Ivan Lessa: Ainda o vil metal

Atualizado em  12 de março, 2012 - 04:51 (Brasília) 07:51 GMT

Como a vida aqui na Grã-Bretanha está cada vez mais cara, e eu cada vez mais barato, volto a falar dessa, para mim, impoderabilidade, que é a posse de muito dinheiro.

A esta altura do campeonato, no apagar das luzes, não ambiciono mais sequer ser remediado.

Como todo mundo descobre, mais cedo ou mais tarde, o dinheiro compra a felicidade, sim, senhor, e quem espalhou o contrário fê-lo (pois é, eles fazem e falam assim) por pura mágoa e para dar uma satisfação a seus credores.

Basta entupir o camaradinha de grana e deixar que ele mesmo faça suas compras, onde então a felicidade está no topo da lista englobando uma porção de relógios Rolex, mulheres do mais alto gabarito (salto sete e meio e mais nada em cima do corpo a não ser um corte "Brazilian", pejorativo e pelorativo que, aliás, continuando outra história, não consta felizmente do dicionário eletrônico Houaiss, ao contrário dos verbetes "cigano" e "negro". Mas tergiverso, tergiverso, que é predicado dos borra-botas feito eu), palacete com piscina, carros e excursões aos melhores hotéis de lugares do mundo onde ninguém mais vai, feito Paris, Nova York, Miami e Roma.

Eu quero falar de dinheiro. Esse meu tema favorito dos últimos tempos. Tudo culpa da revista Forbes e seus 500 mais ricos do mundo.

Como medida de sanidade e economia, já cancelei minha assinatura. Não aguento mais sonhar com o mexicano Carlos Slim, o palerma (ou pelo menos com cara de bobão) do Bill Gates e Eike Batista sorrindo com seus 64 dentes preparados especialmente por protéticas catarinenses.

Prefiro ler os jornais em sua versão gutemberguiana, que no fim das contas acabam saindo mais barato.

Semana passada, correu por aqui a nota da noitada de um, que só pode ser bilionário, lá em Liverpool, cidade com mais de um século de decadência e, com toda certeza, achava eu, nunca a ideal para o desabrochar espalhafatoso do exclusivérrimo clube dos Bis (de bilionários).

O camarada, que não se quis identificar, o que já é estranho para um bilionário, ou mesmo apenas multimilionário, acompanhado de seu séquito – condição sine, qua e non dos endinheirados – pousou com suas asas douradas e óculos escuros na casa noturna PlayGround, do Hilton Hotel (nunca um bom sinal), local onde após algumas horas fez uma despesa de 203 mil libras, uns 555 mil reais, onde o ponto de destaque foi uma garrafa de champanhe Brignac Midas que, com seus 30 litros do precioso líquido efervescente, e pesando 45 quilos, levou 2 garçons para servir a alegre e sempre anônima turma.

Foram consumidas ainda bebidas alcoólicas mais prosaicas como vodca, vinho e cerveja. Alguns dos presentes não agregados à valorosa equipe foram, para justificar seu apodo, presenteados com 40 garrafas da champanhe Ace of Spades, nada de muito sofisticado mas também nada de se jogar fora no bueiro. Um freguês, também anônimo, comentou que o dono da festa “não parecia estar bebendo e aparentava sobriedade absoluta.”

Até esta liverpudliana festança o recorde – e não consta da revista Forbes – para uns “bebes e bebes” estava com o jogador, no sentido de apostador, americano Don Johnson, que, na buate One For One, sita à mui chique avenida de Park Lane, que ladeia o Hyde Park em Londres, gastou em junho do ano passado 170 mil libras, perto de uns 480 mil reais.

Ah, sim. E a gorjeta? A gorjeta foi deixada pelo festivo anônimo respeitando os superados 10% clássicos: £18,540,80, uns 49 mil reais. Assim é que se fica bilionário. Economizando na parte que conta. Os serviçais, por exemplo.

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