Câncer pode reduzir papel de Lula na eleição de 2012, dizem analistas

Atualizado em  29 de outubro, 2011 - 20:51 (Brasília) 22:51 GMT
Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Reuters

Cientistas políticos dizem que tratamento pode exigir que ex-presidente reduza suas atividades

Diagnosticado com câncer, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentará um tratamento que poderá forçá-lo a reduzir sua participação nas eleições municipais de 2012 e diminuir sua já declinante influência no governo Dilma Rousseff, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Neste sábado, o hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, informou que um tumor foi detectado na laringe de Lula, e que o ex-presidente será submetido a quimioterapia a partir de segunda-feira.

Segundo o oncologista Artur Katz, membro da equipe que atende o ex-presidente, trata-se de um tumor "não muito grande", cujas "chances de cura são excelentes".

No entanto, analistas afirmam que o tratamento poderá exigir que Lula reduza suas atividades atuais, como a articulação política que exerce no PT.

Nos últimos meses, o ex-presidente iniciou uma série de negociações com vistas às próximas eleições municipais, como a defesa da candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, à prefeitura de São Paulo.

Para o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), Lula teria grande capacidade de influenciar os resultados do próximo pleito.

"Se for para a campanha, ele pode ajudar a eleger vários prefeitos em cidades grandes e médias. Mas, para isso, tem de estar com boa saúde e voz para discursar."

"Se for para a campanha, ele pode ajudar a eleger vários prefeitos em cidades grandes e médias. Mas, para isso, tem de estar com boa saúde e voz para discursar."

David Fleischer, cientista político da UnB

No entanto, Fleischer afirma que, mesmo que temporária, a ausência de Lula pode acirrar as divergências no PT, já que, segundo ele, o ex-presidente desempenha hoje um papel unificador no partido.

"Sem o Lula, a tendência é que as facções petistas briguem ainda mais do que já brigam", diz Fleischer.

Segundo Ricardo Ismael, professor do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, ainda que se recupere rapidamente, Lula tende a voltar à cena política mais contido, já que terá de cuidar para que a doença não regresse.

"Se ele se curar, e tudo indica que vai se curar, provavelmente ficará mais seletivo, escolhendo melhor seus focos de atuação."

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Volta à Presidência

Além de dificultar sua atuação nos bastidores, a doença pode enterrar a possibilidade de que Lula volte a se candidatar à Presidência, segundo o historiador e cientista político Francisco Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Embora o ex-presidente negue rumores de que possa concorrer às eleições em 2014, muitos políticos consideram sua volta possível, principalmente se Dilma terminar sua gestão com baixo índice de popularidade ou com problemas com a base aliada.

Para Teixeira, porém, o diagnóstico de câncer afasta essa possibilidade, pelo menos por ora. "Embora, é importante dizer, não saibamos qual sua gravidade, a existência de uma doença insidiosa e difícil como essa altera todo o cenário político brasileiro daqui em diante."

Lula e Dilma em cerimônia no Amazonas. Foto: Ricardo Stuckert Filho/Pres.da República

Para analistas, influência de Lula no governo Dilma diminui (Foto: Ricardo Stuckert Filho)

Caso o tratamento exija que Lula se afaste da vida política, diz ele, Dilma pode emergir como a principal liderança do PT, já que os principais quadros da sigla – como os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci – foram enfraquecidos por denúncias de corrupção.

Influência no governo

Embora considerem Lula muito influente no PT, os três especialistas afirmam que o papel que o ex-presidente exerce no governo Dilma vem diminuindo nos últimos meses.

Hoje, diz Ismael, Lula mantém relação próxima com Dilma e detém considerável poder de influência sobre a base aliada, o que fez com que viajasse a Brasília para orientar os congressistas em momento de instabilidade, quando o então ministro Palocci balançava no cargo, em maio.

No entanto, os analistas avaliam que a influência de Lula no governo diminui, à medida em que ministros indicados por ele são demitidos após denúncias de corrupção.

Na semana passada, o então ministro do Esporte, Orlando Silva (PC do B), no posto desde a gestão Lula, tornou-se o sexto a deixar o governo em dez meses. Antes, outros ministros que também pertenciam à equipe chefiada por Lula, como Palocci e Nelson Jobim, abandonaram os cargos.

"A existência de uma doença insidiosa e difícil como essa altera todo o cenário político brasileiro daqui em diante."

Francisco Teixeira, cientista político da UFRJ

As demissões, diz Ismael, fizeram com que o governo passasse a ter mais a cara de Dilma do que a de Lula.

Reforma ministerial

No início de 2012, espera-se que Dilma promova uma reforma ministerial, demitindo outros ministros indicados por Lula e reduzindo ainda mais sua influência no governo.

Para Francisco Teixeira, "com Lula afastado dos bastidores, a reforma ministerial tende a ser muito mais profunda".

Outra prática do ex-presidente que tende a ser afetada pelo tratamento do câncer, segundo os especialistas, são suas frequentes viagens internacionais.

Nos últimos meses, Lula viajou à África, à Europa e a países latino-americanos. Nas viagens, divulgou a atuação de seu instituto (cujo eixo é a cooperação entre Brasil, África e outros países da América Latina), atuou como palestrante em eventos empresariais, recebeu prêmios e participou de cúpulas regionais.

Em viagem à Bolívia em agosto, Lula também atuou em favor de uma empresa brasileira. Na ocasião, ele se encontrou com o presidente Evo Morales para tratar da construção de uma estrada pela empreiteira OAS, empreendimento acordado durante seu governo. Sob forte oposição de indígenas, a obra foi suspensa.

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