Lucas Mendes: Fala, Rinty

Atualizado em  13 de outubro, 2011 - 05:26 (Brasília) 08:26 GMT

Jipe, nosso primeiro cachorro em Belo Horizonte, era um pequinês mestiço calmo e pouco esperto. Nunca aprendeu a falar. Morreu atropelado por um ônibus na porta de casa no mesmo dia do enterro da minha avó.

Para as crianças a comoção pelo cão foi a maior e rezamos um terço para ele, com a presença do motorista atropelador. Devastado, chorou.

Quem se lembra desta e outras conexões caninas e com o resto da nossa bicharada é a querida irmã Juliana, memória de elefanta. A Cesca, uma basset que substituiu o Jipe, não falava, mas uivava quando o vizinho Geraldo, o Alemão, primeiro gay que conhecemos, estudava acordeão. O uivo ou o acordeão, qual era mais infernal?

Depois veio o Tang, um pequinês puro e pateta, o Pelé, um fox paulistinha vivíssimo, e Tric Tric, um pincher que teve um AVC, parou de respirar e foi ressuscitado pelo papai com respiração boca a boca. Sobreviveu desalinhado. As duas patas da frente ficavam à esquerda das traseiras e o sorriso ficou torto.

Juliana se lembra ainda da Pinta e da Nina. A empregada Teresa cismou que eram encarnações, conversava e cuidava delas como se fossem gente. Santa Maria! Que mineiro iria contrariar?

No quintal tivemos crocodilos, pacas, um mico e um macaco, minhocuçus, papagaio e centenas de passarinhos e só eles entravam em casa. Bastava um olhar do adorável velho, e os cães chispavam. Ele teve infância em fazenda e bicho não entrava em casa da classe média brasileira, nem americana. Vivia na fazenda ou no quintal.

Quem nos conta é Susan Orlean, autora de vários livros e colaboradora da revista The New Yorker. Já foi vivida na tela por Merryl Streep no filme Adaptation, que valeu à atriz uma indicação ao Oscar. A história envolvia orquídeas e não tinha bichos, mas Susan acha que os animais de estimação, em especial os cães, realçam o que temos de melhor.

Quando ela ouviu a história da sobrevivência do pastor alemão Rin Tin Tin, decidiu fuçar fundo e o resultado é o livro Rin Tin Tin , the Life and the Legend. Fascinante.

A primeira guerra mundial estava nos finalmentes, quando Lee Duncan, um soldado americano na França, encontrou uma ninhada num canil que acabava de ser bombardeado.

Entre os sobreviventes, Lee recolheu meia dúzia de filhotes com olhos ainda fechados que dividiu com outros soldados e conseguiu trazer um casal para a casa. A fêmea Nanete, que parecia mais inteligente, morreu pouco depois de chegar à Califórnia.

Rinty, como era tratado na intimidade e mais frágil, se transformou numa das maiores estrelas do cinema e da televisão, salvou o estúdio e enriqueceu Lee Duncan.

Os pastores alemães são uma raça nova, do fim do século dezoito, desenvolvida por um criador em busca de um cão que unisse resistência, inteligência e boa companhia para crianças e adultos. A princípio ninguém se interessou por eles até o criador distribuir os filhotes para policiais da região.

Multiplicaram e milhares deles serviram no Exército alemão para distribuir cigarros aos soldados e encontrar feridos graves. Na despedida, muitos partiram abraçados com um pastor.

Lee teve uma infância solitária e insegura. O pai abandonou a mãe quando tinha 4 ou 5 anos e ele foi parar num orfanato. Cinco anos depois, a mãe reapareceu e foram morar com o avô num rancho. Um carneiro foi seu maior companheiro até comer umas rosas do avô e terminar no fogão.

Para consolá-lo, ganhou um terrier escocês, que a mãe deu de presente no dia que saíram do rancho para um apartamento. Lee ficou vários dias de cama e passou a confiar mais nos bichos do que na família.

Na década de vinte, o cinema, ainda mudo, bombava. Um amigo de Lee, testando uma nova câmera, filmou Rin Tin Tin saltando uma cerca de três metros. O salto foi parar nos noticiários. Com o filme debaixo do braço, Lee bateu nas portas dos estúdios.

"Na Segunda Guerra Mundial, o pastor alemão foi adotado como mascote pelo Exército americano, foi o melhor amigo de Hitler e o sonho da judia Anne Frank."

No dia que foi ao da Warner Brothers, pura coincidência, um lobo não estava bem no papel. Lee convenceu que Rinty, sujo de terra escura, era melhor lobo que o lobo. Foi contratado.

Naquela época, sem som, a maioria dos atores não chegavam às patas de Rin Tin Tin e o pastor fez a transição para o cinema falado sem soltar um ganido. Só não ganhou um Oscar porque, na última hora, passaram uma regra proibindo o prêmio para os bichos.

Na Segunda Guerra Mundial, o pastor alemão foi adotado como mascote pelo Exército americano, foi o melhor amigo de Hitler e o sonho da judia Anne Frank. No seu último aniversário, pouco antes de ser encontrada e morta pelos nazistas, seu desejo era assistir a um filme de Rin Tin Tin.

O cão morreu em 1932, mas continuou vivo por décadas nos cinemas e na televisão.

O sucesso quase devastou a raça que enfraqueceu pelo abuso da procriação. A polícia do norte da Alemanha desistiu deles e adotou um cão belga. Esta perda de prestígio, escreve Susan Orlean num ensaio no New York Times, pode ser a salvação do pastor alemão.

Eu vivi o drama com a Xuxu, uma maltesa que tinha defeitos genéticos típicos da raça nos últimos anos. Era tão íntima que de vez em quando tinha pesadelos e queria dormir não no travesseiro, mas em cima da minha cabeça.

Se hoje nós temos Xuxus e mais bichos dentro do que fora de casa e até nas nossas camas em grande parte, é culpa do Rinty. Foi ele quem abriu as portas dos quintais e das fazendas.

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