Lucas Mendes: Desinfetante latino

Atualizado em  1 de março, 2012 - 06:24 (Brasília) 09:24 GMT

A capa da Time garante – Yo Decido. A próxima eleição está nas mãos dos latinos. Os números e fatos da revista e de outras fontes afirmam que os latinos vão decidir quem será o próximo presidente dos Estados Unidos. Desde Ronald Reagan, os republicanos nunca ganharam uma eleição para presidente sem conseguir pelo menos um terço do voto latino. Em 2004 George W. Bush bateu um recorde: 44% de los hermanos votaram nele.

Jorge Ramos, âncora da rede Univision e autor de 11 livros, diz que Romney, Santorum e Gingrich não chegam nem perto de um terço dos votos. Os republicanos perderam a oportunidade de conquistar os latinos decepcionados com Obama porque ele não cumpriu sua promessa de aprovar uma nova lei de imigração no primeiro ano de mandato e, durante seus três primeiros anos de governo, deportou um milhão e duzentos mil imigrantes, mais do que qualquer presidente na historia.

Em vez de abraçar os latinos assombrados e ressentidos os republicanos passaram sal na ferida e aprovaram leis radicais anti-imigrantes no Arizona, Alabama e outros Estados. Nos debates das prévias, os candidatos disputam a medalha do campeão da repressão aos imigrantes, na maioria latinos que nas questões sociais se identificam mais com os republicanos do que com os democratas.

Em alguns Estados e municípios as mudanças foram radicais. No cada vez mais bizarro Arizona, epicentro do terremoto anti-imigrante que se apossou da direita republicana, a história da líder comunitária religiosa Eve Nunez dá uma medida da reação latina. Nas campanhas presidenciais anteriores ela trabalhou para os republicanos e conta que em 2008 reuniu cem pastores da comunidade latina e perguntou em quem votariam. Noventa deles anunciaram que iam votar no candidato republicano, John McCain. Este ano ela fez a mesma pergunta e o resultado foi exatamente o inverso, 90 a 10 para Obama. Apesar da quebra da promessa e das deportações de Obama, os demônios democratas queimam menos do que os republicanos. Nesta campanha a pastora Eve vai trabalhar para Obama.

Arizona aprovou leis tão radicais que muitas foram derrubadas pelos tribunais e o ministério da Justiça mandou agentes para conter os excessos do xerife Joe Arpaio, que abordava latinos por qualquer tipo de infração menor e exigia documentos. Com lenço para o choro, mas sem documento, cadeia e deportação.

Há duas semanas, outro xerife, Paul Babeu, anti-imigrante e vice-diretor da campanha do candidato Mitt Romney admitiu que é gay e que teve um romance com um imigrante mexicano. Confessou diante das câmeras numa entrevista coletiva depois que jornal Phoenix New Times publicou uma foto dele em posição comprometedora com "Jose", nome fictício, que, apesar de ser imigrante legalizado, procurou o jornal dizendo que tinha sido ameaçado de deportação pelo ex-namorado. Paul Babeu se demitiu na campanha de Romney, mas, cercado pelos colegas, continua no posto e mantém sua candidatura a deputado.

O eleitorado da região talvez perdoe o homossexualismo e eleja o xerife, mas nem todo Estado é tão anti-imigrante como o município de Maricopa, dos xerifes Arpaio e Babeu, onde fica a capital do Estado, Phoenix, dominado por maioria branca.

Os moradores dos municípios logo ao sul, Pima e Santa Cruz, ambos na fronteira com o México, têm tanto ódio e vergonha dos vizinhos de cima que antes mesmo das novas leis anti-imigrantes estavam mobilizados numa difícil campanha separatista do Estado do Arizona para criar um novo Estado, o Baja Arizona.

Difícil mas não impossível: o Maine se separou de Massachussets em 1820, Virginia Ocidental se separou da Virginia para não aderir aos confederados na guerra de Secessão.

Para separar e se transformar num novo Estado, Baja Arizona precisaria de aprovações do legislativo estadual e do Congresso em Washington. Muita briga pela frente. Mas tudo é possível. Daniel Valenzuela é um modelo da resistência e do contra-ataque latino. Bombeiro em Phoenix, Valenzuela convenceu cinco estudantes hispânicos a se mobilizarem numa campanha para elegê-lo vereador e registrar eleitores latinos. Em poucas semanas os estudantes recrutaram outros cem voluntários e batendo nas portas de 22 mil pessoas, elegeram Valenzuela para a câmara municipal numa proporção de três por dois. Phoenix, reduto anti-imigrante, pela primeira vez, tem dois hispânicos na câmara municipal. Desde a última eleição o voto latino cresceu 480%.

Nem sempre a historia se repete, mas no caso dos latinos a discriminação e perseguição republicana deram nova força a los hermanos. Talvez não seja preciso criar um novo Estado para purificar o Arizona. O desinfetante latino pode mudar a história.

PS: Agradeço ao correspondente Michael Scherer, da revista Time, pelas histórias sobre a pastora Eve Nunes e Daniel Valenzuela.

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