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Cada vez mais ‘isolada’ da Europa, Grã-Bretanha enfrenta tensão política

Atualizado em  12 de dezembro, 2011 - 12:38 (Brasília) 14:38 GMT
David Cameron, em Downing Street, nesta segunda-feira (AFP)

Cameron rejeitou pacto europeu, despertando temores de isolamento da Grã-Bretanha e racha na sua coalizão

Depois de rejeitar um pacto de integração fiscal europeu, a Grã-Bretanha enfrenta temores de se isolar cada vez mais do resto da União Europeia – preocupações que provocaram um racha dentro da coalizão governista britânica.

Na última sexta-feira, em Bruxelas, a maior parte dos países da União Europeia concordou com um pacto que visa integrar os controles orçamentários e fiscais do bloco e restaurar a confiança do mercado financeiro no euro.

Ainda que alguns países queiram submeter o acordo à aprovação de seus Parlamentos, acredita-se que 26 membros da UE estejam dispostos a assiná-lo – à exceção da Grã-Bretanha.

Durante o encontro em Bruxelas, o premiê britânico, David Cameron, se negou a fazer parte do pacto, alegando que ele levaria a intervenções europeias no mercado financeiro londrino e iria contra os interesses britânicos.

A rejeição britânica impediu que o pacto se tornasse um tratado para toda a União Europeia, levantando críticas à "divisão" da Europa e medo, entre os próprios britânicos, de se distanciar do restante do continente, que é o destino de cerca de metade das exportações da Grã-Bretanha.

Um dos principais críticos da posição britânica, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse à imprensa francesa que agora claramente existem "duas Europas".

Em resposta às críticas, Cameron foi ao Parlamento britânico nesta segunda-feira para defender sua rejeição ao pacto. Ele alegou que o "não" ao acordo europeu "foi a resposta correta", alegando que faltaram "salvaguardas ao mercado financeiro britânico".

Mas agregou que seu país permanece sendo um "membro pleno da UE", porque o país necessita "do mercado comum europeu".

Eurocéticos

Ainda que a rejeição ao pacto europeu agrade grande parte do eleitorado de Cameron e de seu Partido Conservador – que tem uma ala "eurocética", contrária à maior integração com a Europa –, a decisão britânica despertou tensões na coalizão governista.

O vice-premiê, Nick Clegg, do Partido Liberal Democrata, disse à BBC que ficou "desapontado" com o resultado das negociações em Bruxelas, que pode fazer com que a Grã-Bretanha "fique isolada e marginalizada" do resto do continente.

"Temos que garantir que a integridade do mercado comum (europeu) seja preservada", afirmou Clegg. "Não acho que isso seja bom para os empregos (britânicos), para o crescimento ou para as famílias."

A oposição trabalhista, por sua vez, disse que Cameron terá que explicar "por que fez algo que é tão ruim para a Grã-Bretanha e para os empregos britânicos".

Vice-premiê Nick Clegg, em entrevista à BBC

Vice-premiê disse temer que o posicionamento britânico leve à perda de empregos na Grã-Bretanha

"Ele fez isso porque a ala eurocética do Partido Conservador tomou conta e isso não é bom para os interesses nacionais", acusou o líder da oposição, Ed Miliband.

Em defesa do governo, o secretário de Negócios Vince Cable disse que "precisamos urgentemente de uma confirmação de que estamos comprometidos com a UE", porque "milhões de empregos dependem disso".

'Solidariedade'

O analista de negócios da BBC Joe Lynam explica que ainda não está claro se o mercado financeiro britânico terá vantagens ou desvantagens de longo prazo por se livrar de regras comuns europeias.

Mas ele agrega que existe um risco de que os bancos do país possam ser afetados por acordos feitos pelos demais 26 membros da UE.

De sua parte, Sarkozy disse na França que ele e a chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, fizeram tudo o que podiam para obter um consenso europeu para o pacto acordado em Bruxelas.

O pacto prevê mais integração econômica na zona do euro e inclui penalidades automáticas para países cujo deficit público exceda 3% de seu PIB; a antecipação, para julho de 2012, de um Mecanismo Europeu de Estabilidade (fundo permanente de resgate para os países da região); e um financiamento de 200 bilhões de euros a países endividados, a ser provido por países europeus para o FMI.

Também exige que os países do pacto submetam seus orçamentos nacionais à Comissão Europeia, que terá o poder de pedir que sejam revisados. O objetivo é evitar a descoberta tardia de grandes deficits, como os observados na Grécia.

Sarkozy declarou acreditar que agora existe uma Europa "que quer mais regulação e solidariedade entre seus membros" e outra que "está atrelada somente à lógica do mercado comum".

'Engajamento'

Sarkozy após encontro em Bruxelas

Nicolas Sarkozy disse que agora existem 'duas Europas'

Em resposta às críticas, o gabinete de Cameron disse que a Grã-Bretanha vai "se engajar de maneira construtiva" com os demais países europeus e rejeitou a ideia de que a postura adotada em Bruxelas ameace a coalizão governista do país.

Ao mesmo tempo, a decisão de Cameron dividiu a imprensa britânica. De um lado, jornais como o Daily Telegraph argumentaram que "os britânicos comuns têm pouca simpatia" pelo projeto europeu (parte da população britânica desaprova, por exemplo, a ida de imigrantes europeus ao país).

Já jornais como o Guardian disseram que o veto britânico "certamente não protegerá Cameron e a Grã-Bretanha de danos econômico"”, mas opinando que as decisões tomadas pelos líderes europeus em Bruxelas farão pouco para resolver a crise do euro.

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