Lançamentos em SP põem em xeque função dos shoppings na cidade

Atualizado em  28 de fevereiro, 2012 - 14:39 (Brasília) 17:39 GMT
Avenida Paulista. WikimediaCommons

Especialistas defendem projetos que facilitem a circulação das pessoas e não seu isolamento

A abertura de grandes lojas deu nova cara à Avenida Paulista nos últimos anos. Agora, o lançamento de um novo shopping na via mais conhecida de São Paulo e outras inaugurações na vizinhança reforçam a vocação comercial da região, mas também dividem os especialistas sobre a viabilidade e a sustentabilidade de tais empreendimentos na cidade.

Até 2014, a região da Paulista e do bairro dos Jardins, que já concentra um grande número de lojas, ganhará dois novos shoppings. O mais vistoso deles será o Cidade de São Paulo, que está sendo levantando no terreno da antiga residência dos Matarazzo, na esquina da Avenida Paulista com a Rua Pamplona.

Com o aquecimento da economia, os lançamentos também aumentaram no interior do país. Só neste ano serão inaugurados 42 shoppings no Brasil, segundo a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers). O montante representa quase 10% de todos os 430 centros comerciais atualmente em operação no país.

Para Marcelo Sallum, sócio-diretor da empresa de gestão de shoppings Lumine, que assessora o Cidade de São Paulo, uma mudança do perfil da Paulista e uma grande demanda por serviços como restaurantes, por exemplo, justifica a inauguração do empreendimento, que além de lojas também abrigará escritórios.

"A mudança de perfil da Paulista nos últimos anos, com varejo de alto padrão, corrobora ainda mais o potencial da avenida para um novo shopping como o Cidade de São Paulo", afirma.

O impacto no trânsito em uma região já congestionada e a construção de shoppings ao estilo ‘caixote’, isolado do entorno urbano, preocupam especialistas, no entanto.

O arquiteto Valter Caldana, professor da Universidade Mackenzie, pondera que há projetos com impacto positivo, mas faz alertas.

"A ideia de um shopping fechado, que nega a cidade, e não promove a circulação e a conexão das pessoas com as ruas do entorno é uma ideia ultrapassada, que ficou no século 20", diz Caldana.

O professor defende que a “vitalidade da cidade está nas ruas” e que é saudável incentivar o comércio de rua, que pode eventualmente se esvaziar com a migração de lojas para os shoppings.

Para incentivar este comércio, Caldana diz que é preciso “aterrar fios, ter calçadas arrumadas, com mais iluminação e segurança”.

"Não dá para apostar em uma cidade que se entrincheira e depende do automóvel. Os novos shoppings têm de ser mais abertos", diz o professor, citando o Conjunto Nacional, na mesma avenida, como um bom exemplo de uso misto do espaço (com lojas, escritórios e apartamentos) e integração com a cidade.

Impacto

A uma quadra do futuro Cidade de São Paulo, outro antigo endereço da família Matarazzo pode abrigar um novo shopping. Trata-se do hospital desativado Humberto Primo, cujo projeto ainda aguarda análise da Prefeitura.

Metrô de SP investe em shoppings

Até o fim de 2012, a estação Tucuruvi do Metrô paulistano ganhará um shopping. O mesmo ocorrerá na estação Vila Madalena, cujo projeto aguarda aprovação.

Atualmente com três centros comerciais conectados às suas estações, o Metrô pretende inaugurar outros shoppings nos próximos anos. Já há outros dois estudos em curso.

O gerente de negócios do Metrô, Aluisio Gibson, explica que se tratam de "investimentos associados", já que os terrenos e os prédios pertencem ao Metrô, enquanto a empresa que vence a licitação investe no empreendimento e administra as operações por um tempo estipulado no contrato. Uma parte do faturamento é repassado ao Metrô.

Camila Amadeu, gerente de projetos da Método Engenharia, empresa vencedora da concorrência para a implantação do shopping Metrô Vila Madalena, explica que o centro comercial será construído acima de onde hoje é o terminal rodoviário.

De acordo com Gibson, estudos indicam que 60% dos usuários vêm do metrô, portanto não haverá impacto pesado no trânsito da região da Avenida Heitor Penteado.

Nos Jardins, o prédio de um emblemático restaurante paulistano dará lugar a uma filial do luxuoso Shopping Cidade Jardim. A expansão também ocorre nas estações do metrô, como a da Vila Madalena.

Para a arquiteta Heliana Vargas, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU), um shopping tem o potencial para mudar o entorno de uma região, positiva ou negativamente.

Segundo ela, empreendimentos em áreas de baixa ocupação podem impulsionar o desenvolvimento de um região, como ocorreu com o Shopping Center Norte na época de sua inauguração.

"Mas um dos principais problemas é o impacto viário, pois os programas de melhoria no sistema viário atrelados à construção de shoppings nunca são suficientes", diz Heliana, explicando que eles costumam levar em conta só o empreendimento em si, esquecendo que o entorno também muda e pode gerar mais trânsito.

Poder público

A professora da FAU-USP também afirma existir uma deficiência dos órgãos públicos na fiscalização dos impactos trazidos por grandes empreendimentos.

"Enquanto as construtoras desses shoppings investem muito em estudos mercadológicos e de impacto, o poder público não tem competência técnica para analisar se esses empreendimentos são realmente viáveis".

Valter Caldana afirma que a legislação da cidade é hoje adequada. Mas além do poder público, ele também cobra mais responsabilidade do setor privado.

Projeto do Shopping Metrô Vila Madalena. Cortesia

Só neste ano serão inaugurados 42 shoppings no Brasil; há 430 em operação no país

"É fundamental que os shoppings e grandes lojas se responsabilizem pelo impacto nas ruas do entorno. Hoje temos calçada com buraco na frente de lojas que vendem produtos de R$ 1 milhão", critica.

Contrapartidas

Na capital de São Paulo, o processo para autorização para novos shoppings depende de análise de vários órgãos da Prefeitura, como a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e a Secretaria do Verde e Meio Ambiente.

Para a construção do Cidade de São Paulo, a Prefeitura exigiu como contrapartida o rebaixamento das calçadas junto à faixa de pedestres em dois cruzamentos e adequação da sinalização de trânsito em um raio de 30 metros.

O novo empreendimento também terá de manter 41 das 159 árvores do terreno – outras 19 deverão ser transplantadas e mais 727 devem ser plantadas (sendo que 621 delas no vizinho parque Trianon).

*Colaborou Jéssica Fiorelli, da BBC Brasil em São Paulo


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