Em 'dívida', Obama terá trabalho para ganhar votos latinos, dizem analistas

Atualizado em  30 de setembro, 2011 - 20:03 (Brasília) 23:03 GMT
Barack Obama (Reuters)

Obama precisa lutar para conseguir votos latinos para a reeleição

Embora a campanha de reeleição do presidente americano, Barack Obama, esteja focada no público latino, analistas afirmam que a tarefa de conquistar os votos deste público poderá ser mais trabalhosa, devido a uma série de promessas não cumpridas.

Em busca de um segundo mandato nas eleições de 2012, Obama já começou a fazer campanha em alguns canais de televisão e rádios dos Estados Unidos voltados para o público latino.

Com a frase "temos um presidente pronto para lutar", Obama tenta obter o apoio dos hispânicos – grupo com maior crescimento demográfico do país, representando 8,7% dos eleitores dos EUA. No entanto, especialistas preveem dificuldades nesta meta.

"Há uma sensação de decepção entre os latinos, pois questões que eram apontadas como prioritárias não foram tratadas assim, em um contexto em que a situação econômica se transformou no centro das políticas (de Obama)", afirmou à BBC Erwin de León, pesquisador do Urban Institute, de Washington.

Veja a situação dos latinos durante o governo Obama, item por item:

Reforma na imigração

Uma das promessas não cumpridas que podem prejudicar a campanha de Obama junto aos hispânicos é a reforma nas leis de imigração do país.

Em uma entrevista antes da eleição de 2008, o então candidato Barack Obama prometeu que "no primeiro ano (de mandato) teremos uma lei de imigração que defendo fortemente".

Mas a reforma nas leis de imigração continua sendo um desejo e uma exigência dos grupos latinos, e os Estados Unidos continuam com 12 milhões de pessoas em situação ilegal.

Em uma mesa redonda para responder perguntas de latinos na Casa Branca, realizaqda na última quarta-feira, Obama apontou como responsáveis por este quadro a oposição republicana, que, segundo ele, não tem um liderança para apresentar uma proposta de debate e negociar um acordo bipartidário que se converta em lei.

Guarda de fronteira no Arizona (Reuters)

Reforma nas leis de imigração é uma das promessas não cumpridas

"A promessa quebrada da reforma da imigração é o grande 'elefante branco' na ligação do presidente com os latinos. É preocupante, pois continua culpando o processo legislativo e não tem coragem para enfrentar um Congresso imaturo", disse à BBC Jorge Mario Cabrera, porta-voz da Coalizão pelos Direitos dos Imigrantes.

"Acreditamos que (Obama) nos apoia de forma incondicional, mas poderia usar sua autoridade para aliviar os problemas dos milhões em situação ilegal", afirmou.

"O problema é que, na prática, Obama deve responder por um número de deportações que, neste ano, vai superar ao número dos mandatos de George W. Bush", disse o pesquisador Erwin de León.

"O desespero de parte do governo em provar sua boa-fé com os hispânicos neste tema, mas sem ações de força, permitiu que aqueles que são contra a imigração e os conservadores em postos de poder definissem o debate", afirmou.

DreamAct

Uma lei prometida por Obama, a DreamAct, permitiria que 2 milhões de jovens em situação ilegal, a maioria latinos, requeressem a cidadania se completassem pelo menos dois anos de estudos no nível superior com bom rendimento acadêmico ou se servissem nas Forças Armadas.

Uma versão da lei, com o apoio do presidente e de democratas do Congresso, foi aprovada na Câmara dos Representantes (deputados federais) em dezembro de 2010, mas não conseguiu os votos necessários no Senado.

Na mesa redonda para os latinos, na última quarta-feira, Obama afirmou que a ideia de que ele poderia, de forma unilateral mudar e converter em leis os projetos é "simplesmente falsa" e voltou a responsabilizar os republicanos.

"É decepcionante, pois pensamos que finalmente teríamos respostas, mas a realidade é que somos dezenas de milhares de jovens que não fizeram nada de errado (...), mas não podemos nos matricular em algumas universidades e não temos direito a ajuda econômica o que, na prática, nos deixa fora do sistema", disse Juan Escalante, da organização DreamActivist.

Obama se encontra com estudantes em Washington (Reuters)

Estado da educação na comunidade latina não melhorou durante o governo de Obama

Educação

A situação da educação básica da comunidade latina não melhorou durante o governo de Obama.

O governo reconheceu que precisa fazer mais investimentos, além de formar professores que lidem com estudantes cujo primeiro idioma é o espanhol e de aplicar programas para aqueles que tem dificuldades no aprendizado do inglês.

Na prática, entretanto, apenas metade das crianças latinas frequentam a pré-escola e os índices de abandono dos estudos em alguns Estados chegam a 50%.

Além disso, apenas metade dos estudantes latinos conseguem se formar no ensino secundário, de acordo com o secretário de Educação, Arne Duncan.

No entanto, os efeitos vão além do ensino básico. Atualmente apenas um em cada oito latinos tem um diploma universitário.

"Há uma preocupação em um nível muito básico, dentro das famílias, sobre qual será o futuro de seus filhos em um país que está falando em prepará-los para desafios básicos. Não há uma questão partidária aqui, pois o problema é de longa data, mas havia muita esperança de que este presidente tomaria uma medida mais concreta", disse à BBC Saba Bireda, diretora do Centro para Investigação da Pobreza e Raça.

Empregos

Feira de empregos em Los Angeles

Índice de desemprego entre latinos chega a 11,3%

Em meio a uma grave crise, os índices de desemprego indicam que, para os latinos, a situação é ainda pior do que para o resto dos americanos. A taxa de desemprego nos EUA, em termos gerais, está em 9,1%, mas chega a 11,3% nesta faixa da população.

A situação está especialmente crítica para pelo menos 1,1 milhão de latinos, que procuram um trabalho há seis meses ou mais, sem sucesso.

Junto a isso, há o aumento do controle de imigração, que fez com que muitos dos que estão em situação ilegal e trabalhavam no mercado informal agora encontrem limitações junto a empresas, que não querer contratá-los sem documentos formais.

Segundo observadores, uma das razões para esta situação é que os latinos são maioria no setores de construção e indústria, duas áreas muito atingidas pela crise de 2008.

No começo de setembro, Obama lançou sua "iniciativa para o emprego" (AJA, na sigla em inglês). Com esta iniciativa, o presidente tenta injetar recursos na economia americana com ideias como o plano de investimentos em infraestrutura, medidas de criação de empregos e incentivos fiscais para empresas que contratem novos funcionários.

Obama agora faz campanha pela AJA, sabendo que sua aprovação traria alívio não apenas para a comunidade hispânica. No entanto, os críticos da iniciativa afirmam que ela pode não ser suficiente: estima-se que existam 25 milhões de pessoas sem emprego no país, um número maior do que o projeto poderia beneficiar.

Pobreza

Os números relativos à pobreza nos Estados Unidos também são piores para os latinos.

O escritório responsável pelo censo no país indicou que 15,1% da população vive abaixo da linha da pobreza. Em 2007, antes da vitória de Obama, este índice era de 12,5%.

Mendigos nos Estados Unidos (arquivo/AFP)

Índices de pobreza aumentaram no país

Entre os latinos, o nível de pobreza é bem mais alto do que entre os brancos não latinos: 26,6%, contra 9,9%.

Atualmente, mais de um a cada quatro latinos é pobre e mais de 30% destes não tem plano de saúde, público ou particular, o que os deixa fora do sistema básico de saúde.

Ao mesmo tempo, com a crise fiscal, são feitos cortes em programas sociais, como o Medicaid, um programa no qual os latinos são, em grande parte, beneficiários.

Obama afirma que as melhorias introduzidas por seu governo neste setor são um avanço, mas sua lei relativa ao setor de saúde ficou longe dos objetivos de campanha.

De acordo com pesquisas da Universidade de Michigan, serão necessários entre seis e sete anos para reverter os números de pobreza para os níveis observados no ano 2000, abaixo de 12%. Mas este é um prazo pouco promissor para uma eleição presidencial em 2012.

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