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Ivan Lessa: Ouvir livros, folhear discos

Atualizado em  13 de fevereiro, 2012 - 05:58 (Brasília) 07:58 GMT

Brrrr. E o frio continua mais forte ainda. Uma onomatopéia de HQ seguida de uma variação em torno de um samba-canção (mas pode me chamar de fox-trot) que fez a vida do esplêndido Tito Madi. Embora elogio em boca própria seja vitupério, apraz-me pensar que trabalhei bem.

Eu tinha, para hoje, um problema a resolver no texto: que bonde pegar? Esse da greve encerrada dos PM baianos, que, segundo as folhas, contribuiu para 109 mortos em 10 dias, em geral com o laudo (os legistas não aderiram à greve) de tiro na cabeça. Só não fiquei sabendo, e olha que procurei, quantos batiam com as dez sem greve de policial. 108?

O outro assunto, para manter o devido equilíbrio entre besteirada de Brasil e Grã-Bretanha, onde minha alma e parte passável de meu corpo residem, era falar do tabloide The Sun, com uma circulação de mais de 2 milhões e 700 mil exemplares, do império de Rupert Murdoch, onde o sol nunca se põe (ele que põe na gente), que, no zelo atrasado dos bretões anda passando por comissão de inquérito, acabou tendo 5 jornalistas presos, embora já soltos sob fiança, 1 policial, 1 militar e 1 funcionário do ministério da Defesa.

Coisas de dicas obtidas fora das regras do jogo. Como se o jogo de jornal sensacionalista tivesse regra.

O curioso, que todo mundo sabe mas não diz, é que mais de 90% das notícias escandalosas são rigorosamente verdadeiras. No caso, ao que parece, em jornalismo, a ética é tudo e gente querendo saber quem deu o que para quem é uma péssima.

Brrr. Voltando ao assunto. O frio vai dar uma melhorada esta semana e depois piorar, passando lá para os menos da vida hibernal – e bom carnaval para vocês também, senhores escoceses, onde a coisa não é brincadeira.

O frio não é privilégio britânico: 600 já morreram por estas Oropas. Sem tiro na cabeça, apenas um mal estar geral, sim, senhor, “seu” doutor”, disse o velhinho antes de expirar uma nuvenzinha gélida.

Passo para o sol, passo ciberneticamente para Fortaleza no Ceará, onde descobri um simpático cidadão que é o feliz e orgulhoso dono de uma coleção de gibis de mais de 150 mil exemplares, das idades de ouro e atual, distribuídos em 4 depósitos, e, ao que parece, anda pensando em vender tudo ou boa parte.

Não faça isso, companheiro. Vai se arrepender horrendamente depois.

Eu tenho um amigo que, como eu, colecionava discos de cantores também da idade de ouro dos cancioneiros brasileiro e americano. Vendeu a bom preço. Hoje anda tentando refazer. Não dá para se refazer, amizade. É feito morto com tiro na cabeça em Salvador: gudibái, gudibái.

Em matéria de gibi tenho a mais pobre das coleções, mas com uma porçãozinha modesta de coisa dos anos 40 e 50. Em inglês e português. Tudo numa arca no quarto e outros pontos estratégicos da casa.

Agora os discos. Em seu gênero, música vocal entre 40 e 60, eu sou mais eu. E não me passa pela cabeça vender ou dar. Já pedi aos mais próximos. Quando for minha hora de virar pó, não vendam para uma pessoa só. Taquem no eBay ou coisa assim que dá muito mais.

Agora tem um troço: ocorreu-me que devido à vasta quantidade de discos – o quê? 200 mil faixas? Por aí? – não há mais tempo para ouvir tudo de novo. Com este brrr que me persegue e alguns livros com que ainda lido, lembrei-me daquele poema do Jorge Luis Borges, Limites, aquele que, em magnífica tradução do Millôr, como tudo que ele faz, a uma certa altura diz:

“... Pela janela que amanhece a noite se retira
e entre os livros empilhados que lançam
sombras irregulares na mesa baça,
deve haver um que eu jamais lerei.

Há uma porta que você fechou pra sempre
e algum espelho o esperará em vão;
para você as encruzilhadas parecem muito amplas,
mas há um Janus, vigiando você, nos quatro cantos...’’

Tentarei fugir do poema-praga do vate vizinho. Só faltam, creio, umas 10 mil faixas. E ainda estou no vinil.

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