Para especialistas, acordo dá fôlego à Grécia mas não resolve problema da dívida

Atualizado em  27 de outubro, 2011 - 19:01 (Brasília) 21:01 GMT
Protesto na Grécia. Getty

O ajuste rigoroso das contas gregas retarda a recuperação do país, segundo analistas

A redução pela metade da dívida grega em poder dos bancos, como prevê o acordo firmado por líderes europeus, dará novo fôlego à Grécia, mas não irá resolver a situação econômica do país, avaliam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Para os analistas, as medidas de austeridade fiscal adotadas pelo governo grego – como reduções de salários, demissões de funcionários públicos e aumento de impostos – impedem a retomada do crescimento econômico do país, tornando mais difícil a saída efetiva da crise.

A dívida total da Grécia é de 350 bilhões de euros. Desse montante, a parte detida por bancos e fundos de investimento privados é de 200 bilhões de euros.

Segundo o acordo obtido por líderes europeus na madrugada desta quinta-feira, esses credores privados aceitaram cortar em 50% o montante da dívida em seu poder, o que representa 100 bilhões de euros.

"O corte alivia em parte a situação da Grécia porque diminui os encargos com os juros da dívida", disse à BBC Brasil o economista Elie Cohen, diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França.

"Não digo que isso não adianta nada, mas o corte não vai resolver os problemas da Grécia, que enfrenta uma forte recessão e adotou medidas que deprimem ainda mais a atividade econômica", afirma Cohen.

"Os europeus deram um pequeno balão de oxigênio para a Grécia, mas o país ainda vai ficar em apneia alguns anos"

Eric Heyer, do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas

Segundo ele, a Grécia é "insolvente" e a situação atual não permite relançar a economia do país.

"A redução da atividade provocada pelos planos de rigor torna mais difícil sair da crise", diz ele.

Limite da dívida

O acordo firmado por líderes europeus prevê que a dívida grega passe dos atuais 160% do PIB para 120% do PIB em 2020.

"Mesmo se o governo grego cumprir suas promessas, realizar as reformas e privatizações e conseguir aumentar a arrecadação de impostos, o país ainda terá uma dívida de 120% do PIB em 2020. Isso é insustentável", afirma Cohen.

Ele lembra que esse percentual corresponde também à dívida atual da Itália em relação ao PIB, que é de 120%.

Já o presidente francês, Nicolas Sarkozy, declarou em um discurso na TV, na noite desta quinta-feira, que o fato de a dívida grega atingir 120% do PIB em 2020 é algo "aceitável".

Merkel e Sarkozy. AFP

Grécia deve 350 bilhões de euros; credores privados aceitaram cortar 50% da dívida

"Os europeus deram um pequeno balão de oxigênio para a Grécia, mas o país ainda vai ficar em apneia alguns anos", diz Eric Heyer, diretor do departamento de análises do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas.

"Para sair dessa espiral, a Grécia vai precisar adotar pacotes de austeridade alucinantes. Não é possível imaginar que um país como a Grécia possa absorver seus déficits no momento em que há uma grave recessão", afirma.

Crescimento

Para Heyer, se houvesse crescimento no restante da zona do euro, poderia haver uma saída mais rápida da crise grega.

"Mas todos os países europeus, com exceção da Alemanha, da Áustria e da Holanda, terão de lançar novos planos de rigor. Não haverá crescimento na Europa, mas sim uma recessão quase generalizada", afirma Heyer.

"Mesmo se o governo grego cumprir suas promessas, realizar as reformas e privatizações e conseguir aumentar a arrecadação de impostos, o país ainda terá uma dívida de 120% do PIB em 2020. Isso é insustentável"

Elie Cohen, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França

Segundo Cohen, a única saída para a situação na Europa seria que a Alemanha aceitasse arcar com os custos da crise, o que o país não aceita.

O cientista político Eric Toussaint, diretor do Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, afirma que a Grécia é "incapaz" de enfrentar a crise da dívida e também diz que a recessão, que diminui as receitas fiscais, vai continuar devido às medidas de austeridade.

Toussaint diz que no caso da moratória argentina, em 2001, o país fez o contrário: aumentou os salários e criou programas sociais de renda para estimular o crescimento econômico, o que permitiu uma saída mais rápida da crise, afirma.

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