Câmbio não é grande vilão da indústria, dizem economistas

Atualizado em  3 de abril, 2012 - 13:18 (Brasília) 16:18 GMT
Indústria na Zona Franca de Manaus. ABr

Operários trabalham numa fábrica na Zona Franca de Manaus, que já apresenta desaquecimento.

O Brasil vive um cenário de desindustrialização precoce - na medida em que a indústria perde peso no conjunto da economia - mas o câmbio não é o "único culpado" como vem sendo apontado por governo e empresários, segundo os economistas ouvidos pela BBC Brasil.

Para esses especialistas, há um consenso de que o real valorizado afeta a competitividade da indústria brasileira, uma vez que incentiva as importações ao mesmo tempo que atravanca as exportações, embora esteja longe de ser a raiz do problema, como argumentam dirigentes industriais.

Tal cenário piorou com a recessão nos Estados Unidos e na Europa, uma vez que as indústrias desses países, com um consumo interno desaquecido, passaram a buscar novos mercados para escoar sua produção, como o Brasil e outros emergentes. Com menor consumo nos países ricos, outros grandes exportadores, como a China, também vêm buscando ampliar seus mercados onde o consumo permanece alto.

Segundo os economistas, o desaquecimento da indústria nacional deve-se muito mais aos gargalos estruturais já existentes no país, o chamado "Custo Brasil" - como a elevada carga tributária (em torno de 36% do PIB), a infraestrutura precária e a baixa produtividade do trabalhador - além de uma política de expansão fiscal por parte do governo (que, ao gastar mais, deixa de poupar e, assim, investe menos).

A taxa de investimentos privada, incluída aí a compra de maquinários, também é considerada baixa.

"Tudo isso acaba encarecendo o produto final, que não consegue competir com um similar que vem de fora", disse Ruy Quintans, professor de economia do Ibmec-RJ.

No último ranking do relatório Doing Business do Banco Mundial, que mede a facilidade de se fazer negócios em cada país, o Brasil aparece na 126ª posição entre as 183 nações avaliadas.

Causas e sintomas

No ano passado, a participação no PIB da indústria de transformação (representada pela cadeia industrial que transforma matérias-primas em bens de consumo ou em itens usados por outras indústrias ) foi de apenas 14,6%, segundo o IBGE. O patamar é o mais baixo desde 1956, quando esse segmento respondeu por 13,8% da soma de bens e serviços produzidos pelo país.

Para o economista Rodrigo Constantino, fundador do Instituto Millenium, ao anunciar medidas pontuais (como o aumento do IOF - imposto sobre operações financeiras), "o governo tem atacado mais os sintomas do que as causas dos males que afetam nossa indústria".

Daí a necessidade de políticas que atinjam todos os setores da economia, como a tão pedida reforma fiscal, bem como novas regras previdenciárias que custem menos ao setor produtivo, segundo os economistas.

O cenário de desindustrialização tem impactado, de maneira mais forte, alguns setores específicos - caso da indústria têxtil, que teve retração de 9,2% em 2011, frente à entrada cada vez maior de tecidos chineses no país.

De janeiro a dezembro de 2011, a indústria de transformação também cresceu aquém do esperado (+0,1%), o que elevou os temores de que o setor continue perdendo espaço para concorrentes estrangeiros, levando a demissões e ao fechamento de fábricas a curto e médio prazo.

Segundo entidades que representam o setor, no ano passado, a expansão da demanda por manufaturas foi inteiramente suprida por produtos importados.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a atividade industrial seguirá desaquecida. Dados da última pesquisa "Sondagem Industrial" apontaram que tanto a produção quanto o nível de emprego da indústria em fevereiro ainda se encontram abaixo do patamar recomendável, levando a atividade industrial a registrar retração pelo sexto mês consecutivo.

Formação dos trabalhadores

Se a indústria dá sinais de fôlego curto, o setor de serviços, por outro lado, tem crescido e ocupado cada vez mais espaço no conjunto da economia brasileira. Segundo o IBGE, o setor de serviços representa 67% do PIB em 2011, alta de 2,7% em relação ao ano anterior.

Mas o que poderia ser um sinal de desenvolvimento, pode significar um problema adicional, dada a baixa especialização dos trabalhadores brasileiros. A baixa produtividade (fruto da educação deficiente) também funciona como um freio no desenvolvimento da economia brasileira.

Em países que passaram por processo semelhante, como os Estados Unidos, industrias inteiras foram transferidas para países de produção mais barata - como a China. O vácuo, no entanto, foi preenchido por setores industriais mais desenvolvidos, que apostam na inovação e agregam mais valor aos produtos, aumentando a renda do trabalhador.

"Nessas nações, a indústria perdeu espaço porque, de tão desenvolvida, dinamizou outros setores da economia, que ganharam força, aumentando a renda média da população", concluiu Roberto Messenberg, coordenador do Grupo de Análises e Previsões (GAP) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para os especialistas, a desindustrialização no Brasil ocorre sem a mesma contrapartida de elevação de renda per capita observada nos países ricos, como Estados Unidos e Japão. E o problema, mais uma vez, esbarra no déficit de formação do trabalhador.

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