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Ivan Lessa: Os britânicos sob a faca

Atualizado em  1 de fevereiro, 2012 - 08:08 (Brasília) 10:08 GMT

Burro que sou, eu pensava que passar pelo bisturi da cirurgia plástica estética fosse coisa lá do resto do mundo, vaidosa que a humanidade é, cheia de dedos (se tiver sete no pé esquerdo, remova um), dengosa, doida para sair na revista, “Ói nóis aqui!”.

Qual o quê, seu! Nas minhas leituras de matérias fúteis de jornais mixurucas (por sinal, único sinal de vida na Terra) descobri aquilo que, no fundo, ou proximidades, veio a ser uma certa desilusão.

Eu achava que os britânicos nasciam, viviam e morriam assim mesmo: maus dentes, como as caricaturas querem, desbundados, senhoritas peitudas (mas de pele leitosa, gostosa, fiel, feito a Magnésia aquela), senhores magros e de narizes aquilinos, muito brancos e orelhudos.

Cruel decepção.

Segundo números revelados pela Associação de Cirurgiões Plásticos Estéticos (em inglês, a Baaps, mais para calão ou onomatopeia do que prática de profissão legítima) revelou que o número de homens indo de abdominoplastia aumentou, no ano de 2011, em 15%, ou seja, foram realizadas 124 abdominoplastias.

Abdominoplastia. Gosto do nome, da palavra. A um filho, se eu o tivesse, assim o o batizaria. Muito mais respeitável, e gorduchinha, do que remoção de excesso de carnes.

Coisa de ex-obeso. Ando meio magro, nunca tendo passado perto da obesidade.

Se o Sistema de Saúde topar irei me submeter ao processo que, dizem, não dói nada e o índice de mortalidade é menor do que o número de soldados mortos no Afeganistão. Quero ver esse negócio de perto, quero que me vejam de perto. Vendendo, a baixos preços, saúde.

Só não me falem em lipoaspiração, que, fiquei sabendo é a cirurgia estética mais popular em terras do Brasil, ganhando até mesmo do implante de seios de silicone (contanto que não sejam fabricados na China. Chinês não entende nada dessas sutis protuberências).

Aqui, no Reino Unido, uma surpresa: o implante de seios é a cirurgia estética mais popular entre as mulheres, apesar de alguns sustos recentes: em um ano, 10.015 operações.

Sim, sim, eu sei. “Entre as mulheres” diz o relatório, o que significa que tem homem, por assim dizer, metendo os peitos por estas plagas afora.

Tudo bem, não deixa de ser mais honroso do que colecionar apps para o celular ou tablet. Não sei o que seja um app, mas tiro o chapéu para o bichão. Esse nós traduzimos. Não virou nem fashion week nem bullying. Virou “aplicativo” e virou muito bem. Aplique-se como um “bandeide”. O que fazer dele é secundário. O importante na vida é viver na língua que Deus nos deu.

Volto à turma de branco armada de bisturí e um iate na marina. Alguns dados para se ter uma idéia de como os cidadãos daqui resolveram mudar seus hábitos de conservadora feiúra, segundo as lendas urbanas e suburbanas locais e de além-mar.

Em 2011 foram realizadas 43.069 procedimentos cirúrgicos na Grã-Bretanha, um aumento de 301% desde 2003. 38.771 realizados em senhoras em senhoritas, aumento de 291% desde 2003. Homens e mulheres com mais probabilidade de se “estetizarem” cirurgicamente ficam na faixa dos 20 aos 24 anos.

Coroa mesmo, que é o lugar-comum para essas, ainda, novidades, nada. Talvez eu apenas.

Pena eu tenho é da otoplastia, intervenção que corrige as orelhas. Apenas 1.170 desde 2005. O príncipe Charles, que muitos maldosamente acham que precisaria de uma boa otoplastia casou-se de novo e foi cuidar de verduras, mas deixou os orelhões em paz. Acho que fez bem.

O perigo é esses troços que vivem oferecendo pela internet: aumentar ou alongar partes íntimas msculinas. Não conheço quem tenha tentado método médico. Parece que é besteira garantida.

Deus dá nozes a quem não tem dentes, diz o vulgo. Já que o vulgo nunca sabe direito o está acontecendo, mas cisma, porque cisma, de dar um palpite besta qualquer.

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