Ivan Lessa: De Drongos e mais Drongos

Atualizado em  23 de janeiro, 2012 - 06:27 (Brasília) 08:27 GMT

Teimoso, aluguei mais um DVD da série Harry Potter, o último. Não gostei dos três anteriores. Muito seriões.

Os nomes das pessoas e lugares, que me divertiam e faziam cócegas nos miolos moles, pararam a uma certa altura. Hogwarth, Dumbledore, Impetigo, por aí, creio.

Aquele latim maroto nas frases de feitiço: revertere ad locum humanum puto!. Para melhor me identificar com os filmes e livros que não li, adotei o codinome de Drongo, como se uma senha para acessar um site bobão da net ou enfrentar Tarzan.

Assalta-me – a bolsa ou a vida! – uma dúvida: quem venceria o páreo num pau a pau, Drongo ou Tarzan?

Como não ando lá essas coisas, e nem sei que coisas, ou se ando, passei a me dirigir a mim mesmo como esse Drongo personagem de HQ ou filme vagabundo.

Interiormente, eu dizia, e ainda digo, "Drongo estar com fome. Drongo ir comer. Drongo ler jornal".

Minto um pouco. Passei a falar em voz alta também às voltas (tão poucas, coitadas) de Drongo sobre o que de mim sobrou. Olho-me no espelho e vejo-me mais Drongo do que nunca. Sem efeito especial, sem nem 15 minutos de maquiagem.

O curioso é que passei a pensar como Drongo pensaria e acharia, embora eu não tenha menor ideia da paisagem interior do bichão. A gata Smudge limitou-se a me observar, sem ronronar ou chiar.

Drongo acompanhou atento a emborcação da embarcação cruzeiral italiana. Não houvesse vítimas e o capitão, que eu promovo a comandante em minha encarnação dronguiana, seria minha personalidade número um do ano de 2012, danado de olímpico e paraolímpico que ora se inicia.

Você não pode ir tomar cafezinho aqui em Londres sem assistir a alguma manifestação bizarra, ou dronguiana, da infausta competição.

Drongo torce por fracasso de todas as provas da empreitada inteira. Drongo joga com cartas marcadas. Drongo lembra aos "intalianos" seu libiesco passado marcial por terra, mar e ar.

Drongo contente em saber que dona Dilma, a presidenta, e presidente, além do mais, do Brasil, alcançou em seu primeiro ano um recorde de popularidade sobre o presidente Lula.

Drongo aprecia o sexo frágil em todas as suas formalidades. Mas Drongo gosta mais de chargista grosso.

Drongo sente pena de que no Brasil não haja chargista político à altura do Steve Bell, do The Guardian, esse sim um modelo perfeito para personagem da J.K. Rowling.

Vai ver Steve Bell é o verdadeiro Drongo (esteve dando entrevista na televisão esta semana) e eu tenha me moldado em sua figura sem me dar conta, já que estou naquele ponto da vida em que o que se dá é beiço e língua atirada para fora.

Steve Bell me pareceu sofrer de gigantismo parcial ou a ele aspirar. É um homem enorme, parece aquele – é Hastrid? – dos filmes do jovem Harry Potter.

Sua altura é lá por cima também. Todo grandão, enorme, o Steve Bell. Sua voz parece sair de cavernas mágicas localizadas no lugar de seus pulmões. Como seus traços podem sair tão precisos de mãos e dedos tão gordos?

Acho que Steve Bell é o verdadeiro Drongo. E o olho do bruto, seu? Saca tudo. Ele que descobriu que o ex-primeiro-ministro John Major usava as cuecas por cima das calças. Flagrou numa reunião qualquer que Major usava o short por cima da camisa.

Este Drongo aqui que a vós se digita também o faz. Mas isto só nas horas de muita solidão e dronguice.

Resultado do zoião do Bell: todo mundo passou a só ver John Major de cueca por cima das calças. Talvez até o próprio tenha adotado a moda caricatural. Steve Bell é fogo.

O atual primeiro-ministro, o conservador David Cameron dá presente todos os dias numa HQ em quatro quadros a cores na última página do caderno B do jornal, ou, muito frequente também, no quarto de página ao lado dos editoriais.

O que Bell sacou em Cameron? Simples. Que ele se veste com uma camisinha que lhe cobre o corpo inteiro, sendo que sua pontinha no alto do cocoruto (é, aquela mesmo) está sempre cheiinha.

Tudo muito natural. Vem na tradição chargista britânica. Eles batem "de com força" como dizia um amigo meu acrescentando a preposição para dar mais força à expressão.

Vocês não tem ideia do que fizeram os chargistas com a Thatcher. Gerald Scarfe, de certa feita, botou-a na página impressa a ganir e emitir excreções por onde pudesse.

Nada que tenha ocorrido a Meryl Streep, cujo filme não é sobre política, mas sim dronguices, se é que me entendem, porque eu não me entendo nem tenho saco para me entender. Drongo não ser de pensar.

Drongo queria ver Bell botando Obama pra quebrar, principalmente agora que o atual pacífico-nobelizado presidente, o mais incompetente desde (é voz geral e de tribuna de honra) James Buchanan, Jr (1857-1861), andou imitando Al Greene – ou terá sido a grande Etta James? – afim de drongar votos drongos.

Este Drongo aqui já encheu. Drongo pega chapéu e se desdronga. Por hoje.

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