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Leilão de ferramentas de tortura é suspenso na França após polêmica

Atualizado em  3 de abril, 2012 - 05:21 (Brasília) 08:21 GMT
Instrumento de tortura que esmaga mãos e que fazia parte do acervo da mostra na França (Cornette de Saint Cyr)

Esmagador de mãos era uma das peças da exposição

Um leilão de objetos de tortura que deveria ocorrer na terça-feira em Paris, foi suspenso após uma grande polêmica no país e por protestos de organizações de direitos humanos.

Em um comunicado conjunto, organizações não-governamentais como a Anistia Internacional afirmaram ser ''chocante e inaceitável'' que instrumentos utilizados para torturar e executar pessoas possam ter fins comerciais.

''Diante da emoção suscitada por essa venda, decidimos suspendê-la para que todas as partes envolvidas possam examinar com calma o conteúdo real dessa coleção'', afirmou o leiloeiro Bertrand Cornette de Saint Cyr.

A venda, intitulada ''Penas e castigos do passado'', reunía 350 objetos e documentos ligados à tortura de prisioneiros e à aplicação de penas capitais na Europa ao longo dos séculos.

Entre eles, um aparelho para esmagar as mãos, uma banheira para recolher cabeças decapitadas, máscaras usadas por carrascos para esconder o rosto durante a execução do condenado e uma cadeira com assento repleto de pontas espetadas.

A coleção, estimada em 200 mil euros, também tinha um chicote encontrado na Torre de Londres (que funcionou como uma prisão até o século 12) ou ainda uma corda de enforcamento ''autografada'' pelo carrasco britânico Syd Dernley, que atuou nos anos 50 e morreu em 1994.

'Pêra da angústia'

A venda incluía ainda uma ''pera da angústia'', como era chamado o instrumento colocado na boca e que ia aumentando de volume para sufocar os gritos dos prisioneiros que podiam ''incomodar'' os juízes dos tribunais da Inquisição.

Instrumento de tortura conhecido como 'pera da angústia ' (Cornette de Saint Cyr)

'Pera da angústia' era usada em genitais de homossexuais

A ''pera da angústia'' também era usada nas partes genitais de homossexuais ou de mulheres suspeitas de ter relações com o ''diabo'' na Idade Média.

O proprietário da coleção posta à venda também foi motivo de polêmica na França.

Os objetos e documentos pertenciam ao ex-carrasco francês Fernand Meyssonnier, que realizou, sob ordens do governo da França, quase 200 execuções na Argélia entre 1957 e 1962, no período da guerra de independência do país.

O leilão, que não continha nenhum objeto da guerra civil da Argélia, havia sido organizado a pedido da família do ex-carrasco, falecido em 2008.

O ministro da Cultura, Frédéric Mitterand, também havia criticado a venda e expressado o desejo de que ela fosse cancelada.

'Morbidez e barbaridade'

''A natureza da coleção se enquadra mais na categoria de morbidez e barbaridade do que cultural. Ela também provoca, em razão de sua origem, dolorosos questionamentos históricos'', declarou o ministro.

Máscara de carrasco que integrava mostra (Cornette de Saint Cyr)

Máscara de carrasco era um dos artigos da mostra

Em um comunicado conjunto, organizações de direitos humanos afirmaram que a venda é ''uma ofensa à memória e à dignidade das pessoas que sofreram torturas''.

''Em vários países, o uso da tortura ainda é uma prática comum. Aceitar a venda desses objetos significa banalizar o flagelo'', diz o comunicado das ONGs, que pediram ao governo francês para que a coleção seja adquirida por museus.

Antes mesmo do início previsto da venda, o leiloeiro já havia decidido, na semana passada, retirar da coleção a réplica de uma guilhotina, afirmando que ainda existe um ''contexto emocional'' na França em relação ao objeto.

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