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Transexual Titica rouba a cena do kuduro em Angola

Atualizado em  14 de abril, 2012 - 14:55 (Brasília) 17:55 GMT

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'Funkeiro angolano' desafia preconceito em país africano católico.

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Ela é ousada, brilhante, bonita e está roubando a cena em Angola. Nada mal para uma transexual em um país africano católico onde a homossexualidade ainda é largamente desaprovada pela sociedade.

Nascida em Luanda como Teca Miguel Garcia, a cantora e dançarina Titica adotou sua persona feminina há quatro anos, quando implantou seios no Brasil.

Agora, aos 25 anos de idade, Titica é a nova face do kuduro, gênero angolano que mistura rap, música eletrônica e ritmos locais.

De dia, as canções de Titica são ouvidas em todos os miniônibus; à noite, tomam as pistas de dança e, nos finais de semana, são trilha essencial das festas infantis.

Nomeada Melhor Artista de Kuduro de 2011, Titica é atração certa em programas de rádio e TV, e se apresentou no Concerto das Divas, evento anual que contou com a presença do presidente José Eduardo dos Santos e no qual ela foi aclamada.

Com educação em balé, Titica se envolveu com o kuduro como dançarina de apoio de artistas populares como Noite e Dia, Própria Lixa e Puto Português.

Surpreendentemente tímida

Em outubro passado, lançou sua primeira canção, "Chão", uma das faixas mais tocadas da história do kuduro.

Este mês, a cantora embarca em sua primeira turnê internacional, com shows em Portugal, Grã Bretanha e Estados Unidos.

Foto: BBC

Titica ganhou fãs pela música, apesar das resistências quanto a homossexuais no país

Em conversa com a BBC enquanto se maquiava para a gravação do videoclipe do hit "Olha o Boneco", no qual divide a performance com a popular cantora de kizomba Ary, Titica afirma que foi atropelada pelo sucesso.

"Graças a Deus, estou muito feliz, levou um tempo para eu chegar onde cheguei e muito sacrifício, mas graças a Deus tudo está indo bem", disse.

Surpreendentemente tímida para uma extravagante e ousada artista, Titica evita falar de sua sexualidade e diz que até se tornar uma estrela nem tudo foi um mar de rosas.

"Fui apedrejada, espancada e há muito preconceito contra mim, muita gente mostra isso. Há um enorme tabu", afirma.

Apesar do tabu, Titica vem acumulando fãs e despertado mais interesse por sua música do que por sua sexualidade.

"Eu gosto da Titica, realmente gosto. Muitos dizem que ela é uma garota, outros, que é um garoto, realmente não sei, mas a gente apenas gosta da música dela", disse um rapaz que assistia à gravação do videoclipe na praia da Ilha.

'Antes ela era homem'

Um amigo dele acrescentou: "Antes ela era homem, mas, agora, pelo que dizem, ela é mulher. Angolanos podem discriminar bastante mas, não, nós a apoiamos e gostamos muito dela, e gostamos muito do trabalho que ela faz".

Foto: BBC

Ary e Titica no videoclipe 'Olha o boneco', sucesso em Angola entre adultos e crianças

O diretor angolano Hugo Salvaterra, que esteve envolvido em um documentário sobre kuduro para a TV sueca, afirmou que Titica é uma artista da música antes de ser uma transexual.

"Titica é talentosa, está fazendo boa música e tem um show fantástico, razões pelas quais as pessoas gostam dela".

Salvaterra afirma, porém, que embora a aceitação a Titica tenha crescido com sua música, ainda há resistências de setores da sociedade. Afinal, Angola é uma país religioso e a maioria dos cidadãos é católica.

"Temos que separar o Estado do povo", afirma, explicando que a independência de Portugal, em 1975, e 27 anos de guerra civil fizeram dos angolanos mais abertos a novas ideias.

É difícil imaginar, no entanto, que Titica será bem-vinda em outros países africanos como Uganda, Nigéria, Malauí, Quênia e Camarões, onde homossexuais são regularmente vitimas de intolerância e violência.

Em Angola, uma nova lei criminalizando a homofobia está inclusive para ser aprovada no Parlamento.

"Não há incidentes de violência homofóbica, mas mão diria que as pessoas são totalmente OK em relação ao homossexualismo"

Nana Frimong, ativista

Isso talvez explique o fato de Titica ser aparentemente bem recebida em Luanda, que possui uma pequena cena gay. Mas ainda há resistência não declarada e o país está longe de ser um destino gay tropical.

De acordo com Nana Frimong, ex-diretora da organização de saúde Population Services International (PSI),que pesquisou a incidência de Aids entre os gays angolanos, ainda há grande desaprovação à homossexualidade.

"Não há incidentes de violência homofóbica, mas não diria que as pessoas são totalmente OK em relação à homossexualidade". Segundo Frimong, o governo permanece calado sobre o tema.

Apesar da política, não há dúvida de que Titica ganhou um lugar no coração do país.

"O gelo está quebrando", conclui Salvaterra.

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