ruas.

"Eu sabia tudo o que estava acontecendo e autorizei tudo", disse Videla.

O livro foi chamado de Disposición Final porque era como os militares definiam a última etapa a ser cumprida – primeiro prisão, depois morte e no fim o desaparecimento do corpo.

"Disposição final são palavras bem militares. Significam tirar algo de circulação quando já é irreversível", disse.

Videla foi sentenciado à prisão perpétua em 1985, mas cinco anos depois recebeu o perdão do presidente Carlos Menem. Em 1998 foi condenado à prisão domiciliar, sob acusação de sequestro de bebês durante seu governo. Em 2003, o perdão de 1990 foi revogado e em 2008 ele foi enviado a uma prisão militar.

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