Crise leva prefeitos espanhóis a pedir que cidadãos ajudem em serviços públicos

Atualizado em  17 de outubro, 2011 - 07:19 (Brasília) 09:19 GMT
Morador realiza serviço público em Cuenca de Campos, Espanha (Foto: Cortesia - prefeitura de Cuenca de Campos)

Sem dinheiro, prefeituras pedem que cidadãos recuperem velhos hábitos

Em tempos de crise, a resposta está na "corresponsabilidade". Pelo menos é este o argumento usado por muitas prefeituras espanholas, que estão pedindo aos cidadãos que se voluntariem para ajudar a manter a gestão dos serviços públicos.

Varrer ruas, regar parques e jardins e pintar bancos de praças passam a ser tarefas dos moradores.

O primeiro a apelar à cidadania foi o prefeito do município de Esparreguera. Ele avisou que falta dinheiro para pagar os serviços de limpeza urbana e de manutenção de parques e jardins. A solução é que a população assuma as tarefas públicas.

No início de outubro, os 22 mil moradores receberam uma circular com a nova solicitação municipal: "Recuperemos o hábito de nossos avós de varrer regularmente nossa parte da calçada em frente às nossas casas".

"Também pedimos aos vizinhos que reguem com água limpa periodicamente as árvores e jardins de seus bairros pela nossa qualidade de vida."

A assessoria do prefeito de Esparraguera, Joan-Paül Udina, explicou à BBC Brasil que a resposta dos cidadãos em geral tem sido positiva. "Entendem as circunstâncias econômicas em que estamos e que o governo municipal está fazendo malabarismos para sobreviver com tantas dívidas."

Revezamento

Segundo o Banco Central espanhol, o deficit dos municípios no país supera os R$ 3.25 bilhões, 12% do PIB.

Por causo do aperto generalizado, centenas de outras prefeituras passaram a seguir o exemplo de Esparreguera, pedindo que seus cidadãos se voluntariassem para pintar paredes, fazer pequenos consertos em edifícios públicos e manter parques e jardins, inclusive pintando bancos de praças.

Moradora realiza serviço público em Cuenca de Campos, Espanha (Foto: Cortesia - prefeitura de Cuenca de Campos)

Moradores de Cuenca de Campos estão se revezando em serviços públicos

Na pequena cidade de Cuenca de Campos (246 habitantes), os serviços têm até sistema de revezamento. Gente com dia e hora para cuidar dos jardins municipais e varrer as ruas.

A prefeitura de Ripollés pretende retirar parte das lixeiras e deixar apenas uma por rua. Já advertiu aos moradores que "talvez tenham que andar um pouquinho mais para deixar suas sacolas de lixo, mas a economia será de 20% nos serviços de limpeza".

Algumas prefeituras estão pedindo dinheiro aos moradores. O prefeito de Los Alcázares solicitou um adiantamento da cobrança do imposto patrimonial (equivalente ao IPTU brasileiro) alegando que não restavam fundos para pagar os salários dos servidores.

Chamado de "adiantamento solidário" o pagamento dos boletos com três meses de antecipação permitiu arrecadar o suficiente para pagar os salários dos 232 funcionários e renegociar as dívidas pelas contas de água, luz e telefone atrasadas.

'Caras-de-pau'

Mas nem todo mundo concorda com esta corresponsabilidade. Nas redes sociais foram criados grupos reclamando que a população já paga impostos para receber serviços públicos, chamando os prefeitos de "caras-de-pau" e deixando sugestões aos governantes.

Entre estas, estão propostas como reduzir os impostos em troca de ajuda cidadã e que prefeitos, vereadores e assessores municipais ganhem menos para economizar ou realizem eles mesmos as tarefas de limpeza.

Muitos reclamam de as prefeituras terem empurrado tarefas suas para grupos de cidadãos.

Feira de Outono de Arbúcies (Foto: cortesia - prefeitura de Arbúcies)

Arbúcies quase perdeu sua feira anual por causa da falta de dinheiro público

Em vários municípios, os custos e a organização da iluminação de Natal, de celebrações de carnaval ou de eventos tradicionais locais passou a depender de grupos de voluntários.

É o caso de Arbúcies, que esteve a ponto de suspender a Feira de Outono, comemorada há 19 anos a cada mês de outubro. Foi salva porque os cidadãos (pouco mais de 6 mil habitantes) se reuniram para arrecadar fundos e coordenar o evento.

"Apareceram voluntários por todos os lados. Criaram 93 comissões e substituíram eles mesmos as empresas. Para os tapetes florais, por exemplo, cada um levou as flores que encontrou", disse à BBC Brasil a assessoria do prefeito, Pere Garriga.

"Dá orgulho ver como nossos cidadãos se comprometeram com uma atividade para o bem comum que economizou um recurso (R$ 50 mil) que possa ser usado em algo mais urgente."

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