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Lucas Mendes: K., o armador genial

Atualizado em  22 de dezembro, 2011 - 07:48 (Brasília) 09:48 GMT

Aos 88 anos, Dr. K dribla e chuta com as duas, mas o gênio dele ainda é a cabeçada. Henry Kissinger espera, mira e !

Há meses vinha negociando um encontro com o mais influente diplomata do século 20. Graças à mediação de Israel Klabin e da jornalista Cristina Aragão, nos encontramos na tarde de quarta-feira, mas nunca havíamos negociado o tempo da entrevista.

"Quanto tempo?", ele perguntou.

"Uma hora."

"Nem pensar. Out of question."

"Fico feliz com 45 minutos."

"Achei que seriam 10 minutos. Dou 30", disse Kissinger.

"Fechado."

Depois de passar semanas lendo sobre as negociações dele com os chineses aprendi alguma coisa. Trinta minutos é o tempo do programa Milênio.

O livro que lançou este ano, On China, foi lançado no Brasil com o título Sobre a China, mas começamos pelo assunto que bate mais no peito do que na cabeça de Kissinger: futebol.

"Vou dizer que o Brasil não vai ganhar a Copa de 2014."

"Fico triste porque suas previsões são quase sempre certas. Infelizmente, concordo. Viu o jogo do Santos com o Barcelona?"

"Barcelona é o melhor time desde o Brasil da Copa da 70."

Será o melhor time da história? Melhor do que o Santos de Pelé ou do que a seleção húngara de 54? Infelizmente não esclarecemos a questão, mas na minha pesquisa sobre Henry Kissinger descobri que a paixão dele pelo futebol não é um jogo de relações públicas. A paixão é genuína e ele planeja comemorar seus 90 anos na Copa do Mundo no Brasil.

Criança, judeu, em Fürth, na Bavária, ele era viciado em futebol. Cabeçudo, magrelo e baixo, nunca foi o jogador mais habilidoso do time, mas gostava do jogo bonito e limpo, tinha disciplina, brigava pela bola e sacava tanto sobre táticas que chegou a ser capitão do time. E na Alemanha, capitão é capitão. Manda - e Kissinger sempre gostou de mandar.

Fürth, perto de Nuremberg, foi uma das pioneiras e mais radicais do antissemitismo na Alemanha. As discriminações começaram na década de 30 e os judeus foram proibidos de participar de eventos públicos, inclusive jogos de futebol.

O jovem Heinz Kissinger, fã incondicional do Greuther Fürth, conhecido como "Kleeblatt-Elf" (o "time do trevo"), contrariava as ordens oficiais e as instruções paternas e ia para o estádio com o irmão, Walter. Mais de uma vez foram surrados por gangues alemãs, mas a empregada cuidava deles, das roupas rasgadas e não contava para os pais.

Em 1938, a situação se agravou. O pai, que adorava a Alemanha e achava que a aberração nazista seria passageira, não podia mais dar aulas. Concordou com a mulher, Paula, e vieram para os Estados Unidos. Heinz tinha 15 anos e ficou marcado pela humilhação do policial da imigração na hora da partida. Um dia voltaria.

Voltou como soldado do Exército americano e, graças ao talento e à cultura, foi colocado em posições de chefia, com ajuda do mentor Fritz Kraemer, um prussiano de origem aristocrática que descobriu a genialidade de Heinz, já com o nome Henry. Aos 21 anos, o jovem soldado foi enviado para a linha de frente numa das mais brutais batalhas do final da guerra, a de Bulge, mas Kissinger nunca deu um tiro.

Era o único que falava alemão no batalhão e, à medida que os americanos avançavam, assessorava superiores. Na primeira cidade conquistada pelo batalhão dentro da
Alemanha, Krefeld, ele recebeu a tarefa de cuidar da lei e da ordem. Em oito dias, tudo funcionava, da coleta de lixo à energia elétrica.

As responsabilidades dele cresceram. Foi promovido a sargento, medalhado e transferido para o divisão de contra-espionagem em Hannover. Começou como motorista, mas, em poucos meses, era o rei da cocada. A missão dele era identificar agentes da Gestapo e desnazificar a área. Tinha plenos poderes, inclusive de ocupar a maior casa da região, tomar a amante do industrial e dar festas generosas. Pontificava.

Henry lidava com os ex-nazistas sem violência e brigava com judeus que queriam vingança pelos maus tratos, embora a maior parte da própria família, 13 pessoas, como ele conta, "tenha virado sabão".

Quando cobrei dele a omissão pelos direitos humanos, ele lembrou a infância e a adolescência reprimidas pela violência: "o difícil era achar o equilíbrio certo entre o uso da força e da justiça", disse Kissinger sobre os anos como assessor de Segurança Nacional e secretário de Estado de Nixon e Ford.

O homem da détente com a União Soviética na Guerra Fria, da abertura de relações com a China, do bombardeio do Camboja e Hanói no Natal, da Operação Condor na América do Sul, da guerra e da paz no Vietnã, teve mais influência na ordem internacional do que qualquer outro estadista do século 20.

O mundo de hoje é mais ou menos seguro do que no dia em que ele entrou na Casa Branca em 69 e começou sua reforma internacional?

A resposta esta no programa Milênio onde, infelizmente, há pouco sobre futebol e muito sobre política internacional.

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