Ivan Lessa: Vado a bordo

Atualizado em  20 de janeiro, 2012 - 07:58 (Brasília) 09:58 GMT

Boa semana eu descobri para descrer do mundo e seus balangandãs. Não creio que tenha sido novidade revelar que Maryl Streep é a pior atriz do mundo e não conseguiria desempenhar o papel de figurante em novela de terceira classe no Brasil.

Ela poderia imitar a tal da figurante, desempenhar jamé de la vi.

Um a um tombam os mitos. Os comandantes italianos emborcam cruzeiros, matam dezenas e ganham prestígio mundial não por desconhecerem a arte de navegar (o que é preciso), mas sim por covardia, incompetência e bela estampa.

Além do fato de serem esculachados pela Capitania dos Portos e tendo a gravação do vexame pelo qual passou de rabo entre as pernas divulgado pelo mundo inteiro.

A ordem Vada a bordo, cazzo! virou dizer de camisas e suéteres que vendem adoidados até aqui em Londres, entre e fora da colônia italiana. O sucesso tem muitas facetas, sendo que uma delas é a total falta de caráter.

Outra chateação foi ficar 24 horas sem a Wikipédia, cada vez melhor, cada vez mais prodigiosa em dar os tintins por tintins das cousas da vida para blogueiros profissionais, por sinal uma redundância: o blogueiro deveria ter sido a personalidade do ano da revista Time, mas deixa estar, jacaré, que a lagoa há de secar e 2012 vai ser nosso garantido.

E pronto: admiti-me autor de blog, apenas um entre milhares e com muita honra. Agora à faina (olá capitão italiano!) ensandecedora de encontrar assunto. Fofocas, não as tenho para dar. Meu mundo é muito pequeno para isso. Roubar de outros blogs? Humm, um tiquinho só e muito de vez em quando, combinado?

Agora catar notícia sobre o Brasil, suas riquezas (bom dia, Eike) e desigualdades, estamos aí. Eu vejo uma notícia que começa vinda de Brazzaville, que ainda as há, e aquele B e aquele Z me levam direto para a linha de passe do Posto 4 e meio dos anos 50.

Em 99% dos casos, quebro a cara ou dou uma baita de uma furada, já que a coisa nada tem a ver conosco. A síndrome é conhecida.

Depois de 8 anos e meio de diáspora, os brasileiros começam a sentir saudades ao contrário. Ou seja, só querem saber das más notícias vindas da terra natal. Nada de pessoal, claro. Essas generalizações econômicas que proliferam por aí e um tico cá. Vez por outra, um caso folclórico. Todo contado errado.

O do Sérgio Freudental, de Itapetinga, no sudoeste da Bahia, por exemplo. Aqui deram em jornal distribuído grátis no metrô – nunca confie em nada de grátis, menino; tudo tem seu preço – a notícia de que o homem (acrescentaram um H ao sobrenome da figura), conhecido traficante de drogas, fazia com que seus clientes tatuassem seu nome no espaço mais conveniente de seus corpos.

O editor britânico deu uma de psicólogo e explicou que se tratava de coisa de ego maior e não sobrenome baianês ostentoso e muito Itapetinga.

A nota, de umas dez linhas, finalizava dizendo que a figurinha fora presa, o Freudental, por ser o único com esse sobrenome na cidade. Tá bom. É gozado e, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Depois de muito mexer no computador, achei um blog brasileiro amigo que me dava maiores notícias.Falava em "febre de Freudental", em processo ainda por ser examinado, que as tatuagens eram questão de fidelidade e não ego, desconcertava-se a si próprio e ao leitor por também acrescentar, a uma certa altura, o danado do H no nome do bruto (a vida dá um agá aos baianos quando eles menos esperamos), explicava como se davam as transações (com preço e tudo: 30 reais mais cinco gramas de pedra e maconha), esclarecia que o tatuador também cobrava em mercadoria e que afinal uma prisão de cliente, Henrique Sousa Moura, fora feita (na rua Lorena Maria, bairro de Otávio Camões) após denúncia anônima e que o suspeito levava consigo onze pinos de crack e duas buchas de maconha.

Pinos, buchas, nomes de bairros e ruas de Itapetinga. Como aprendi a navegar a esta semana. Vado a bordo, cazzo!

Nada disso a imprensa, gratuita ou paga, britânica oferece. Depois não sabem porque o futuro a nós informatizados pertence.

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