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Lucas Mendes: Do 'Rock the Casbah' às torres muçulmanas

Atualizado em  8 de setembro, 2011 - 05:32 (Brasília) 08:32 GMT

“Você já cobriu doze guerras? Incrível”, disse o anfitrião da TV. “Qual foi sua favorita?”.

A audiência veio abaixo. A entrevistada não perdeu a graça.

“Foi a do Líbano”.

Era Robin Wright, jornalista e escritora especializada em Oriente Médio e islamismo, mas o crédito maior e mais recente dela não é ter coberto tantas guerras. Ela está em destaque porque em 2008 publicou o livro Dreams and Shadows e anunciou que viria uma reação anti-ditaduras e anti-terroristas no Oriente Médio. O livro foi recebido com ceticismo.

Os críticos estão queimando a língua e ela está no circuito promovendo o novo livro, Rock The Casbah: Rage and Rebellion Across the Islamic Word.

O título vem de uma música do grupo punk inglês The Clash, uma provocação cultural. No livro ela conta como previu as revoluções no mundo árabe, o movimento anti-Al-Qaeda e contra outros jihadistas.

Mas onde ela viu, em 2008, os sinais de que as ditaduras do Egito, da Tunísia e da Líbia iriam implodir, e que outros países, como Síria, Iêmen, Bahrein e Irã, seriam ameaçados por revoltas populares?

Para ela, os sinais mais evidentes de descontentamento estavam no Egito e no Irã. Mubarak caiu em apenas 18 dias. O Irã sufocou os protestos com uma repressão brutal e eficiente em 2009, mas não necessariamente definitiva.

Desde 1973, ela já viajou por 140 países, a maior parte do tempo entre os árabes. Os sinais que ela viu e ouviu, e que a maioria dos jornalistas ignorou, vieram de líderes menores, de mulheres inconformadas e de movimentos culturais.

A partir de 2005, vários líderes regionais começaram a romper com a Al-Qaeda, a criticar os ataques às torres e as bombas suicidas. As mães perceberam que as mortes dos filhos pareciam em vão: “Era melhor ter um filho com laptops no colo do que bombas”.

Poetas, cantores e rappers compunham e cantavam contra a situação.

Robin diz que o movimento contra os radicais não é pró-Ocidente. Os árabes não querem o modelo iraquiano com intervenção americana ou da Otan. “A inspiração é islâmica, mas sem governo religioso”.

Como estes revolucionários amadores, idealistas, poetas e cantores vão assumir o poder é a grande dúvida. O terror suicida perdeu a parada, mas será que os radicais vão ganhar no voto o que não conseguiram pelas bombas? Robin não tem esta resposta, mas é uma otimista porque os radicais fracassaram e não têm nada para oferecer.

Ela rejeita a expressão “Primavera Árabe” porque acha que diminui a profundidade do movimento: “Não aconteceu em três nem seis meses. Foram anos de fermentação e sofrimento”.

Os árabes não querem influência americana, mas muito vai depender dos Estados Unidos, do governo e de sua população desconfiada e ignorante sobre os muçulmanos, que ainda representam uma percentagem pequena do país, mas, curiosamente, são mais feliz do que o resto do país. Enquanto 72% dos americanos se dizem infelizes, 56% dos muçulmanos que vivem aqui estão felizes, apesar da constante vigilância da polícia e das inconveniências do dia a dia, em especial nos aeroportos.

Nas vésperas dos dez anos do 11 de setembro, vale a pena terminar com uma conexão pouco promovida pelos americanos sobre as torres destruídas e que nos jogou nesta confrontação de final imprevisível.

O arquiteto que construiu o World Trade Center foi o japonês americano Minoru Yamasaki, um apaixonado por traços religiosos árabes. Ele criou uma Meca americana. As bases, com aqueles arcos pontudos, eram inspiradas em mesquitas que ele já tinha usado em outros desenhos. Durante 15 anos, Yamasaki usou a fórmula em dezenas de projetos, entre eles o Pavilhão de Ciências na Feira Mundial de Seattle, o terminal da Eastern Airlines no aeroporto Logan, em Nova York, e até na North Shore Congregation de Israel, em Glencoe, Illinois.

O aeroporto de Darham tem bases idênticas às das torres, e a praça central era uma cópia da praça de Meca, onde fica o Qa'ba, aquele cubo com a pedra sagrada, suposto sepulcro de Hagar e Ismael, uma fonte sagrada dos muçulmanos.

Nas torres de Nova York, ele substituiu o cubo por uma esfera, supostamente um globo terrestre. Dê uma olhada nas fotos. Falam mais do que mil colunas.

No solo sagrado do marco zero, onde se forja um novo símbolo americano, sólido, exorbitante e desafiador, as conexões muçulmanas entre as velhas e a nova torre serão convenientemente esquecidas.

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