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Lucas Mendes: Tigelão americano

Atualizado em  2 de fevereiro, 2012 - 06:13 (Brasília) 08:13 GMT

Nos campos de batalha republicana floridianos, o time dos mormons destroçou o time dos católicos; Mitt Romney 46, Newt Gingrich 32. Foi uma campanha de superlativos em hipocrisia, dinheiro, e lama de ambas as partes mas, Mitt Romney, em dólares, deu de 5 a 1 em Newt Gingrich.

46 a 32 parece placar de jogo de futebol americano e já destruiu a cobertura da campanha política. As primárias, como notícia, estão mortas.

O país entrou na órbita da final do futebol onde a paixão deles não fica nada a dever a de qualquer país, nem a egíipcia. Sem a violência.

E nesta final, o Super Bowl, que em português literal seria a Super Tigela - depois explicamos o título - tem todos super ingredientes. São times de super cidades: os Giants de Nova York contra os Patriots de Boston e da Gisele Bündchen, mulher da estrela maior do time, Tom Brady.

Seria uma final comparável a um Corinthians e Flamengo, enriquecida de cargas emocionais.

Há quatro anos, na final de 2007, os Patriots não tinham perdido um jogo sequer durante todo campeonato, um recorde raro. Os Giants tinham ganhado 10 e perdido 6 mas brilharam nas semi-finais.

Na final os Patriots eram favoritos com uma margem de 12 pontos de vantagem pelas bolsas de apostas.

Perdendo, nos últimos segundos, Eli Manning, dos Giants, estrela e armador do time, lançou um passe distante e arriscado. Milagroso segundo os cronistas. E o jogador que recebeu parecia ter velcro ou adesivo na mãos. A jogada não sai da memória dos vencedores nem dos vencidos.

Este ano os Giants já repetiram parte da façanha. Levaram surras no campeonato mas foram geniais nas semi-finais com vitórias dramáticas nos últimos segundos dos jogos.

Se não houver uma super tragédia na véspera do jogo, nada vai tirar mais de 170 milhões de americanos diante das televisões nem das suas calorias.

Nenhum evento tem audiência aproximada. No Tigelão deste domingo vão entrar 1 bilhão e trezentos milhões de cervejas, um bilhão e duzentos milhões de asas de galinha, milhões de toneladas de batatas, pipocas, nozes e amendoim. Só o dia de Ação de Graças, o do peru, bate o Tigelão em calorias.

Plus Madona. Aos 53 anos a cantora fará o show do intervalo e vai pedir aos americanos "Give Me All Your Luving". Será a estreia dela e da música no que ela chama "dia mais sagrado dos dias sagrados do país".

Madona não será caloria maior no Tigelão, apenas uma pimentada de 12 minutos. Eli Manning e Tom Brady, serão as carnes que os americanos vão mastigar durante quase quatro horas. São elegantes e finos no campo e fora dele.

Como marido da modelo mais famosa do mundo, Tom Brady brilha a caminho do campo com ternos de Tom Ford de 5 mil dólares, camisas inglesas de 495, gravatas de 245, lencinho de bolso de 145, sapatos de 1.290. Ele é do time 0.1% dos americanos.

Eli Manning, com seu guarda roupa do Ermenegildo Zegna gasta menos em couro e tecidos. Estes são apenas alguns detalhes que os tabloides oferecem em doze páginas diárias, mais capa e contra capa, na cobertura do Super Bowl 5 dias anos da final, como ontem, quando não houve nenhuma notícia relevante sobre o jogo ou jogadores.

Custei a apreciar futebol americano. Meu primeiro jogo foi em Minneapolis, uma das cidades mais frias dos Estados Unidos. Eram os Vikings, time local, contra os campeões nacionais, Green Bay Packers, de Wisconsin, velha rivalidade. Meus anfitriões esperavam me deslumbrar. Quase congelei e perdi o pouco interesse que tinha pelo jogo até conhecer um inglês, escritor e brilhante tradutor da ONU, que traiu o nosso futebol pelo americano.

Descobriu semelhanças em termos de habilidades e carga emocional mas em inteligência, precisão e estratégias, o futebol dos gringos põe o nosso no Tigelão.

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A expressão Super Bowl, pelo dicionário, vem do Rose Bowl, uma final entre times do futebol universitário disputado na Califórnia num estádio construído no início de século 20. Inovador, tinha o formato de uma tigela ou vasilha de comidas, sem asas. Mas as controvérsias sobre a origem do termo enchem um tigelão. Bem como o uso dos algarismos romanos. Este é o Super Bowl XLVI. A turma do Tigelão, 99% dos americanos, não sabe que número é este. Você sabe?

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