Lucas Mendes: Vozes do Brazil

Atualizado em  20 de outubro, 2011 - 12:33 (Brasília) 14:33 GMT

Érico Veríssimo, Monteiro Lobato, Gilberto Freyre, Carlos Eduardo Novaes, Silviano Santiago, Moacyr Scliar, Fernando Henrique Cardoso, Sousandrade, Haroldo de Campos e Henfil viveram, estudaram, trabalharam e escreveram nos Estados Unidos.

A lista, se fosse completa, seria maior do que a coluna. O importante é que estão todos juntos numa nova antologia que inclui escritores também de Portugal e Cabo Verde: Luso-American Literature.

O trabalho é do brasilianista americano Robert Moser e do brasileiro Antonio Luciano de Andrade Tosta. Brasileiros não podem ser brasilianistas? Podem. Fim de papo.

Ambos fizeram doutorado na Brown University, em Rhode Island, hoje, talvez graças a um dos maiores dos brasilianistas dos últimos tempos, Thomas Skidmore, o mais produtivo ninho de especialistas em cultura brasileira nos Estados Unidos.

Quem lê sabe que a fina flor da nossa literatura passou por aqui, mas nunca esteve num livro, enriquecido com portugueses e cabo-verdianos, sobre suas experiências americanas.

Érico Veríssimo veio pela primeira vez em 1941, quando escreveu Gato Preto em Campo de Neve. Voltou em 43 com a família, saiu da Flórida para a Califórnia, de trem, com pouco dinheiro.

O porter, carregador de bagagens que dá assistência aos passageiros durante a viagem, gostou da família Veríssimo, mas ficou intrigado porque nunca saíam para comer no restaurante do trem. O escritor explicou que o trem não servia o tipo de comida apreciada pela família.

"São vegetarianos?", perguntou o carregador.

"Não, somos antropófagos."

"O quê?"

"Canibais. Comemos carne humana."

O carregador, um negro simpático, fez uma pausa e rebateu com o mesmo tempero: "Carne humana é proibida pela Constituição americana".

Monteiro Lobato trabalhou como adido comercial de 1927 a 1931 e escreveu uma "memória fictícia", onde o personagem ficou bestificado com os números americanos: o orçamento de Nova York, naquele ano, de US$ 530 milhões, era três vezes maior do que o do Brasil.

Gilberto Freyre saiu moído de saudades a bordo do navio Curvelo rumo aos Estados Unidos e fez amizade com a viúva e a filha de um missionário inglês que tinha morrido no Brasil de bicho de pé. Isto mesmo, bicho, morreu de bicho de pé.

Freyre, como todas as crianças que iam a fazendas no Brasil, não entendia como alguém morre de bicho de pé. Ele morria de saudades não só da família como até da coceira que o bicho de pé provocava.

Eu também tive bicho do pé, gostava de coçar, mas a empregada esquentava uma agulha e bye bye bicho. A coceirinha ainda durava uns dias.

Silviano Santiago fez uma viagem miserável de ônibus, pelo sul, e ficou amigo de um negro do "Alabaaaama". Aprendeu lições sobre racismo e Silviano não escondia a simpatia dele pelos negros e o pavor dos racistas.

Quando chegaram em Forth Worth, no Texas, Silviano, varado de fome, decidiu se dar um presente: o famoso steak texano, supostamente a melhor carne do pais.

Foi ao restaurante mais fino da cidade e passou por uma das experiências do novo amigo do Alabama: os garçons se recusaram a servi-lo porque não era "branco".

No cardápio do livro temos Henfil com suas cartas à mãe, Roberto DaMatta, Carlos Eduardo Novaes, autores menos conhecidos como Tereza Albues, Carlos Stozer Filho e dezenas de outros.

Desta nova geração não surgiu ainda uma Jumpha Lahiri, premiada por Namesake, um sucesso também no cinema, mas Robert Moser, professor e autor da antologia Luso-American Literature, acha "a qualidade da literatura brasileira altíssima, na poesia do poeta e romancista Marcus Vinicius de Freitas, nos contos de Luana Monteiro e outros. São tradutores entre as duas culturas que utilizam uma linguagem poética e inovadora".

"Da velha safra", diz Robert Moser, "no meio acadêmico, Jorge Amado foi superado por Clarice Lispector e Machado de Assis. Paulo Coelho é outra historia".

Moser é professor de literatura brasileira e portuguesa na universidade da Geórgia. A conexão dele com o Brasil foi pelos livros na adolescência, pela USP e pelo padrasto, um etnomusicólogo sírio-libanês que morava no Brasil. Pesquisaram as influências literárias e musicais árabes no Brasil.

Inspirado por Nelson Rodrigues, Robert escreveu a tese de doutorado, que virou o livro O Defunto Carnavalesco, sobre a morte e os mortos na literatura brasileira: Vadinho, Brás Cubas, Quincas Berro D'Água são os principais personagens.

Na casa que alugou em Niterói, com a mulher e as duas filhas, eram vizinhos de Dona Graça, costureira de uma escola de samba. As filhas, com todas aquelas fantasias, se sentiam num mundo encantado.

Quando Robert quis comprar ingressos para o desfile, Dona Graça convenceu a família a rebolar no asfalto e o gringo, um apaixonado por capoeira, não hesitou, mas achou extraordinária a coincidência.

O tema da escola era "curiosidade" e a da ala dele e da mulher era "a morte". Um ano depois do lançamento do livro, ambos desfilaram cercados de caveiras e ossadas, mortos, afoiçados e rebolativos. Viveu seus personagens.

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