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Site ajuda filhos de doadores de sêmen a encontrar pais e meio-irmãos

Atualizado em  13 de setembro, 2011 - 07:36 (Brasília) 10:36 GMT
Inseminação artificial

Adolescentes concebidos com o sêmen de doadores encontram até dezenas de irmãos nos EUA

Famílias com crianças concebidas através de inseminação artificial estão se reunindo nos Estados Unidos por um elo em comum: o doador anônimo de sêmen.

Através de grupos e fóruns na internet, adolescentes tentam conseguir informações sobre seus doadores e encontrar possíveis meios-irmãos dispostos a fazer contato. Em alguns casos, o encontro é surpreendente.

"Temos casos de pessoas que encontram 70, 80 e até mais de 100 irmãos", diz Ryan Kramer, co-fundador do Donor Sibling Registry (DSR), o maior registro de pessoas concebidas através da doação de gametas do país.

O site, criado em 2000 como um grupo de e-mails no Yahoo, permite que filhos busquem seus doadores e meios-irmãos, deixando postagens em uma espécie de mural.

Na maior parte das vezes, a referência para o encontro é o número do doador de sêmen no banco ou clínica, uma das poucas informações fornecidas às famílias.

Estima-se que mais de 30 mil crianças a cada ano sejam concebidas através da compra de sêmen nos Estados Unidos.

Curiosidade

A administradora Michele Jorgenson, de 40 anos, tomou a iniciativa de procurar o pai biológico de sua filha Cheyenne, quando ela tinha 9 anos.

"A principal razão foi curiosidade. Eu queria conhecer a outra parte dela. E também tinha medo de ele ter morrido e ela nunca ter a chance de conhecê-lo", disse à BBC Brasil.

A busca durou dois anos e hoje, Cheyenne se encontra com seu doador anualmente, durante o verão. Mas mesmo antes de encontrá-lo, a menina começou a conhecer seus 13 meios-irmãos, através do Donor Sibling Registry.

Michele diz que já organizou encontros familiares com até oito dos irmãos de Cheyenne e seus pais. "Acho que foi positivo para ela, porque ela não teria outros irmãos e irmãs se não fosse por isso", diz a mãe.

Cheyenne Jorgenson com meios-irmãos. Foto: Arquivo pessoal

Cheyenne Jorgenson se encontra regularmente com alguns de seus 13 meios-irmãos conhecidos

Michele, que vivia com uma parceira quando concebeu Cheyenne, conta que a filha dizia, durante a infância, que queria "uma família normal". Para Michelle, essa foi uma das razões pelas quais quis identificar logo o pai biológico de sua filha.

"Não quis que ela ficasse chateada por não conhecê-lo ou que ela passasse pela dor de não saber quem ele era. Pensei que talvez um dia ela pudesse se ressentir de mim por não saber sobre ele", diz.

Segundo uma pesquisa conduzida por Wendy Kramer com pesquisadores da Universidade Estadual da Califórnia usando a base de dados do site, filhos de casais homossexuais, que correspondiam a cerca de 40% dos visitantes do DSR, tendem a descobrir mais cedo que foram concebidos através da doação de sêmen ou óvulo e a ter mais abertura para falar sobre o assunto com a família.

"A maioria dos filhos de todos os tipos de família deseja ter algum contato com seu doador, mas há menos conforto para discutir isso em famílias com pais heterossexuais", diz o estudo.

'Família estendida'

O DSR foi criado por Wendy Kramer em 2000, quando seu filho Ryan começou a ter curiosidade sobre seu pai biológico.

"Um dia perguntei a minha mãe: 'meu pai está morto ou o quê?'. Ela não estava muito preparada, mas me respondeu o melhor que podia", disse Ryan Kramer à BBC.

Sem ajuda do banco de sêmen, Wendy e Ryan desenvolveram um site onde doadores, filhos e meios-irmãos podem se encontrar e trocar informações médicas e experiências.

"Descobrimos por acidente que ele tinha uma meia-irmã, porque uma pessoa do banco de sêmen nos disse sem querer. Aí começamos o grupo no Yahoo, para procurá-la", disse Wendy à BBC Brasil.

Atualmente, o site recebe 10 mil visitas por mês e já possibilitou o encontro de 8.400 pessoas com irmãos ou doadores.

"Há alguns doadores que fazem mais sucesso nos bancos de esperma, porque são atléticos, inteligentes, etc. Por isso os bancos não querem tirá-los dos seus catálogos."

Randi Epstein

Mas a dificuldade de falar sobre o tema também impediu que Ryan Kramer fizesse contato com as primeiras meias-irmãs que descobriu através da popularidade do site.

"Na primeira vez, a mãe de irmãs gêmeas me procurou para dizer que elas eram filhas do mesmo doador que eu, mas disse que elas não podiam saber que foram concebidas com uma doação de sêmen", conta.

"Algum tempo depois descobriu outra meia-irmã e começamos a nos corresponder, mas a mãe dela impediu o nosso contato. Nunca mais nos falamos. Foi muito difícil para mim que as primeiras pessoas que encontrei tivessem essa resposta."

Agora, ele encontra regularmente com três irmãs dos sete meios-irmãos que descobriu. "Mas acho que o número real está entre 20 e 30".

Conhecer o pai biológico foi mais difícil para Ryan, que teve que colocar seu DNA em um banco de dados e cruzar as respostas com um registro público da cidade onde sabia que seu doador tinha nascido.

"Quando tinha certeza, escrevi uma carta para ele dizendo que só queria conhecê-lo. Ele me respondeu e desde então desenvolvemos uma relação única e muito boa, nos encontramos ao menos uma vez ao ano. Meus avós biológicos se mudaram para perto de mim e eu os vejo sempre, é como uma família estendida", diz.

Doadores de sucesso

Segundo Wendy Kramer, o grande número de filhos de um mesmo doador pode criar novas famílias, mas também causa problemas.

"Os doadores estão dispostos a encontrarem os filhos porque sabem que é o correto a fazer, mas geralmente se retiram do site depois que encontram 7 ou 10 crianças, porque não conseguem lidar com muito mais do que isso", diz.

Ryan Kramer com meias-irmãs. Foto: Arquivo pessoal

A família de Ryan Kramer agora inclui três meias-irmãs, além do pai e dos avós biológicos

"Os bancos prometem que o sêmen do doador não será usado para mais que dez ou 20 crianças, mas é uma piada. Os pais vem ao nosso site e dizem 'Eu encontrei 25 filhos! Como é possível? Eles me prometeram que não seriam mais que dez!'."

A pesquisadora americana Randi Epstein, autora do livro Get me out: A History of Childbirth from the Garden of Eden to the Sperm Bank (Me tire daqui: Uma história do nascimento desde o Jardim do Éden até o Banco de Esperma), diz que nos Estados Unidos, não há registro sobre a comercialização de sêmen nem sobre o número de bebês nascidos de cada doador desde 1988.

"A contagem, assim como os exames médicos, é feita pelos bancos. Então os pais não vão ter o sêmen de alguém com HIV ou com infecções sérias. Mas o doador pode acabar tendo 50 filhos", disse à BBC Brasil.

De acordo com Epstein, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva recomenda aos bancos de sêmen e clínicas que não permitam mais de 25 nascimentos de um mesmo doador em uma população de 800 mil pessoas, para evitar a ocorrência de casamentos consanguíneos.

"Mas isso nem sempre é obedecido, porque há alguns doadores que fazem mais sucesso nos bancos de esperma, porque são atléticos, inteligentes, etc. Por isso os bancos não querem tirá-los dos seus catálogos", diz.

Movimento

Iniciativas como a criação de sites para ajudar filhos de doadores de sêmen a encontrar familiares biológicos não contam com o apoio ou a colaboração explícitos dos bancos de doação, nem das autoridades americanas.

Através dos sites, os familiares e filhos de doadores anônimos nos Estados Unidos criaram um movimento pedindo a criação de leis que garantam seu acesso a informações sobre a localização e o histórico médico do doador de sêmen.

O Estado de Washington foi o primeiro a conceder aos filhos o direito de conseguir informações sobre seus pais biológicos, no último mês de julho.

De acordo com a nova lei, eles podem consultar as informações a partir dos 18 anos, a não ser que os doadores assinem um termo que proíba expressamente a divulgação de sua identidade.

Países como a Suécia, a Áustria e o Reino Unido aboliram completamente as doações anônimas.

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