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Brasileiros deixam Grã-Bretanha, mas comunidade se renova com novos imigrantes

Atualizado em  6 de março, 2012 - 13:03 (Brasília) 16:03 GMT
Foto: BBC

Susej diz que é preciso planejar antes de voltar

Por muitos anos, milhares de brasileiros chegaram à Europa em busca de uma vida melhor. Com as moedas europeias valendo muitos reais, fazer o pé-de-meia era um sonho ao alcance do pensamento e das mãos que trabalhavam duro, por vezes em múltiplos turnos.

Agora, quando o Brasil supera uma das maiores economias da Europa, a britânica, pode parecer a tantos brasileiros que voltar ao país natal é a melhor opção, digna das manchetes de jornais que alardeiam a emergência do gigante da América do Sul como potência mundial. Mas a realidade é mais complexa.

O crescimento econômico no Brasil ainda não foi capaz de estimular uma debandada dos imigrantes brasileiros que vivem na Grã-Bretanha, dizem especialistas do setor migratório. Muitos voltam, é verdade, mas os que chegam ainda somam números relevantes, sendo que é até possível apostar em crescimento da comunidade verde e amarela no país, já a maior na Europa.

A principal razão para este aumento é a própria crise europeia. Brasileiros que viviam legalmente em países como Portugal, Espanha, Itália e Irlanda, onde os níveis de desemprego atingiram recordes históricos recentemente, se deslocam dentro do continente em busca de melhores condições.

"Nosso trabalhadores estão basicamente nos setores de construção, limpeza, alimentação e transporte. E há vagas. O brasileiro chega aqui em um dia e no outro, se quiser, está trabalhando", afirma Carlos Mellinger, presidente da Casa do Brasil em Londres, entidade que ajuda imigrantes na capital. Segundo ele, o número de brasileiros no país só aumenta.

Mellinger afirma que, apesar do crescimento econômico brasileiro, as condições de trabalho para estes segmentos na Grã Bretanha são melhores. "Não dá para comparar. Quando, no Brasil, uma faxineira teria casa, transporte, alimentação e ainda dinheiro para compras pessoais e para juntar? Ou como comparar o salário e os riscos de um courrier (motoboy) aqui com o de um em São Paulo?", questiona, listando razões para que o fluxo de chegada continue.

A pesquisadora Cathy McIlwane, da Queen Mary University, concorda com Mellinger. Ela publicou no ano passado o estudo "No Longer Invisible: The Latin American Community in London", sobre comunidades latino-americanas na capital britânica. Segundo a pesquisa, a maior parte dos brasileiros entrevistados quer voltar para o país de origem (58%), mas as razões que os trouxeram à Grã Bretanha adiam a decisão. "Boa parte veio por razões econômicas (31%) ou porque tinha família aqui (33,5%), o que os fixa e os faz pensar duas vezes", ela diz.

Foto: Arquivo do entrevistado

Décio deixou Portugal para tentar a Grã Bretanha, mas pensa em voltar para a família em Salvador

Cathy lembra que nem mesmo a crise na Europa - que também atinge em menores proporções a Grã Bretanha, com os mais altos índices de desemprego e mais de uma década - é capaz de acelerar a saída de imigrantes. "Londres tende a ser quase imune à recessão, porque o setor financeiro é muito forte. Sem falar que os britânicos não fazem trabalhos que os brasileiros fazem", complementa, também referindo-se às ocupações clássicas de brasileiros no país, como faxina e construção.

Para Cathy, os imigrantes de classe média ou alta são mais propensos a voltar. Muitos vêm para fazer cursos de língua e acabam ficando, enquanto puderem esticar a estada, ainda que ilegalmente. Os mais pobres, porém, vêm com um objetivo de ganhar dinheiro. "Se formarem famílias e tiverem filhos, adiciona-se a este propósito o de dar boa educação às crianças. Então eles ficam por mais tempo ainda. O efeito acaba sendo cumulativo e a comunidade cresce", explica.

Qualificação é essencial

De acordo com o cônsul-geral interino do Brasil em Londres, ministro Eduardo Roxo, de junho do ano passado em diante, a demanda por serviços do consulado cresceu muito, a ponto de as autoridades locais reclamarem das filas em frente ao prédio ocupado pela autoridade diplomática.

"Pensei que o movimento passaria depois das férias escolares, mas não passou", conta Roxo. "Talvez haja mais gente vindo, sim", ele confirma. "Até porque, para quem não é qualificado, o Brasil não oferece tantas chances assim. Não sei se o crescimento brasileiro é possante o suficiente para atrair estes imigrantes de volta", avalia o diplomata.

A migração de brasileiros dentro do continente pode significar uma última chance ao sonho de fazer o pé-de-meia e voltar ao Brasil. "Vivi oito anos em Portugal. Quando a situação ficou muito ruim, pensei em voltar, mas considerei a hipótese de estudar inglês na Inglaterra", diz Décio Fonseca, baiano que tem passaporte português e que vive há 3 anos em Londres. "O problema é que, como tenho apenas segundo grau completo, continuo pulando de um sub-emprego para outro", diz ele, que depois de trabalhar em um restaurante, hoje faz serviços de limpeza.

Para Décio, só mesmo a chance de fazer um curso de fotografia e se tornar um profissional da área em Londres o demoveria da decisão de voltar ao Brasil até meados de 2014. "Meus pais já têm mais de 70 anos de idade. E já fiquei mais de uma década longe deles", justifica.

Já o segurança Susej Pontes, natural de Parintins, no Amazonas, descarta deixar Londres, onde chegou estimulado por um irmão que vivia na cidade. O irmão se foi e ele ficou. Depois de sete anos, se legalizou ao descobrir a ascendência italiana.

"O Brasil hoje está bom para quem é qualificado, que não é meu caso. Quero voltar, mas não agora", conta ele, que em uma de suas viagens ao Brasil comprou um terreno de 1.500 metros quadrados para construir uma hospedaria de 24 quartos. "Disseram que eu era maluco, mas agora vivo recebendo ofertas pelo terreno. Mas não vendo. Se eu voltar, voltarei com tudo planejado".

"Tive que terminar meus estudos e, quando for de novo, em abril, vou entrar em um curso do Senac"

Agusto Guadagnin, comerciante

Planejar o retorno evita decepções. O comerciante Augusto Guadagnin veio para Londres porque tinha família na cidade. Depois de quatro anos, voltou ao Brasil para tentar alguma oportunidade no país que crescia aos olhos do mundo. "Mas não tenho qualificação. Tive que terminar meus estudos e, quando for de novo, em abril, vou entrar em um curso do Senac", diz ele, que retornou a Londres após seis meses no país natal.

Mais experientes em migração, o casal Sirene e Joaquim Barroca, ela brasileira e ele português, decidiu ir para o Brasil para tocar o próprio negócio, em Imperatriz, no Maranhão. Eles viveram seis anos em Portugal, buscaram fugir da crise em Londres, mas lamentam a queda na qualidade de vida. "Em Portugal, vivíamos em uma casa de três quartos. Aqui, alugamos um quarto. Amo Londres, mas Sirene sente muita saudade do Brasil. E, por mim, vou para lá feliz", diz ele. Ambos trabalham no setor de limpeza.

Sinais contrários

Apesar dos relatos de permanência, na comunidade brasileira são muitas as histórias de retorno. Na região de Kensal Rise, em Londres, área conhecida como Little Brazil, não há estabelecimento comercial em que não se fale nos brasileiros que voltaram recentemente, possivelmente atraídos pelo boom econômico. Os advogados que trabalham com imigração confirmam estes relatos, que contradizem autoridades e estudiosos.

A advogada Vitória Nabas diz que caiu vertiginosamente o número de casos de brasileiros tentando regularizar a situação no país, onde ela vive e trabalha há mais de 10 anos. "O que aumentou foi o número de europeus indo para o Brasil, mais de 500% no caso do meu escritório", diz, antes de alertar: "Quem tem qualificação pode voltar para o Brasil com mais segurança, mas quem não tem, vai enfrentar concorrência muito forte".

Outro advogado brasileiro atuando em Londres, Marcelo Reale diz que seu escritório já não pode depender de serviços prestados somente a brasileiros. "Precisamos diversificar para não termos problemas no futuro", afirma.

A estratégia é a mesma no Highlights Hair Studio, cabelereiro para brasileiros em Harrow Road, uma das principais ruas de Kensal Rise. "A clientela brasileira sumiu. Vamos ter que contratar um profissional de outra nacionalidade para atrair mais gente além dos brasileiros", afirma Paula Silva, que administra o local com a mãe. "De cada 10 clientes, seis voltaram para o Brasil", afirma.

Resta saber se os que foram, vão ficar de vez. "Londres tem um efeito mítico sobre as pessoas, é um sonho de status social", lembra a pesquisadora Cathy McIlwane, da Queen Mary University. Se este efeito vai estar na bagagem de quem partiu, a ponto de provocar um retonro mais adiante, só o tempo dirá.

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