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Vida religiosa é nova alternativa para espanhóis em busca de 'trabalho fixo'

Atualizado em  3 de abril, 2012 - 08:02 (Brasília) 11:02 GMT
Imagem de vídeo de recrutamento da Conferência Episcopal Espanhola

Vídeo de recrutamento da Conferência Episcopal Espanhola causou revolta

Em tempos de desemprego recorde, uma nova campanha da Conferência Episcopal Espanhola para chamar a atenção da sociedade para as virtudes do sacerdócio parece estar surtindo efeito entre os espanhóis.

Com o objetivo de atrair jovens para seus seminários, a instituição divulgou na internet um vídeo reunindo depoimentos de padres.

Em dois dias, o filme atraiu 120 mil visitas.

O primeiro depoimento não promete um bom salário e, sim, trabalho fixo e uma vida apaixonante.

"Somos a única classe social que não tem desemprego. No ministério sacerdotal não há desemprego, temos muito trabalho e o pagamento garantido está no Evangelho e, depois, na vida eterna", disse o monsenhor Juan José Asenjo ao jornal espanhol ABC.

De acordo com representantes da Igreja Católica, a estratégia fez aumentar o número de seminaristas no país, que após cair durante nove anos consecutivos, hoje registra um pico de 1.278.

Enquanto isso, cinco milhões de pessoas procuram emprego na Espanha.

Polêmica

Em entrevista à BBC, o bispo e presidente da Comisão Episcopal de Seminários e Universidades da Espenha, Josep Ángel Sáiz, disse que a campanha cumpriu seus obejtivos.

"Queríamos chegar às redes sociais, aos adolescentes e jovens que não vão à igreja e não leem os cartazes (convidando-os a) se inscrever no seminário", disse Sáiz.

O seminarista Alberto Jaime Manzano

O seminarista Alberto Jaime Manz diz que 'tudo o que prometem no vídeo é certo'

"A primeira frase, que faz referência ao trabalho fixo, criou expectativas e polêmica, mas não estamos falando da perspectiva econômica e de emprego", explicou. "A ideia, nas palavras de Jesus, é de uma vida ocupada e cheia de trabalho, mas ela é dita em estilo provocativo e audiovisual".

Estudantes de seminários recebem alojamento, comida, formação e estabilidade - ao menos durante os seis anos de estudos - e, posteriormente, um salário seguro.

Os seminários espanhóis têm razões para estar satisfeitos: neste ano, há mais matrículas e menos desistências.

Em 2011, houve 245 novos ingressos e 124 desistências. Já em 2012, 277 jovens iniciaram cursos e apenas 90 desistiram.

"Esse aumento não tem nada a ver com um trabalho fixo. O sacerdócio não é uma profissão, é uma vocação, Isso foi iniciativa de Deus e é a pessoa humana que, em liberdade, responde a um compromisso para sempre, com renúncias e prazeres", disse Sáiz.

Campeão de Popularidade

O Seminário Metropolitano de Sevilha foi o que atraiu mais alunos novos. Seu novo curso tem 61 alunos - em contraste com 35 no anterior.

"Acredito que as razões fundamentais desse aumento tenham sido as Jornadas Mundiais da Juventude, celebradas em Madri em agosto, além do apoio das orações de muitíssimas pessoas, sacerdotes, catequeses e pastorais (...) que tornam nossa vida eloquente e atrativa", disse o reitor do seminário, Miguel Ángel Núñez.

Para Nuñez, o vídeo que promete trabalho fixo mais do que cumpre seus objetivos, porque o sacerdócio envolve trabalhar 24 horas por dia, 365 dias por ano. Ele não acha, no entanto, que o aumento no número de alunos nos seminários tenha qualquer relação com a conjuntura econômica do país.

"(O aumento) não está em absoluto relacionado à crise. Ninguém entra em um seminário porque não tem alternativa, não é por ter interesse em buscar sua própria sobrevivência, é porque (a pessoa) quer se dedicar a ajudar os outros. De qualquer forma, a Igreja não permitiria que alguém entrasse no seminário para se manter", disse.

Para entrar no seminário, o candidato precisa ser aprovado nas provas de acesso à Universidade e deve demonstrar "pureza de intenção".

"(Os jovens seminaristas) têm de se entregar com uma intenção pura, que não pode distorcer a missão. É preciso maturidade suficiente. E a função dos formadores é assegurar que isso seja assim".

Como no Vídeo

"Aqui sou feliz", disse Alberto Jaime Manzano, de 22 anos, seminarista em Sevilha.

"Passei quatro anos estudando aqui e sei que este é meu caminho, encontrei uma outra família. É bonito seguir o processo da vocação, sem medo. É uma vida apaixonante, tudo o que prometem no vídeo lançado pela Conferência Episcopal é certo".

Cena da gravação do vídeo de recrutamento

No vídeo de recrutamento, sacerdotes falam sobre o que é a vida eclesiástica

No vídeo, que reúne declarações de mais de cem padres, os sacerdotes explicam o que é a vida eclesiástica.

"Não te prometo a compreensão dos que te rodeiam, te prometo que saberás que fizestes o correto; não te prometo uma decisão fácil, te prometo que nunca te arrependerás; não te prometo que venhas a ter grandes lucros, mas sim que sua riqueza será eterna", diz uma das declarações.

A primeira e mais polêmica das declarações diz: "Não te prometo um grande salário, te prometo trabalho fixo".

O diretor criativo do vídeo, Santiago Requejo, disse que o posicionamento da frase foi intencional. "(O objetivo) dessa primeira promessa é captar a atenção, para criar impacto. E é verdade, porque é um trabalho para toda a vida, é uma maneira de dizer que é para sempre".

"A sociedade espanhola tem preconceitos, por isso quisemos que a mensagem chegasse limpa e gravamos as declarações em primeiro plano, para que não se veja que quem está falando é um sacerdote. Usamos as regras do jogo do século 21, com habilidade, com uma mensagem atual para chegar aos jovens", disse Requejo.

"Essa primeira afirmação está sendo criticada porque incomoda a sociedade. A vocação leva você a trabalhar sem se ater ao que recebe como salário. Aqui, você faz o trabalho que nasceu para fazer e se sente seguro", concluiu Manzano.

E repetiu: "É verdadeiramente uma vida apaixonante".

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