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Jovem fotógrafo mobiliza entusiastas no Complexo do Alemão

Atualizado em  28 de novembro, 2011 - 16:14 (Brasília) 18:14 GMT

Jovem vira fotógrafo e mobiliza entusiastas no Complexo do Alemão

  • Festival de Pipas no Alemão (Foto: Bruno Itan)
    Morador do Complexo do Alemão, no Rio, o jovem Bruno Itan seguiu seu sonho e tornou-se fotógrafo. Hoje, além de trabalhar na equipe do governador Sérgio Cabral, fotografa cenas do cotidiano da comunidade, como o seu primeiro festival de pipas, realizado em setembro. (Fotos: Bruno Itan)
  • Réveillon visto do Alemão (Bruno Itan)
    O último réveillon foi o primeiro com fogos de artifício no Alemão, diz Bruno Itan. “Antes, comemoração no Alemão era só tiro. No ano novo, no lugar de ir para a laje comemorar, as pessoas entravam em casa para se proteger das balas traçantes.” Ele passou a meia-noite em um ponto alto da comunidade para tirar a foto.
  • Futebol no Alemão (Bruno Itan)
    Morador do Morro do Alemão, Itan fotografa cenas do cotidiano das comunidades do complexo, procurando mostrar a rotina que não sai na imprensa. Aqui, jovens jogam futebol na quadra no alto do Morro da Baiana. Na contra-luz, a bola suspensa no ar está em frente ao ponto onde o sol está se pondo.
  • Ocupação do Alemão (Bruno Itan)
    Itan acompanha também os conflitos no Alemão e fotografou a ocupação, um ano atrás. No amanhecer de 28 de outubro de 2010, policiais reunidos na entrada do complexo se preparavam para iniciar a ocupação, “vigiados” pelos olhos no cartaz acima, um anúncio com um dos integrantes do Blue Man Group.
  • Discussão entre moradores e soldados (Bruno Itan)
    Moradores discutem com soldados da Força de Pacificação na véspera do 7 de setembro, em um dia marcado por conflitos no Complexo do Alemão. Na ocasião, tiros foram disparados de morros vizinhos em direção à comunidade, no que foi visto como um ataque de traficantes contra as forças do Exército.
  • Moradores do Alemão protestam (Bruno Itan)
    Em um cartaz, moradores fazem um protesto silencioso contra a presença contínua do Exército no Complexo do Alemão, que está completando um ano. “A relação dos moradores com o Exército está bem complicada”, diz Itan, afirmando que conflitos são comuns pela dificuldade de diálogo.
  • Igreja da Penha na tempestade (Bruno Itan)
    A Igreja da Penha vista do Morro do Alemão, em uma noite chuvosa. Itan conta ter conseguido registrar o raio depois de uma hora de tentativas do alto da laje de sua casa. “É muito difícil. Quando estava prestes a desistir, consegui nas três últimas tentativas”, conta o jovem fotógrafo.
  • Piscina no morro (Bruno Itan)
    Crianças brincam e mergulham em uma piscina armada na laje de uma casa no Morro do Alemão. “É muito comum na favela, faz muito calor”, diz Itan, que mora perto do local onde fez o registro. Ao fundo vê-se uma estação do teleférico e, no horizonte, uma ponta da Baía de Guanabara.
  • Operários no teleférico (Bruno Itan)
    Funcionários fazem a manutenção do teleférico do Alemão, que foi inaugurado em julho. As fotos que Itan da sua construção foram expostas no dia da inauguração, o que o levou a conhecer a presidente Dilma Rousseff, o governador Sérgio Cabral – e a conseguir um emprego.
  • Senhor Antônio (Bruno Itan)
    Figura conhecida do Alemão, o senhor Antônio é mudo, mas “escreve tudo o que ele sente”, diz Itan. “Ele não fala, mas escreve o que pensa e posta na parede da casa dele”, conta. Uma das inscrições diz: “O amor real e puro não entra em coração burro.” E outra: “Só o amor vence o mal”.
  • Estudantes do Alemão (Bruno Itan)
    Meninos da comunidade folheiam uma lista telefônica, com a inscrição 'Educando para o Futuro' ao fundo.
  • Integrantes do Foto-Clube do Alemão (Dhani Borges)
    Os entusiastas do Foto-Clube do Alemão reunidos na Serra da Misericórdia, em uma das saídas para fotografar a comunidade. Eles estão na estrada de terra por onde traficantes fugiram da Vila Cruzeiro durante a ocupação no ano passado, um dos pontos que costumam visitar nas saídas fotográficas (Foto: Dhani Borges).

Rio de Janeiro

Quando Bruno Itan, de 23 anos, deixou o trabalho em um lava a jato para fotografar festinhas no Complexo do Alemão, seus colegas no posto de gasolina viram seu desejo de ser fotógrafo como capricho.

Alguns anos, uma pacificação, um fotoclube e uma conversa com Dilma Rousseff depois, a carreira de Itan deslanchou.

"Eu falei para eles que ia virar fotógrafo profissional, mas eles não acreditavam", disse ele à BBC Brasil.

Filho de uma família pernambucana, Itan chegou ao Rio aos 9 anos com a mãe, que logo voltou para o Recife e o deixou morando com os tios, no Complexo do Alemão. Aos 16 anos, começou a economizar para comprar uma câmera.

Depois de passar por três empregos, conseguiu comprar uma máquina semiprofissional e trocou o trabalho fixo por bicos de fotógrafo em festinhas.

Enquanto isso, fazia registros do dia a dia na comunidade, buscando captar cenas pouco vistas do Alemão.

A mania de fotografar as obras do teleférico do Alemão chamou a atenção do presidente da empresa responsável pela construção. Itan foi convidado a expor suas fotos na inauguração do teleférico, em julho.

Quando o dia chegou, a presidente Dilma Rousseff compareceu, viu as fotos do rapaz e quis saber quem era o fotógrafo. Itan, que estava do lado de fora da solenidade, foi chamado às pressas e apresentado à presidente.

"Ela perguntou se eu tinha emprego, e eu disse que não. Então perguntou se eu queria ir para Brasília trabalhar com ela", conta Bruno.

"O (governador do Rio, Sérgio) Cabral estava perto e falou que era melhor eu ficar no Rio, que ele me dava emprego no Palácio. Hoje em dia, sou um dos fotógrafos do governador", conta Itan.

O jovem foi contratado como estagiário do núcleo de fotógrafos do governador há quatro meses, e deve ser efetivado no início do ano que vem.

"O morador não sabe dialogar com autoridade, porque nunca teve autoridade lá dentro"

Bruno Itan

Durante a semana, acompanha a agenda de Cabral, mas nos fins de semana, suas lentes se voltam para a comunidade, nas saídas do fotoclube que fundou com dois amigos.

A ideia veio no primeiro carnaval após a ocupação, em uma conversa com Dhani Borges – fotógrafo que deu um curso no Alemão em 2008 e passou a ser amigo e grande incentivador de Itan. Agora que as coisas estavam calmas, por que não montar um fotoclube?

"Achava que muitos jovens deviam ter vontade de praticar a fotografia, assim como eu, mas tinham medo. Com a pacificação, pensei: A hora é agora", diz Itan.

Os amigos convocaram uma primeira saída fotográfica nas redes sociais e conseguiram atrair três pessoas para a estreia do fotoclube, na Quarta-feira de Cinzas. Desde então, vêm se reunindo todos os sábados. No último encontro contaram com 33 participantes, entre moradores e curiosos.

"Não é um curso, é uma troca de experiências. Cada um vai ensinando o que sabe."

Nessas saídas, o grupo visita diversos pontos da comunidade - como a estrada de terra que liga o Alemão à Vila Cruzeiro, por onde traficantes fugiram do cerco policial na ocupação, ano passado.

Além das saídas fotográficas, Itan continua fotografando a comunidade, sejam cenas do cotidiano ou episódios de conflito.

No ano passado, ele tirou várias fotos da ocupação do Alemão, mas esses registros não existem mais.

"Tive que apagar todas as 450 fotos que tinha tirado depois que um policial civil me pegou em um beco. Ele quis ver as fotos e me obrigou a apagar", diz.

Um ano depois da ocupação, Itan diz que a principal mudança é não haver mais tráfico armado e ostensivo, e que houve melhorias na infraestrutura, com avanços em saneamento básico, asfaltamento e retirada de moradores que moravam em encostas.

Mas a ocupação prolongada do Exército, segundo ele, cria outros conflitos. "A relação da população com o Exército está muito complicada."

"Eles estão preparados para a guerra, mas não para dialogar com moradores. E o morador não sabe dialogar com autoridade, porque nunca teve autoridade lá dentro", diz. "O diálogo está bem complicado."

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