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Ivan Lessa: Calças curtas e ideias compridas

Atualizado em  23 de novembro, 2011 - 06:48 (Brasília) 08:48 GMT

O garoto chegou chorando em casa. Corre a mãe para saber o que houve. Debulhado em lágrimas, a voz entrecortada de soluços, o jovem estudante conseguiu, ao cabo de algum tempo, expor sua miséria, afagado ao colo da mãe que o adorava: "Mãe-nhê" – disse ele como se brasileiro fosse -, "a fessora não deixa que a gente use calça curta no colégio". E voltou ao berreiro e ao consolo materno.

Traduzi assim, com os artifícios literários da imaginação, o drama por que passou o menino Chris Whitehead, de 13 anos, aluno de um bom e severo colégio perto da tradicional cidade universitária de Cambridge, o colégio da aldeia de Impington.

Todos nós, rapazes, ao menos, passamos, entre os vários ritos de passagem a que a vida nos sujeita, pela transição das calças curtas para as longas, em geral ansiando por estas últimas.

Lembro-me, e peço perdão por me intrometer na saga do jovem Chris, discordando de sua posição e disposição intelectual, quando passei para o primeiro ano ginasial no Colégio Mello e Souza.

As matérias e as lições eram-me totalmente incompreensíveis, mas ah! a graduação das calças curtas azuis do primário para as calças compridas beges do ginásio. Compensava os muitos zeros que levei em matemática, história, química e até trabalhos manuais, se estou bem lembrado.

Terminadas as aulas, por volta do meio-dia, ou era calção de banho ou as longamente cobiçadas calças compridas.

Comprendo, no entanto, e me solidarizo com Chris Whitehead lá de Impington. Invejo-o também, uma vez que, sem o consolo da mamãe e o estímulo do papai, resolveu ele mesmo talvez o primeiro grande obstáculo de sua vida, que, como veremos, muito promete em matéria de criatividade improvisada.

Chris não teve por onde. Queria porque queria calças curtas. Enxugou as lágrimas, pensou um bom par de horas no problema e, sobre sua jovem e ágil cabeça, brilhou com todos seus 100 watts, aquela lâmpada que surge nos curtuns sobre a cabeça daqueles que acabaram de ter uma idéia brilhante.

Bom aluno, quase que Chris gritou, “Eureka!”. Conteve-se, no entanto, e foi tratar de solucionar aquilio que parecia não ter solução.

Chris foi até o quarto da irmã, Joanna, e, com sua anuência, pediu emprestado, por uns dias, um saiote. Nem muito longo, nem muito curto. Um saiote simples e discreto. Experimentou alguns. Plissado e com padrão escocês, cor de vinho, de florzinha.

Olho agudo, aliado a uma fina sensibilidade, eram e continuam a ser o forte de Chris. Acabou se decidindo por um modelo sóbrio em azul-marinho que lhe chegava aos joelhos. Não foi além, o Chris.

Jamais saberemos se lhe passou pela cabeça complementar o novo visual com um batonzinho discreto, um tique de rouge, um risco breve de delineador nos olhos que realçasse a beleza inteligente de seus olhos azuis como uma praia da ilha de Aruba. Na certa que não.

No dia seguinte, livros e cadernos na pasta (Papai Noel já lhe prometeu um notebook), Chris seguiu normalmente para o colégio.

Certo de que sua missão era a de corrigir um erro escolar básico, o de que no verão (o fato deu-se em maio deste ano) forçar a meninada a usar calças compridas afetava sua concentração e capacidade de aprender.

Pois foi um quinau geral. Quinau em colegas e mestres. Uns e outros finalmente entenderam a posição de Chris graças à brilhante estratégia do saiote da irmã.

Resultado: não só o colégio está revendo sua posição em relação às calças compridas no verão como também o sagaz Chris Whitehead está entre os finalistas para o prêmio Liberty, concedido todos os anos para jovens que mais tenham contribuido para a evolução dos direitos humanos.

Da parte de quem, erradamente, por certo, frio ou calor, só pensava em calças compridas, parabenizo-o sinceramente, Chris.

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