Em crise, Portugal cancela ponto facultativo de carnaval

Atualizado em  15 de fevereiro, 2012 - 09:24 (Brasília) 11:24 GMT
Torres Vedras CM

O carnaval de Torres Vedras é o maior de Portugal

Funcionários públicos de Portugal não vão ter ponto facultativo na terça-feira de Carnaval.

O objetivo, segundo o primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, é aumentar a competitividade e produtividade do país.

"É hora de os portugueses perceberem que não estamos em tempo de falar de tradições, mas de saber quem quer trabalhar para vencer a crise", disse Coelho.

"Eu já fiz contas para saber quanto o país ganha se tiver mais dois dias de trabalho, se trabalhar realmente", disse, sem revelar, no entanto, quanto calcula que o país deve ganhar com a medida.

A decisão do governo provocou uma revolta entre os prefeitos. Cerca de 70 prefeituras, incluindo a capital, Lisboa, e alguns bastiões políticos do partido do governo, como Porto, Cascais e Sintra, resolveram ignorar a medida e dar ponto facultativo a seus funcionários.

Mesmo assim, a maior parte dos funcionários públicos fica sem ter o feriado de carnaval: são 680 mil na administração central, sem direito à folia, e menos de 100 mil que terão essa possibilidade.

Críticas

Uma das principais queixas é a surpresa do anúncio. O primeiro-ministro afirmou no dia 3 de fevereiro que a não decretação do ponto facultativo não foi decisão repentina, mas que ele já tinha anunciado isto há cerca de 20 dias.

No entanto, a imprensa portuguesa não noticiou a medida em janeiro.

Desde que o país vive em democracia, há 37 anos, apenas uma vez o governo não deu tolerância de ponto no carnaval: foi em 1995, quando o primeiro-ministro era o atual presidente, Aníbal Cavaco Silva. A imagem criada foi tão negativa que os analistas políticos consideram que foi o que precipitou o fim de dez anos de seu partido no poder.

O acordo de resgate financeiro firmado por Portugal com o FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia prevê um aumento da produtividade do trabalhador português. O cancelamento do ponto facultativo de carnaval deve ajudar o país a cumprir o acordo.

O governo pretende ainda cancelar, dependendo ainda de aprovação do Parlamento, os feriados de Corpus Cristi, em 15 de agosto, o dia da Assunção de Nossa Senhora, em 8 de dezembro, o dia da independência, 1º de dezembro, e o da proclamação da República, 5 de outubro.

Torres Vedras

No maior carnaval português, o de Torres Vedras, 40 quilômetros ao norte de Lisboa, a previsão é de prejuízo.

"São cerca de 400 mil visitantes na cidade. Se pensarmos que cada pessoa gasta 10 euros numa refeição ou num lanche, o que é baixo, isso significa que serão menos 4 milhões de euros na economia da cidade", contabiliza Carlos Miguel, prefeito de Torres Vedras à BBC Brasil.

Na cidade de 79 mil habitantes o carnaval começa na sexta-feira, com um desfile dos alunos das escolas locais. No sábado, saem os cortejos, mas o grande desfile é na terça-feira. O último dia da festa é na quarta-feira, quando fazem o enterro do bacalhau, um cortejo de despedida. "Temos o carnaval mais tradicional do país. Ele existe de forma organizada há 90 anos", relata o prefeito.

Para Carlos Miguel, o carnaval de sua cidade é único em Portugal. "Os outros carnavais em Portugal se abrasileiraram. Nós mantemos a tradição. É um carnaval que é feito de sátira e críticas à situação, com carros alegóricos que ironizam o presidente da República, o primeiro-ministro e até a mim. Temos um rei e uma rainha do carnaval, que são eleitos, mas a rainha é um homem. Isso vem do tempo em que as mulheres que brincavam o carnaval eram mal vistas".

Segundo o prefeito, o número de foliões que costumam desfilar nos quatro dias chega a perto de 70 mil. "Qualquer pessoa pode entrar no cortejo", conta o prefeito, que justifica o número de participantes com as pessoas de fora que vem para o carnaval.

O carnaval de Sesimbra, cerca de 35 quilômetros a sul de Lisboa com 45 mil habitantes, é considerado um dos mais parecidos com o brasileiro.

"Temos sete escolas de samba e dois blocos. O número de foliões fica perto dos 15 mil e temos mais de 40 mil pessoas assistindo", conta Felícia Costa, vereadora de Sesimbra responsável pela organização do carnaval.

Segundo Felícia, só a prefeitura já gastou 70 mil euros na organização da festa. Mas ela considera que nem dá para contabilizar os prejuízos.

"Já há menos reservas de hotéis e não sabemos o que vai diminuir no consumo dos restaurantes. O carnaval é tradicionalmente o momento alto do nosso município", diz ela.

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