Ivan Lessa: Todo mundo nu!

Atualizado em  22 de fevereiro, 2012 - 05:59 (Brasília) 07:59 GMT

Não me visto bem nem me visto mal. Acho que boto em cima do corpo o suficiente para não ser preso ou me darem esmola na rua.

Garotão de praia, no Rio, quando a cidade tinha apenas – o quê? – uns 10 mil habitantes, passava os dias de calção. Ou uma boa parte do dia.

Meio ridículo era ir ao cinema na cidade. Para entrar no Vitória ou Palácio, até em qualquer poeira, tinha que botar terninho e gravatinha. Com toda certeza comprados na loja Príncipe, que “vestia hoje o homem de amanhã”.

As moças, contanto que não ferissem os olhos da gente, tudo bem, sem problemas. Nunca reparei no que usavam, concentrava-me em imaginá-las desusando tudo.

Em matéria de moda – ou fashion, como se diz em português – é tudo que sei e tudo que preciso saber. Só que tanto moda quanto fashion não me deixam em paz.

Em cada cidade do mundo há uma semana a ela dedicada. E é uma lenha.

Acompanho vendo as fotos nos jornais e os filmezinhos na televisão. Nunca vi nenhuma modelo, por mais top que fosse, ir às compras conforme desfilam na passarela, com aquela expressão emburrada de quem vai chamar o guarda a qualquer momento.

Os desfiles e aqueles que os tramam, ao que me parece, devem ter tido uma grande desilusão cedo na vida, ou com a mamã ou com uma senhorita que passou pelas suas vidas já derivando para o estilismo.

No fundo e na superfície, nota-se uma certa raiva do sexo oposto, ou mesmo idêntico. Que talvez fosse melhor, em vez de ficar botando essas tonterias em cima de corpos magros e esgalgos, ler um livro ou investir na bolsa.

A última fashion aqui em Londres, que já deve ter passado, uma vez que essas coisas são para durar menos que a vida de uma flor, a última moda, reitero em língua que já foi materna, é não botar nada em cima do corpo.

Tá lá no jornal aberto aqui em frente de mim. As modelos de Robyn Coles, na Semana da Moda em Londres, como é chamada aqui, passarelaram nuas em pelo, se pelo havia (meu jornal não mostra nem conta), à exceção de chapéus, apenas chapéus. E de feltro. Ultra cool, feito dizem em São João do Meriti.

Glamazonas (de glamour e amazonas) foram postas de lado. Tudo mulher tamanho família só que peladas e de chapéu, moda, fashion ou cacoete, que, sabemos, não irá estourar nas bocas.

Robyn Coles foi o mais longe que podia: botou sua companheira Sophia Cahill, grávida de 8 meses (nessa história eu não embarco), desfilando com um chapelaço que eu vou te contar. Sophia, registre-se já foi miss País de Gales, o que me parece muito natural, muito espontâneo.

Reação da plateia presente? Acharam isso que acabei de dizer aí em cima: muito natural e espontâneo também.

Robyn Coles, procurada pela reportagem do jornal, foi franca, muito natural e espontânea. Disse ela que, quando se começa a ascensão à condição de grife do primeiro time, há que se chamar a atenção de qualquer maneira. Vale, pois, o coringa, feito se dizia, confere?

E ainda acrescentou: "Um chapéu não faz as pessoas parecerem mais gordas."

No que pego meu chapéu e me mando.

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