Artigo: Crescimento econômico da Rússia deve perder força

Atualizado em  2 de dezembro, 2011 - 06:06 (Brasília) 08:06 GMT
Rublos

A partir de meados da década de 90, o dinheiro russo adquiriu valor real

Entre 1989 e 1998, a Rússia mergulhou numa crise profunda. Uma crise de transformação, ligada ao colapso do sistema soviético e uma ampla gama de reformas.

Como resultado, a Rússia se tornou um país com uma economia de mercado.

Entre 95 e 97, as instituições desta nova economia ainda estavam em sua infância. Mas os problemas do socialismo, incluindo os mais óbvios como falta de produtos nas lojas, não existiam mais.

O dinheiro tinha agora valor real. E uma nova estrutura econômica passou a vigorar. Pela primeira vez em décadas, ela era baseada no conceito de oferta e demanda.

Há muita discussão sobre como a economia russa é hoje dependente da exportação de combustíveis e matérias-primas. Mas isso já acontecia há décadas. No final da década de 1960, grandes depósitos de petróleo e gás foram descobertos na Sibéria oriental. Esta dependência só ficou mais forte quando o preço do petróleo disparou internacionalmente na década de 1970.

Durante a crise transformadora de 89-98, o PIB da Rússia se contraiu em 40%, sua produção industrial caiu em 55%. Um declínio desta magnitude é inédito, pelo menos em épocas de paz.

O golpe final foi dado pela crise financeira de 1988. Ela também causou mudanças políticas. O governo de reformistas foi obrigado a renunciar. A Rússia enfrentava agora sua primeira mudança de presidentes na história pós-soviética.

Mudança

Mas após a crise de 1998, que viu o preço do petróleo atingir seu ponto mais baixo desde 1973 (U$ 12 o barril) as coisas começaram a melhorar.

Metrô de Moscou

A força de trabalho russa deve passar a se contrair em breve

A economia russa cresceu muito rapidamente entre 1998 e 2008. De fato, tão rapidamente que muitos se convenceram de que a Rússia estaria pronta para se juntar ao clube elitista dos países ricos com altas taxas de crescimento.

Naqueles anos, o PIB russo cresceu 185%, comparado com 1998. Sua média de crescimento anual foi de 7,3%.

Foi isso que fez da Rússia um dos países dos Brics, assim definidos pela Goldman Sachs. Estes países são vistos como locomotivas do crescimento no início do século 21.

Mas é válido lembrar que este crescimento seguiu uma crise muito difícil e as comparações foram feitas com os piores dias da crise.

Comparada com o nível de 1989, a inflação fez os preços serem 108% mais altos em 2008.

Neste mesmo período a população russa começou a gastar mais e poupar menos. A poupança interna caiu de 31% para 19% do PIB.

No geral, portanto, o período de 1998 a 2008 foi de crescimento reconstrutor. E os fatores que o definiram são improváveis de se repetirem. Mesmo se o fizerem, seu efeito será provavelmente muito mais brando.

Negócios e política

Os empresários bilionários Mikhail Khodorkovsky e Platon Lebedev.

As prisões de Khodorkovsky e Lebedev foram um marco para o país

Esta década pode ser dividia em duas partes distintas.

A primeira (de 1999 a 2003) viu rápido crescimento econômico e cooperação entre empresas e autoridades. A atividade empresarial foi forte, empresas que vinham tendo produtividade baixa reverteram a tendência e os preços do petróleo permaneceram moderadamente baixos (entre US$ 20-25 pelo barril, em média).

Mas em 2003, um novo conflito entre empresas e governo se tornou aparente. Ela culminou na condenação e prisão dos empresários bilionários Mikhail Khodorkovsky e Platon Lebedev.

Politicamente, as regulamentações eleitorais foram endurecidas e o regime como um todo se tornou menos liberal.

O segundo estágio (os anos de 2004 a 2008) viu o Estado interferir mais e mais na economia, com a queda da atividade empresarial. No entanto, isso acontecia em um cenário de preços altos do petróleo e crédito internacional barato.

Estes fatores mantiveram os negócios vivos e investidores estrangeiros interessados, frequentemente artificialmente.

Quando a crise financeira global teve início entre 2008 e 2009, as coisas mudaram novamente. Os fatores que estimulavam o crescimento do PIB russo começaram a enfraquecer.

Um deles foi o ritmo de aumento da força de trabalho. Antes de 2008, ela crescia a 2% por ano. Em um futuro próximo, ela deve se contrair em 1% por ano.

As exportações russas também devem ter pior desempenho.

A conclusão é que o crescimento do país deve diminuir. Mesmo com a alta do preço do petróleo, a menos que a Rússia faça reformas institucionais.

Os direitos a propriedade precisam ser protegidos e competição real, econômica e política, introduzida na Rússia. O país também precisa garantir o cumprimento da lei.

Sem estes passos, seria errado esperar um crescimento marcante na atividade empresarial.

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