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Denúncias contra Teixeira 'atrapalham andamento da Copa', diz Romário

Atualizado em  16 de fevereiro, 2012 - 16:23 (Brasília) 18:23 GMT
Romário na Câmara dos Deputados, em foto de arquivo de 2011 (Ag. Brasil)

Ex-jogador iniciou seu segundo mandato como deputado federal

O ex-jogador e deputado federal Romário (PSB-RJ) afirma que as denúncias de corrupção que pesam sobre o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, atrapalham o andamento da organização da Copa de 2014 e opina que Teixeira deveria se afastar do Comitê Organizador Local (COL) do Mundial.

Em entrevista concedida à BBC Brasil no final de janeiro, Romário afirmou que a entrada de Ronaldo Fenômeno no COL, em dezembro do ano passado, trouxe "credibilidade desejada" à entidade, e os outros dois executivos a compor o conselho de administração deveriam ter o mesmo perfil.

Nesta quinta-feira, o ex-atacante e deputado estadual do Rio de Janeiro Bebeto, companheiro de Romário na Copa de 1994, aceitou um convite para ser, junto com Ronaldo e Teixeira, executivo do COL.

"O próprio Ricardo Teixeira, na verdade, não tem nem que ser o terceiro executivo. Ele teria que se distanciar, se afastar definitivamente do COL", afirmou Romário à BBC Brasil.

Aos 46 anos, Romário iniciou em fevereiro o segundo ano de seu mandato como deputado. O ex-jogador afirma que vai continuar a discutir com a Fifa (Federação Internacional de Futebol) os interesses nacionais na definição da Lei Geral da Copa e critica o governo federal por não se empenhar mais para acelerar sua aprovação.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - A aprovação da Lei Geral da Copa de 2014 está se arrastando. O que esse atraso acarreta para a organização do Mundial e quando você acha que a aprovação deve sair?

Romário - Atrapalha em tudo. Até agora, nada foi definido. Algumas pessoas ainda não sabem que tipo de ingresso vão poder comprar e quantos vão estar à venda. Tudo isso está relacionado à Lei Geral da Copa. Existem 64 artigos, e sou bastante contra oito deles, a ponto de sugerir a supressão de dois.

Como eu, todos os deputados da minha comissão (a comissão especial que analisa o projeto da Lei Geral da Copa) têm alguma coisa para contribuir, para melhorar, e esse atraso faz com que essas coisas não aconteçam. Mas o que eu posso afirmar é que vai ser complicado, vamos levar ainda alguns meses resolvendo, e com isso perde o Brasil.

BBC Brasil - Quando o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, esteve aqui em janeiro, ele disse achar que na África do Sul o comprometimento do governo tinha sido maior com a realização do Mundial. Você acha que o comprometimento das diversas instâncias de governo tem sido suficiente?

Romário - Não, o Brasil poderia estar mais comprometido com essa história do Mundial. É um evento único, vai ser o segundo no nosso país, o primeiro (nos anos recentes). É uma oportunidade de mostrar o que o Brasil representa hoje, o quanto cresceu. Mas não existe acordo para que a Lei da Copa aconteça mais rápido, falta um pouco de comprometimento.

"O Brasil poderia estar mais comprometido com essa história do mundial. É um evento único, vai ser o segundo no nosso país, o primeiro (nos anos recentes). É uma oportunidade de mostrar o que o Brasil representa hoje, o quanto cresceu. Mas não existe acordo para que a Lei da Copa aconteça mais rápido, falta um pouco de comprometimento."

Por outro lado, a gente ficou sabendo que na África do Sul o país cedeu a praticamente 90% do que tinha sido combinado. Aqui no Brasil as coisas também foram combinadas, o Brasil assinou um documento lá atrás, todo mundo sabe disso. Só que de lá para cá coisas mudaram. A gente não pode fazer com que o idoso não vá ver a Copa do Mundo, ou que tenha que pagar US$ 350 - é muito caro. Se houvesse um comprometimento maior das três linhas (as três esferas de governo) a gente já estaria bem mais avançado, com certeza.

BBC Brasil - E como você avalia o envolvimento da população? As denúncias de corrupção que pesam contra Ricardo Teixeira (presidente da CBF e do COL) afetam as expectativas em relação à Copa?

Romário - Essas denúncias atrapalham muito o andamento da Copa do Mundo. O COL agora colocou o Ronaldo (Fenômeno) como um dos executivos. Vai ter o Ronaldo, o Ricardo Teixeira e mais um. Espero que este terceiro seja alguém como o Ronaldo, que dê credibilidade à entidade. (A entrevista foi feita antes da confirmação de Bebeto no cargo)

A CBF, com esses problemas todos (denúncias) por que o Ricardo Teixeira tem passado, está realmente muito malvista pelo brasileiro.

Se depender do povo brasileiro, a Copa do Mundo vai ser a melhor Copa de todos os tempos. Mas para isso, os que têm condição, os que têm autonomia para fazer com que as coisas mudem, como o Ricardo Teixeira e outros, têm que começar a andar. Porque senão a Copa do Mundo, em vez de ser uma coisa que vai botar o Brasil lá na frente, pode mostrar um Brasil um pouco mais atrasado, o que não é verdade.

BBC Brasil - Mas que mudanças você acredita que precisam ser feitas no COL?

Romário - O Comitê Organizador Local já foi mudado. A entrada do Ronaldo já começa a dar outra cara. O brasileiro já vê que é uma coisa mais séria, porque o Ronaldo, graças a Deus, não tem passado nenhum enterrado, não está metido em nenhum tipo de problema como aqueles em que está metido o Ricardo Teixeira. E isso dá credibilidade.

Eu acredito que o próximo que vier para fechar esse comitê executivo pode vir com esse mesmo perfil. E o próprio Ricardo Teixeira teria que se distanciar, se afastar definitivamente do COL e escolher três (executivos).

BBC Brasil - As relações da Fifa com o Ricardo Teixeira estão boas?

"Se depender do povo brasileiro, a Copa do Mundo vai ser a melhor Copa de todos os tempos. Mas para isso, os que têm condição, os que têm autonomia para fazer com que as coisas mudem, como o Ricardo Teixeira e outros, têm que começar a andar. Porque senão a Copa do Mundo, em vez de ser uma coisa que vai botar o Brasil lá na frente, pode mostrar um Brasil um pouco mais atrasado, o que não é verdade."

Romário - (A relação) da Fifa com a CBF não é boa. Do Ricardo Teixeira com o Joseph Blatter (presidente da Fifa) e Jérôme Valcke também não é boa. Isso pode acarretar um problema. Não para o Brasil em relação à Copa do Mundo, mas para o futebol em geral. Acho que é um complicador o país do futebol, que é o Brasil, não ter uma relação boa com a maior entidade do futebol mundial.

BBC Brasil - Em janeiro, você teve uma reunião com Joseph Blatter, presidente da Fifa, em Zurique. No ano passado, você era sempre a pessoa que estava batendo, fazendo críticas à Fifa...

Romário - E vou continuar batendo. Se a Fifa continuar achando que está acima da soberania (nacional), vou continuar batendo. Eu ainda não tinha estado com a Fifa. Depois que estive, senti que a Fifa entende que as coisas não devem ser exatamente como estão (colocadas) no papel, que foram coisas assinadas lá atrás.

Por isso hoje eu digo que a Fifa tem boa vontade de resolver.

BBC Brasil - No futuro, como você vai julgar se a Copa do Mundo e a Olimpíada foram um sucesso?

Romário - Sucesso significa legados positivos deixados para a população. Em relação às Olimpíadas, tenho visto que as pessoas estão fazendo coisas para deixar legados para a população do Rio de Janeiro.

Em se tratando da Copa do Mundo, eu não vejo com sucesso exatamente por este motivo. O legado, que é social, que é educacional, que é de acessibilidade para pessoas com deficiência, que é a saúde, isso as pessoas não comentam, não se fala nesses legados importantes para o país.

Tenho certeza que esses legados foram deixados por quase todos os países que fizeram a Copa do Mundo. E hoje o Brasil não pensa muito nisso, mas a gente ainda tem tempo para mudar isso.

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