Lucas Mendes: O café e o açaí do Aciar

Atualizado em  8 de dezembro, 2011 - 06:21 (Brasília) 08:21 GMT

Minha rua tem tudo. Quase tudo. O excelente hospital hospital St. Vincent faliu e fechou há quase dois anos, mas a vizinhança chora até hoje e faz campanhas por sua reabertura.

Só no meu quarteirão de cem metros, há um prédio de médicos, duas universidades, um cinema de arte com três telas e seis restaurantes, alguns entre os 10 melhores de Nova York, que atraem celebridades e ricos com suas limusines. Semana passada atraiu Barack Obama e eu tive de descer do táxi com minhas malas e caminhar dois quarteirões porque a área estava "congelada".

Na esquina da minha casa o agente do serviço secreto me barrou, mas fiz uma tal arenga que ele acompanhou até a porta, mas não me deixaram sair para uma caminhada antes do presidente com seus 29 carros sair do restaurante. Apesar disto vou votar nele.

Vamos caminhar para a Sexta Avenida, onde ficava um dos restaurantes favoritos do Village durante 35 anos. Joe Jr. era uma cafeteria greese spoon - ou "colher ensebada" -, como são apelidados os clássicos cafés-restaurantes gregos em lenta, inevitável e triste extinção nas esquinas novaiorquinas.

Quando o proprietário do imóvel tentou botar Joe Jr. para fora há uns dez anos a população do bairro se mobilizou e o grego, um trabalhador para variar, ficou, mas há dois anos, depois de um incêndio no porão, o custo da reconstrução era proibitivo.

A vizinhança se mobilizou, mas foi inútil. US$ 750 mil estavam fora de alcance do restaurante barato com um cheiro gostoso permanente de cebolas e batatas assadas na chapa aberta.

No lugar do grego veio O Café, completamente diferente e quase cem por cento brasileiro. O Pedro Andrade, vizinho de bairro, colega de mesa no Manhattan Connection e melhor guia de Nova York, me disse que O Café tem o melhor açaí da cidade.

Fui provar e conhecer o dono, Fernando Aciar, um chef argentino que passou por restaurantes paulistas, entre eles o Figueira em São Paulo, mas é um apaixonado pelo Rio, onde abriu e comandou muito anos o Café do Lage.

Jovem, 32 anos, filho e neto de cozinheiros, Fernando desde criança é ligadão em comida. Agora está na fase dos alimentos saudáveis e isto explica, em parte, o sucesso de O Café, aberto em janeiro. Só tem 18 cadeiras e as filas na porta são frequentes durante a manhã. Conquistou a vizinhança.

Na hora do almoço também lota e cinco pessoas atras do balcão tentam manter as filas curtas. Vale a pena. Minha lição sobre o café que ele traz do Brasil levou quase meia hora, ilustrada com um vídeo do fone dele sobre o processo de torrefação.

O café nobre de O Café vem da Fazenda Esperança, de Campos Sales, no cerrado mineiro. O chocolate, não menos excepcional, vem da Bahia. Mas a garrafinha de água de coco de US$ 4,5, vem da Tailândia e esgota rápido.

O açaí vem do Amazonas em barras congeladas que são batidas no liquidificador com banana, guaraná, agave, granola e quinoa. Será que esqueci alguma coisa? Acho um pouco adocicado, mas dá um coice energético. Fernando me garante que são calorias vegetais, do bem, que devoram as calorias do mal. Acredito nisto?

Há dez anos neste país quase ninguém sabia o que era açaí. Mesmo no Brasil ainda é bossa nova, mas se você escrevesse a palavra num papel e pedisse para o gringo pronunciar daria uma materinha no Jornal Nacional.

Hoje, mesmo com sua indecifrável cedilha, é palavra fácil em Nova York e a fruta pode fazer para os cofres amazônicos o que o kiwi fez pelos da Nova Zelândia, mas o açaí corre o risco de ser prostituído. Qualquer super mercado grande vende suco de açaí e não há um padrão nem é barato. O do Fernando custa quase US$ 9.

Na esquina seguinte o açaí é diferente. Ao contrário do kiwi, a fruta, que não sofre variações, o açaí varia do doce ao quase amargo, do ralo ao quase ensopado.

As histórias do Fernando Aciar são saborosas, variadas e instrutivas, mas eu rebati com uma que o deixou perplexo: a do meu pé de café. Em 1972, fui entrevistar um cientista num laboratório de Kalamazoo, no Michigan, numa área muito mais gelada do que Nova York. Era um especialista em estatinas que estava no começo da revolução contra o colesterol.

Na despedida, ele me mostrou um enorme pé de café dentro de casa. Fiquei deslumbrado e ganhei um vaso com um pezinho. Cinco ou seis anos depois, deu frutos. Lindos. Infelizmente, no meu divórcio a ex ficou com nosso pé de café e com a minha querida Jaboticaba, uma scotch terrier, mais conhecida como Jabot.

Jaboticaba o Fernando não tem, mas me disse que vai ter um pé de café na janela dele com vista para a rua 12, na esquina da Sexta Avenida. É só o que falta na minha rua. E aposto que jaboticabeira também cresce em vaso. Açaí eu duvido.

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