Ivan Lessa: Cadáveres ilustres

Atualizado em  30 de março, 2012 - 07:32 (Brasília) 10:32 GMT

Impossível não falar de Millôr. Passaremos algumas décadas ouvindo-o e vendo-o.

Tudo que se pode ser dito sobre Millôr, Millôr já disse antes.

Forçando um pouco a barra, tudo que pode ser dito sobre tudo já foi dito antes pelo Millôr.

Nesse caixão, recuso-me a pegar carona. Questão de amizade e respeito.

A imprensa fazer o escarcéu que anda fazendo é correto. Millôr merece.

Depois, como tudo e todos mais, esquecê-lo, pois dessa barra fomos feitos.

O que acho mais curioso é o número de gente de luto berrando inanidades, choramingando e sobrepondo-se ao morto, dando a impressão de que vão se jogar no caixão e, em seguida, no crematório com o que restou do Millôr.

Gente que era só cinzas e continuará cinzas.

Notei ainda que, desde o começo da doença de Millôr, ele e a família insistiram em cobrir o evento com o véu da discrição. Sabiam, na certa, o que estavam fazendo e porquê o estavam fazendo.

Agora, em matéria de depoimentos, o que houve foi uma malhação do Judas ao contrário.

Impossível ainda, em nome de tanta coisa, não deixar de citá-lo com uma só de suas frases, dessas do tamanho do cadáver ("Do tamanho de um cadáver", peça do Millôr de 1955, encenada logo ali no Teatrinho de Bolso da Praça General Osório, em Ipanema): "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois de sua morte."

No que passamos ao morto seguinte na fila. Aliás, morta. Foi-se, no mesmo dia 28 de março, Ademilde Fonseca, a "Rainha do Choro", 91 anos segundo parte da imprensa.

Ademilde era potiguar, mas, muito talentosa, logo remediou a situação embaraçosa de sua origem vindo para o sul e especializando-se na vocalização com letra no que talvez seja o mais puro e mais erudito de nossos gêneros musicais: o choro, ou chorinho.

O choro é e foi estudado e apreciado pelas mentes e ouvidos mais perfeitos do século que passou. De Villa-Lobos a Darius Milhaud.

Sem falar nos inúmeros catedráticos e praticantes do gênero em que Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Zequinha de Abreu e tantos outros botaram todas suas fichas no que um violão de 7 cordas, junto a outro mais modesto, juntamente com bandolim, flauta, cavaquinho e pandeiro são capazes de criar.

Vez por outra uma boca no trombone para fazer comentários ou lamentos debochados.

Há um Dia do Choro na França e no Japão. Agora, no dia 23 de abril, teremos, enfim, o Dia Nacional do Choro. Só que Luis Americano, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Abel Ferreira, Garoto e Radamés Gnatalli continuarão jogando num segundo time perdendo de lavagem para Lady Gaga, Rihanna e Beyoncé e ninguém os tuitará, por desconhecer o que músicos de jazz, disciplina severa complicada e livre, toda chegada a improvisos, como o choro e com ele disputando raízes, apreciam muito mais, quando apresentados (Horace Silver e Dizzy Gillespie que eu tenha visto e me lembre), do que o nhém-nhém-nhém da bossa nova, hoje uma tradição nos elevadores Otis e Schindler.

O choro tem a energia e a improvisação do jazz.

Voltando a Ademilde, botei um vinil no aparelho de som nos últimos dias, para ver o tamanho da defunta. Incrível, fantástico, extraordinário, o que Ademilde fazia com o "Galo Garnizé", do Almirante, "Tico-tico no fubá", do Zequinha de Abreu, que ela foi a primeira a cantar com letra, "Rato, rato", "Urubu Malandro", "Brasileirinho", "Pedacinhos do céu". Aquilo tudo estava vivo e pulsante, a nossa cara, mais do que lobos bobos ou rolleiflexes. Ademilde destruía.

Impressionante a velocidade com que disparava pela estrada complicada dessas enredadas trilhas sonoras. 200 km por hora fácil.

Lembrei-me, por ser inevitável e nada depreciativo, da Annie Ross, do grupo Lambert, Hendrix & Ross, ou Anita O´Day em seus melhores dias.

E agora, por ser fim de semana, descansemos todos e deixemos, principalmente, os mortos, em paz.

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