Ivan Lessa: O fim do cinema

Atualizado em  18 de janeiro, 2012 - 05:11 (Brasília) 07:11 GMT

Não li o livro. Como de hábito, li a respeito. Resenhas. Ensaios. Discussões nos bares e nas televisões.Quando a coisa é complicada, fica mais fácil.

Estou querendo me referir ao livro O Fim da História, editado em 1992 e da autoria do filósofo e economista nipo-americano Francis Fukuyama, que virou moda todo mundo ter uma opinião a respeito.

Pelo pouco que me lembro, e a Wikipédia não me desmente, a tese de Fukuyama era a de que determinados eventos nos setores políticos e econômicos poderiam estar assinalando um ponto final, ou ao menos um ponto e vírgula da evolução sociocultural da humanidade.

Marx já havia passado como uma bala pelo assunto e seguiu em frente, assegura-me meu caro amigo, e atual guru do Facebook, onde atende (dependendo de quem estiver à porta), pelo nome de Drongo.

Estabelecido isso, vou às paralelas como o atleta habitual que sou, para exercitar os músculos do raciocínio.

Decreto que vou escrever um estudo de 120 páginas, com epígrafe do Fukuyama, dedicados à seguinte e simples proposta: o cinema acabou.

Estamos todos como meninos de castigo. Ainda não tomei todas as minhas notas, mas creio que o fenômeno se deu lá pelo mesmo ano do livro que me inspirou.

Como piorou o cinema, meu Senhor! Tudo é muito ruim. O que foi uma sorte para a televisão que melhora a olhos vistos, para quem não é astigmata ou daltônico.

É só não mexerem, por pura novidadice, com o raio da 3D que vem emborcando como cruzeiros italianos capitaneados por indivíduos da mesma raça que já nos deu Fellini, Visconti e Sergio Leone.

Até o Scorsese, que fez uns dois ou três filmes razoáveis, já embarcou nessa dimensão, e, como numa história de The Twilight Zone, por lá deveria ficar, apenas recuperando cópias de velhas obras-primas esquecidas, que nisso ele é mestre.

O que me levou à conclusão final, a de que o bem-bom já passara, foi essa farta distribuição de globos dourados em Hollywood.

Em primeiro lugar, tem muito mais importância do que o badalado Oscar, uma vez (pouquíssimos jornais se deram ao trabalho de contar) que quem escolhe os vencedores são os 93 membros da associação de imprensa estrangeira baseados em Hollywood.

Quer dizer, gente, ao menos em teoria, com opinião bem informada e, mais importante, insubornável, no meu entender.

Quem vota nos Oscar que já vêm vindo aí? Outros vencedores, sindicalistas, gente que empurra grua, aponta holofote, que tem pouquíssimo a ver com o outrora digno fato de sentar-se numa poltrona com um sacão de pipoca e ver o que é que se passa na tela.

Cinema é trabalho para os eleitores de Oscar. Trabalho é sempre chato.

Um único grande vencedor e fato digno de registro, e que além do mais comprova o que ainda é um embrião de minha tese, é o cada vez mais popular tapete vermelho.

As “celebridades”, como Keanu Reeves ou Ben Affleck, passam de smoking com a namorada que lhes foi apontada para a ocasião e os jornalistas perguntam como ele ou ela estão se sentindo. Tudo de uma bobagem enorme.

Cinema virou apenas tapete vermelho, podem anotar aí. Na tela, tem um James Bond com cara de eletricista incompetente namorando uma moça feia e sem graça feito a Hillary Swank, que já levou dois (repito, dois) Oscar para casa, o que deve fazer dela atriz.

Para não falar do insuportável Tom Hanks, que pegou uma estatueta dourada por dois anos consecutivos. Quer dizer, feito o Spencer Tracy e duas vezes mais que Orson Welles.

Pretendo encerrar meu estudo, juntamente com minhas idas ao cinemas (talvez eu barre até DVD lá de casa) com 15 linhas provando por A mais B que Meryl Streep é a pior atriz do mundo em qualquer dos sotaques que procure fazer: das duas Karen que interpretou (Silkwood e Blixen) até a Sophie polonesa do A Escolha de Sofia, passando por Ethel Rosenberg.

Agora aí está imitando (ela não é uma intérprete), com grande sucesso de público e crítica, a Dama de Ferro, Senhora Dona Margaret Thatcher.

No trailer mínimo que passam pela televisão lá está o que (essa sim, atriz) Katherine Hepburn, em dia inspirado (que eram todos os seus dias), comentou baixinho ao passar por ela: “Click, click, click”, referindo-se às bolinhas que ela ouvia com a nitidez dos gênios rodarem na cabeça de Meryl, a grande imitadora, sempre com as mãozinhas flutuando por perto do rosto, como se afastando borboletinhas visíveis só a ela.

Dia em que filmarem a cinebiografia de Sammy Davis Jr. só pode ser com essa moça no papel título. Ou, como num desenho animado do Tex Avery, fazendo o papel do tal tapete vermelho.

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