Lucas Mendes: Virgindades extras e falsas

Atualizado em  15 de dezembro, 2011 - 08:41 (Brasília) 10:41 GMT

Dizem que não existe meia gravidez nem meia virgindade.

Meia gravidez não existe, mas meia, menos de meia e até extra virgindade existem, pelo menos no azeite.

E a diferença é essencial não para o sexo, onde a extra virgindade não é necessária, mas indispensável para a saúde e sabor.

A verdade está no livro Extra Virginity: the Sublime and Scandalous World of Olive Oil, de Tom Mueller , um americano que vive no norte da Itália e no artigo científico da edição de 19 de janeiro do Journal of Neuroscience.

Antes do livro e do artigo conto minha experiência pessoal.

Meu querido e sábio velho José Fiúza Campos, mais conhecido como Dr. Fiúza, dentista de B.H. era um pescador, um grande pescador, que tirou do rio Pará um surubim de 91 quilos, maior do que ele, na década de 60.

O velho passou por três malárias e voltava de suas gloriosas pescarias todo torrado de sol e coberto de picadas. Um dia, Zé Fiúza sacou, era também um grande sacador, no bom sentido, que o mosquito não pousaria nele se estivesse azeitado.

Antes de ir para o rio, ele se banhou de azeite, da cabeça aos pés. Virou piada entre os pescadores, mas voltou para casa lindo, parecia um peixe grelhado, com belíssimo bronzeado dourado e sem uma picada de mosquito. E nunca mais teve malária.

O azeite virou um santo remédio nas pescarias e depois da sauna em B.H. A querida mãe, é claro, se queixava do cheiro, difícil de sair das roupas.

Os gregos, na antiguidade, usavam azeite no corpo e não na mesa. Era um agente protetor da pele e da saúde.

O livro do Tom Mueller confirma estas virtudes saudáveis do azeite e muito mais. O tema dele é, em partes, medicinal, comercial e culinário.

Vamos começar pela maldade comercial. Metade do azeite que os americanos consomem como extra virgem é falso.

O extra virgem exige que a colheita da azeitona seja a mão, de oliveiras de boa qualidade, que sejam bem estocadas e prensadas a frio.

Esta tecnologia só foi bem desenvolvida a partir da década de 60, com uso dos tanques de aço inoxidável.

Foi um cientista do Monell Chemical Center que, recentemente, descobriu, por acaso, as propriedades anti-inflamatórias do azeite extra virgem.

Ele pesquisava porque o ibuprofen - Advil, no Brasil - e outros anti-inflamatórios têm um gosto amargo quando você toma a pílula sem água.

Numa viagem de férias na Itália sentiu o mesmo gosto tomando azeite extra virgem recém prensado.

Trouxe várias garrafinhas de volta para o laboratório e “bingo”. Empatava com o ibuprofen.

A sensação amarga é causada pelo Receptor TRPA1, uma proteína do fundo da garganta, que está lá, diz o artigo, provavelmente para defender o corpo contra produtos químicos nocivos presentes no ar.

Aqui fica um pouco complicado, mas estes receptores reconhecem o agente EVOO, o oleocanathal, um potente inibidor da enzima inflamatória COX.

Exatamente como funcionam o ibuprofen-Advil e outras drogas sem esteroides anti-inflamatórias. Entendemos? Mais ou menos.

O EVOO provoca tosse e o valor do anti-inflamatório pode ser medido pelo númeno de tossidas, uma, duas, três, quanto mais tosses provocar mais protetor é o anti-inflamatório.

Esta tosse, dizem os cientistas da Journal of Neuroscience, é a última barreira que bloqueia o ar podre, ou envenenado, antes que chegue ao pulmão.

Eles vão mais longe e afirmam que o extra virgem tem potencial como no tratamento de dores crônicas e asma.

Vamos acreditar que o extra virgem tenha estas virtudes medicinais (sem saber destas propriedades, eu já tomava meu cálice em jejum há vários anos depois que vi um grego centenário contar sobre a saúde dele e não quero, nem saudável, passar dos 80), qual é então a maldade comercial?

Vem dos produtores, em especial dos italianos. Não existe controle de qualidade, como nos vinhos.

O rótulo diz extra virgem e pagamos quase o dobro do preço. Ou mais.

A Itália é a maior importadora e exportadora de azeite do mundo, mas os espanhóis produzem três vezes mais. Qual é a safadeza?

A tese do autor é que os italianos e outros safados, importam azeite ordinário, " batizam" com 10, 20 ou 30 por cento de extra virgem e nós engolimos a falsa virgindade.

O ordinário não tem mais de duzentos ingredientes medicinais do azeite extra virgem.

Tom Mueller conta histórias sobre vários produtores de excelentes azeites falidos ou à beira da falência porque não podem competir com as falsificações.

Em dez garrafas testadas, dependendo da região, pelo menos quatro eram falsas.

A Califórnia é uma das poucas regiões que criou um sistema de controle de qualidade, mas, mesmo em Nova York, é difícil encontrar o caro azeite com rótulo certificado.

Cada produtor escreve o que bem entende. (Eu importo e garanto, Deus também, a qualidade de umas latinhas preciosas da Provença).

Não há fiscalização e não é crime mentir.

Tom Mueller diz que a indústria está numa encruzilhada: se não for controlada, vamos engolir virgindades falsas.

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