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Soldados britânicos no Afeganistão: Antes, durante e depois

Atualizado em  12 de março, 2012 - 06:35 (Brasília) 09:35 GMT

Soldados britânicos no Afeganistão: Antes, durante e depois

  • Foto: Lalage Snow

    Soldado Sean Patterson, 19

    Antes - "Vou me despedir logo da minha família por odiar despedidas. Vou sentir falta deles, mas não tenho medo. Mal posso esperar! Ingressei no Exército aos 15 anos de idade. Era tudo o que eu queria e agora estou ansioso para ir."

    Durante (recebendo tratamento psicológico) - “Foi horrível. Quando voltamos para a área segura, comecei a chorar. Todos nós choramos. Não consegui dormir naquela noite. Pensava na minha família e olhava para as estrelas. Nas primeiras noites, tive pesadelos, acordava suando frio. Quando voltei a atuar, sofremos um ataque e dois caras tiveram que ser retirados após perderem membros. Foi horrível ver isso acontecer mais uma vez. Rezo antes de sair em uma patrulha, mas agora penso: voltarei inteiro ou sem uma perna? Fico aterrorizado toda vez que saio para patrulhar. Odeio isso. Faltam 84 dias para eu voltar para casa.”

    Depois - “As pessoas pensam que você pode viver a vida tranquilamente, mas não é assim tão fácil. Um ônibus pode te pegar e acabou, você nunca sabe o que vai acontecer, especialmente ali. Você pode sair numa patrulha e aquele é seu dia. Fim. Acredito que devemos deixar eles (afegãos) se resolverem. Já perdemos muitas pessoas. Você vê gente voltando sem três membros. Eles não vão arrumar emprego civil, vão? Então, não vejo sentido. Não temos nada a ganhar no Afeganistão. É problema deles. Eles que se resolvam.”

    Fotos: Lalage Snow

  • Foto: Lalage Snow

    Soldado Steven Anderson, 31

    Antes - “Acho que vai ser horrível, na verdade. O trabalho será intenso, com muitas baixas. Não tenho medo de morrer, mas de perder as pernas.”

    Durante - “É difícil explicar como são as coisas. Geralmente, quando minha namorada me pergunta pelo telefone por que eu não estou falando normalmente, é que... Você fica simplesmente exausto. Tive medo na primeira patrulha, mas você se lembra dos treinamentos e sabe o que fazer. Não estive em nenhum tiroteio e espero que continue dessa forma e eu vá para casa com todos os meus dedos das mãos e dos pés intactos.”

    Depois - “Tentamos ganhar seus corações e mentes... mas essa gente vive até os 45 anos de idade e há tanta pobreza e falta remédio para tratá-los. Eles dão um valor diferente à vida. Uma criança morreu, doente. Eles trouxeram o corpo até nós, com marcas de tiros, dizendo que a criança foi pega em um tiroteio. Eles exigiam dinheiro. Como você pode mudar a cabeça de alguém assim?”

    Fotos: Lalage Snow

  • Fotos: Lalage Snow

    Soldado Matthew Hodgson, 18

    Antes - “Estou ansioso para ir agora que sei que vamos, mas tenho medo de perder meus melhores amigos mais do que eu mesmo. São as baixas que me assustam. Sei que vai haver muitas.”

    Durante, após uma explosão - “Foi realmente aterrorizante. Você vê a explosão e se pergunta quem foi atingido. Não é bonito de se ver. É um choque o quão real é tudo isso e você tenta não pensar mais no assunto. A patrulha era sem sentido e agora um soldado afegão não tem uma perna. E para quê?"

    Depois - “Você tenta explicar como era, onde estava, mas as pessoas não tem a menor ideia. Não fazer uma refeição decente ou ter uma boa noite de sono. E estar completamente exausto após uma patrulha. E deu muito medo várias vezes. Quando você está em combate, é só 'se abaixar'. Mas depois cai a ficha: 'estavam atirando em mim, foi por pouco'. Agora que estou em casa, fico frustrado com coisas pequenas, me irrito. Eu não era assim."

    Fotos: Lalage Snow

  • Foto: Lalage Snow

    Cabo David McLean, 27 anos

    Antes - “Não estou incomodado em ir, sou um soldado e este é o meu trabalho. Estamos treinando há tanto tempo que vai ser bom finalmente chegar lá.”

    Durante - “Não aconteceu nada realmente até agora. Tem sido bem calmo e estou um pouco entediado. Quando estamos em um posto de controle, somos apenas 10, portanto ficamos um pouco mais vulneráveis. A comida fede um pouco e você se enche de comer arroz e macarrão. Do que sinto falta? Casa, mulher e álcool. Simples."

    Depois, após levar um tiro na perna - “Faltava só mais uma semana para ir embora. Eu estava na frente na patrulha. Cruzamos uma vala e me virei para ajudar quem vinha atrás. Estávamos em meio a árvores e alguém disparou contra nós. Só senti um calor no músculo e rolei para a vala. Vieram com uma maca, mas a vala era estreita demais. Você não pensa muito na hora, a adrenalina é muita. Em meia hora, eu estava no helicóptero e, no dia seguinte, em Selly Oaks."

    Fotos: Lalage Snow

  • Foto: Lalage Snow

    Soldado Jo Yavala, 28 anos

    Antes - “Vou sentir falta da minha família. Já estive no Iraque, mas não no Afeganistão. Não sei o que esperar, mas estou ansioso para ir.”

    Durante , após uma explosão - “Tinha um pressentimento estranho sobre essa patrulha. Ouvi o barulho e depois, no rádio, alguém gritando “soldado ferido”. Foi o primeiro incidente com feridos que vi. Foi horrível. Vi o rapaz sendo tratado pelo médico. Não tinha perna. Voltei até onde tinha ocorrido a explosão e vi sua bota boiando na água. Só uma bota vazia.”

    Depois - “Rezo de manhã, quando acordo, e antes de dormir. Mas lá rezava todo o tempo, pensando na minha família em casa. Por vezes, rezava durante a própria patrulha. Estava com muito medo. Especialmente quando estávamos em contato com o inimigo, não se sabe o que vai acontecer. Agora, percebo que estou um pouco nervoso, minha temperatura sobe rapidamente, especialmente se fico muito tempo em espaços fechados. Às vezes, sinto falta de estar com os caras. Nos primeiros dias, dormia mal. Sonho com coisas que aconteceram no Afeganistão. De vez em quando, acordo chorando.”

    Fotos: Lalage Snow

  • Foto: Lalage Snow

    Cabo Ben Frater, 21

    Antes - “Sim, tenho medo. De não voltar para casa. Sentirei falta de meus finais de semana, ir a festas com amigos, este tipo de coisa.”

    Durante - “Está sendo mais fácil do que pensei, mas não aguento o calor. Ele me enlouquece e nosso treinamento deveria ter sido feito em um país quente para que não nos sentíssemos despreparados para a realidade. A área é tranquila e sair para patrulhar parece um passeio. Mas você nunca sabe. E por ser calmo, sobra mais tempo para pensar sobre a vida normal. Sinto falta dela. E de banhos e roupas limpas.”

    Depois - "Nunca esquecerei o dia em que o soldado Warton, da Guarda Escocesa, foi alvejado. Patrulhávamos, tentando nos distanciar de onde estavam os insurgentes. Eles nos seguiram e nos emboscaram. Warton não encontrou proteção e foi atingido na perna. Foi um pesadelo tirá-lo de lá e conseguir transporte enquanto estávamos com água até o queixo. Agora em casa? É estranho. Calmo. Fico entediado facilmente, depois de uns 10 minutos. Me sinto ansioso toda vez que tenho que fazer algo."

    Fotos: Lalage Snow

  • Foto: Lalage Snow

    Cabo Martyn Rankin (Mazzer), 23

    Antes - “Não estou com medo, apenas um pouco apreensivo. Vou sentir falta dos amigos e de tempo livre.”

    Durante - “Temos menos pessoal que o necessário, mas damos um jeito. Ouvimos pelo rádio o Talebã dizendo que iria acabar conosco, seu comandante dizendo que seria fácil demais. Penso o tempo todo na ameaça do inimigo e em cenários diferentes. O que faria se... Não tenho medo o tempo todo, os moradores locais são OK. Quero ser testado. É para isso que você se alista, não para apertar as mãos dos locais."

    Fotos: Lalage Snow

  • Foto: Lalage Snow

    Segundo tenente Adam Petzsch, 25 anos

    Antes - “Acho que estou um pouco apreensivo, mas quero ver como a coisa realmente é. Foi por isso que entrei nas Forças Armadas, mas não sei o que esperar.”

    No Afeganistão, após uma explosão - “Foi minha primeira explosão envolvendo bombas com feridos. Na hora, sua prioridade é pegar a pessoa e levá-la até um local seguro. Mas depois você começa a pensar no que aconteceu, se dava para ter evitado, se a culpa foi sua e no que os outros fizeram. Antes desta operação, eu notava como estava tudo quieto e pensava que deveríamos ser cuidadosos e não abaixar a guarda.”

    Depois - “Estávamos em uma nova instalação e se nos aventurássemos a mais de 200 ou 300 metros, seríamos alvejados. No começo, podíamos patrulhar por quilômetros e ninguém nos encostava a mão. Mas sim, acho que, em alguns aspectos, nossa presença (no Afeganistão) faz diferença.”

    Fotos: Lalage Snow

Soldados no Afeganistão

A fotógrafa britânica Lalage Snow fotografou e entrevistou integrantes do Primeiro Batalhão do Regimento Real da Escócia em três momentos distintos: antes de eles serem mandados para o Afeganistão; após três meses no país; e poucos dias depois de terem voltado para casa.

As imagens e palavras revelam a expectativa, o medo, e, em muitos casos, as experiências traumáticas vividas pelos militares.

"Eu fiquei chocada com a diferença na aparência deles: olhos vermelhos, barbas, muito magros, mais bronzeados e cobertos de areia", disse Snow à BBC.

Além das mudanças físicas, a fotógrafa também testemunhou mudanças na personalidade de alguns soldados, principalmente os mais jovens.

"Eles amadureceram muito", disse a fotógrafa.

"Enquanto no treinamento eles podiam brincar um pouco mais, lá (no Afeganistão) eles pareciam ter acordado para a realidade. Eles pensavam: 'Isso é real, esse é o meu trabalho. Vamos em frente'."

O principal objetivo das fotos é chamar atenção para a questão do transtorno de estresse pós-traumático.

Nenhuma das pessoas fotografadas está sofrendo com o problema, mas Lalage Snow afirma que o estresse pós-traumático pode surgir anos após o combate em militares que assistiram à morte de colegas ou viveram outras situações violentas.

"Rapazes nos Bálcãs estão sofrendo de estresse pós-traumático agora, devido a conflitos de 10 ou 15 anos atrás."

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